Simplesmente, margarida!

Receber uma margarida é um gesto carinhoso; assim como outros que podemos ter. Está em nossas mãos reforçar o valor dos que nos cercam.

Uma margarida, assim como qualquer flor, possui delicadeza e evoca sensibilidade e perfeição. Cada pétala, folha e suas cores perfeitamente combinadas, transmitem pureza e simplicidade. Contudo, seja uma margarida, rosa ou orquídea, as flores com seus perfume característicos, formatos e cores suaves ou extravagantes, são instrumentos poderosos de afeto. Elas, isoladamente ou acompanhadas, são veículos de mensagens subliminares. Mas, podemos agregar significado a cada uma delas. Ou seja, serão apenas flores até que um olhar mais atento elege-as como símbolo do que deseja expressar.

Por isso, seja qual for o momento, receber e dar flores é um gesto delicado e de muito bom gosto. Elas raramente são indesejadas. O carinho, a paixão, o desejo de reconciliação, a saudade ou qualquer outro sentimento pode ser ainda mais intenso quando acompanhado de flores. A margarida, em especial, possui uma simplicidade que encanta. A natureza nos presenteou com beleza através de plantas e de uma variedade de flores que podem reforçar o que desejamos comunicar. Contudo, ela será simplesmente uma margarida até que seja colhida e direcionada a alguém. O que a torna especial, portanto, é ter sido escolhida e endereçada a quem desejamos agradar ou homenagear.

Gestos simples como dar flores, dizer obrigada e sorrir podem transformar o dia de quem convive conosco. Porque, nossa interação com quem está à nossa volta pode representar um bom momento de sua vida. Ou quem sabe ser aquele olhar que a fará enxergar um momento difícil com mais leveza. Saber que alguém lembra de nós, que se importa ou que está disposto a estar ao nosso lado, nos deixa mais fortes. Pois, precisamos da interação com nosso semelhante. Ter nosso valor reforçado por estes gestos, em certas ocasiões, é tão importante quanto respirar.

“Leve os jovens a enxergar os singelos momentos, a força que surge nas perdas, a segurança que brota no caos, a grandeza que emana dos pequenos gestos!” Augusto Cury

Acrescentando leveza

A vida é dura demais, e propõe desafios em níveis que nem sempre estamos preparados para enfrentar. Ela, também, é curta e oferece janelas de oportunidade que se fecham. Portanto, mesmo que soe como um chavão, temos que aproveitar os segundos que temos, fazendo escolhas sábias. Pois, o agora já se transformou em passado. Mas, o tempo bem usado, pode ser nosso grande aliado. Não temos opção de retroceder em alguns casos; já que, nem sempre o conserto de uma escolha errada é factível. Assim como, nem sempre temos consciência do valor do outro, até que deixe de conviver conosco. Porque, o valor que cada ser humano tem para nós, está intrinsecamente atrelado ao nosso olhar.

Portanto, temos poder de transformar alguns minutos, ou quem sabe horas da vida de alguém. Certamente a mudança pode ser benéfica ou maléfica. Ou seja, o tom de voz, a escolha das palavras ou do momento certo de expressar, é o que separa a comunicação eficiente da desastrosa. Por isso, cada componente do que comunicamos transforma a mensagem em algo fácil ou difícil de digerir. Já que, somos capazes de gerar esperança ou desânimo e, inegavelmente; temos capacidade de expressar empatia com pequenos movimentos na direção de quem conta conosco. O egoísmo, no entanto, nos isola e limita. Certamente, perdemos muito mais quando escolhemos reter do que quando nos doamos.

“É insaciável o desejo de doar-se a quem mora em nosso pensamento.” Daniel Bueno

Fazendo declarações

“Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram.” Machado de Assis

Nosso ser comunica mensagens o tempo todo. Por isso, podemos iluminar o ambiente em que estamos ou torná-lo denso. No entanto, não se trata de buscar um tipo de equilíbrio que nunca nos abale. Ou seja, que cobre de nós um tipo de imunidade que certamente não somos capazes de sustentar. Trata-se apenas de se permitir ser visto; apoiando-se na vulnerabilidade para declarar que sabemos como o outro se sente. É, também, escolher parar e prestar atenção, desviando o olhar de nosso próprio umbigo. Pois, há poucos metros, ou quem sabe centímetros, pode haver alguém precisando de doses de quem somos.

Contudo, quando a distância dificulta o contato; um telefonema, um bilhete, um recado, podem ser excelentes opções. Já que, tem valor qualquer iniciativa que demonstre o quanto nos importamos e sentimos falta, de quem nem sempre pode estar presente. A vida nos conduz por caminhos distintos; separando amigos e familiares por diversos motivos. Portanto, por mais legítima que sejam as motivações que respaldam cada escolha feita, nada substitui o papel de algumas pessoas em nossa vida. Por isso, precisamos despertar nossa sensibilidade. Uma margarida pode deixar de ser simplesmente margarida, se a entregarmos a alguém. Assim como uma pessoa deixará de ser mais uma na fila, quando nos dirigimos a ela com respeito e consideração.

Compaixão não é o mesmo que pena.

Demonstrar compaixão não é o mesmo que sentir pena. A compaixão é ativa e próxima. A pena é distante e inerte.

Demonstrar compaixão por circunstâncias alheias é diferente de sentir pena de alguém. A pena não cria vínculos, porque não gera atitude, é distante. Sentimos pena de pessoas que vivem situações desastrosas ou difíceis. Mas, é um sentimento desprovido de empatia, que anula a ação. Quando sentimos pena, mantemos uma distância segura e uma postura que desencadeia vergonha.

Ou seja, não nos identificamos suficientemente a ponto de nos envolver com a questão. A pena lesiona mais do que cura. Porque provoca uma comparação nociva e inevitável entre alguém que sofre com quem está bem. Inegavelmente este tipo de distanciamento atrapalha mais do que ajuda. No entanto, a compaixão é uma espécie de reconhecimento de nossa essência.

Por isso, sempre envolve empatia. Identificamos a luz e as trevas da humanidade e decidimos repartir bondade e amor com os que sofrem. Uma pessoa compassiva é também aquela que se trata com respeito e tolera momentos difíceis com mais honestidade. Porque, a não ser que tenhamos uma visão correta de nossa própria humanidade, não seremos capazes de demonstrar compaixão.

“A compaixão não é uma relação entre aquele que cura e o ferido: é uma relação entre iguais. A compaixão se torna real quando reconhecemos nossa humanidade compartilhada” Pema Chödrön

Escolhendo a compaixão

O reconhecimento de nossa própria escuridão, ensina-nos a sentir compaixão pelas trevas alheias. A empatia é o elo de ligação fundamental entre a circunstância que vivenciamos e a do outro. É a habilidade emocional que extrai reações significativas e atenciosas. É também a capacidade de entender as vivências alheias, espelhando-se nelas. Ou seja, sabemos que poderíamos estar vivendo algo semelhante.

Por isso, temos facilidade de nos imaginar naquela situação. No entanto, precisamos diferenciar esta capacidade de compreender o que o outro sente, com sentir em seu lugar. Porque enquanto a empatia gera compaixão e nos conecta com a dor de outrem, a decisão de ocupar seu lugar, prejudica. Porque vivenciar algo como substituto, não é possível ou saudável. Pelo contrário agrega conflito à dor.

A empatia é o antídoto contra a vergonha, estando no centro dos vínculos que estabelecemos. Nosso coração é de essência nômade; isto é, facilmente as dores da vida o conduzem por rotas de fuga. Pois, nem sempre temos desenvolvida uma estrutura emocional, que nos possibilite lidar com a origem de alguns conflitos. Por isso, anestesiamos o desconforto com o distanciamento ou algum subterfúgio que possa minimizá-lo.

A sabedoria da escolha

Inegavelmente, quem elege a compaixão respeita as escolhas do outro, ainda que saiba que podem ser destrutivas. Porque, ser compassivo nem sempre é sinônimo de interferência ou intervenção. A compaixão é ativa, sem ser invasiva. Visto que, ouvir, entender, apoiar são formas de demonstrar interesse pelo outro. Diferenciar corretamente o momento de falar e ouvir é decisivo. Assim como de agir e esperar.

Portanto, a verdadeira compaixão respeita o processo do outro. Pois, crescemos quando lidamos com desafios. Já que, a precipitação ou a iniciativa errada, pode desencadear insegurança e potencializar ainda mais o medo de quem sofre. A empatia que sustenta a compaixão discerne as batalhas e se mostra solidária. Por isso, os vínculos que nascem destas circunstâncias, aproximam as pessoas. Pois, sentem-se ouvidas e valorizadas.

“Que você possa sempre fazer pelos outros e deixar que eles façam por você.” Bob Dylan

Escolhendo confiar

Quando aprendemos a dar e receber sem julgamentos, extraímos força do relacionamento. Contudo, qualquer posicionamento de superioridade, fundamentado em perfeccionismo é destrutivo. Já que, o perfeccionismo não é saudável e quando está controlando a relação, desencadeia vergonha. Demonstrar compaixão exigirá sempre disposição de ser vulnerável.

Não nos faltam oportunidades de demonstrar compaixão. No entanto, é nossa a escolha de interagir ou não com tais oportunidades. Porque, confiar que a compaixão que demonstramos por alguém será corretamente interpretada, envolve risco. Ou seja, assumimos o risco de transformar algo que valorizamos, vulnerável aos atos de outra pessoa. No entanto, a desconfiança nada mais é do que desclassificar uma pessoa. Ou, em outras palavras, considerá-la pouco merecedora ou incapacitada de valorizar o que para nós importa.

De maneira idêntica, ao demonstrarmos compaixão, nossos temores são confrontados e descobrimos mais a respeito de quem somos. Talvez nos arrependamos do fracasso da bondade que repartimos. No entanto, ainda que esse seja o caso, somos transformados na trajetória. E em última análise, este deve ser nosso alvo. Pois, mesmo que o outro não valorize ou reconheça nosso gesto, somos livres para prosseguir.

“Desespero é um estado de espírito. É a crença de que o amanhã será igual ao hoje.” Rob Bell

Evitando o isolamento

Portanto, não confiar é isolar-se. É deixar que o desespero e a desesperança ditem as regras do jogo. É, também, deixar que os fracassos e decepções nos paralisem. O otimista não é apenas quem não é pessimista. Mas aquele que, mesmo sabendo que corre riscos, arrisca. Perder a confiança é desistir da humanidade e de sua redenção.

É, também sinônimo de desistir de lutar, de sonhar e abandonar qualquer nível de expectativa. É ainda, escolher lidar apenas com o lado sombrio da natureza humana. Traímos nossos valores quando escolhemos não praticar a generosidade com o outro e conosco mesmo. O isolamento jamais será uma opção viável; pois potencializa as mágoas e ressentimentos.

“Esperança é um processo cognitivo de pensamento composto por: metas, caminhos e motivação. Esperança é aprendida, quando há limites, coerência e apoio.” C R Snyder

Lidando com as emoções de forma adequada.

Nossas emoções existem para expressar como nos sentimos. Nenhuma delas é inadequada na essência. Precisamos, no entanto, lidar com sua origem.

Nossas emoções existem e nenhuma delas é negativa na essência. Elas são verdadeiros termômetros que medem o estado de nossa alma. Sentir medo, insegurança, inveja, raiva é sinal de que algo está desequilibrado. Mas, mais danoso que asfixiar estes sentimentos é ignorá-los. Obviamente, ninguém em sã consciência, escolhe expressar emoções negativas. Contudo, elas são reais e manifestam-se em momentos diversos de nossa vida. Escavar mágoas e ressentimentos não é uma tarefa fácil. Decidir lidar com a origem destas emoções exigirá coragem e determinação.

Toda busca por superação esbarra em fragilidades. Atingir objetivos maiores e metas ousadas envolve lidar com o que nos limita de forma honesta. Fatalmente a dor que se instala na origem de cada emoção virá para superfície. Por isso, instintivamente buscamos aplacá-la ou ignorá-la, sempre que possível. Ocorre, no entanto, que por mais inofensiva que pareça ser esta tentativa, ela nos bloqueia. Pois, nascemos com a necessidade de expressar o que sentimos. Estrangular estes sentimentos, tanto os considerados negativos como os positivos, danifica nossa psiqué.

Muitos de nós fomos ensinados, pelas reações de nossos pais e líderes, a mascarar o que sentimos. Esta atitude é, de certa forma, um comportamento adquirido de autoproteção. Especialmente em famílias mais desestruturadas as emoções são comumentes ignoradas e reprimidas. Pessoas que sofrem desapontamentos sozinhas, tendem a criar verdadeiras fortalezas dentro de si. Ao contrário do que pensam, estas muralhas não protegem-nas de fracassos ou de feridas. Inegavelmente, escolher este comportamento isola-nos dos outros e distorce quem somos.

“Dor é inevitável. Miséria é opcional.” Autor desconhecido

Implodindo no silêncio

Nosso silêncio gera implosão. Pois, é de dentro para fora que nos destruímos. Os conflitos internos são bem mais destrutivos e poderosos do que qualquer dificuldade externa. Quebrar o silêncio e verbalizar nossas emoções é o início de nossa cura. Certamente só faremos isso quando sentirmos que estamos em terreno sadio. Ou seja, ninguém que tenha tendência a sufocar o que sente, dará acesso facilmente ao que guarda dentro de si. Pois, quanto maior for a confiança conquistada pelo relacionamento, tanto maior será nossa capacidade de permitir que vejam quem somos de fato.

O ser humano foi criado para conviver com seus semelhantes. Por isso, as tentativas de isolamento sempre fracassam. Já que parte do que nos completa está no outro. Por mais que as relações familiares sejam conflituosas, lidar com elas é mais saudável do que escolher ignorá-las. O isolamento físico não soluciona as desavenças ou remove cicatrizes. De maneira idêntica, não é capaz de minimizar as lacunas e feridas que se instalaram. Portanto, qualquer esforço que façamos para maquiar estas emoções será ineficiente. Porque nossas escolhas e a maneira como lidamos com nossas circunstâncias denunciam a existência da batalha interna.

Por isso, tanto o extremo de reprimir o que sentimos, como o de expressar indiscriminadamente é desaconselhado. O oposto de conter é explodir de forma constante e descontrolada. Tanto a pessoa que não exerce autocontrole em relação ao que sente, como a que abafa suas emoções; sofre. O equilíbrio entre estes dois extremos é reconhecer a existência da emoção e buscar sua origem. Porque cada emoção está atrelada a uma fonte legítima que a alimenta. Pode ser um trauma, uma ferida, uma distorção ou qualquer outra experiência que danifica nossa alma. Mesmo as emoções consideradas positivas como amor, carinho e alegria podem ser negligenciadas e debeladas ocasionalmente.

Quando a casa cai

“Minha casa incendiou. Agora nada mais oculta a visão da lua.” Mizuta Masahide

Deixar a casa cair pode ser a opção mais saudável em algumas ocasiões. Ou seja, o esforço que empreendemos para manter a casa de pé, nem sempre é adequado. Talvez o mais apropriado seja lidar com a realidade de sua destruição. Reconstruir não é tão difícil quanto permanecer fazendo remendos sobre um alicerce frágil. Ter coragem de zerar algumas etapas pode representar um recomeço. Pois, nosso ego tende a trapacear, oferecendo soluções que escondam sua real condição. Por isso, evitar a verdade e a vulnerabilidade são estratégias que fortalecem a trapaça do ego.

Os capangas do ego são a raiva, culpa e a negação. Ele gosta de culpar, colocar defeitos, inventar desculpas, se vingar e perder a cabeça. Já que, cada uma destas reações são variações de formas de autoproteção. Por isso, quando a raiva, culpa e a negação empurram a mágoa, decepção ou dor para longe; a trapaça é legitimada. Porque, estas emoções possuem pontas afiadas como se fossem espinhos. Portanto, quando nos espetam causam desconforto ou dor. Por isso, o ego foge deste incômodo de forma instintiva; não sendo, portanto, um conselheiro confiável.

Combater de forma consciente os apelos de proteção do ego é determinante para nossa liberdade. Já que, qualquer nível de prisão interna distorce nossa personalidade e bloqueia nossa identidade. Por isso, sentir raiva ou inveja deve sinalizar sempre a existência de algum gatilho interno que devemos analisar. Encarar o desafio de codificar corretamente a origem do sentimento exigirá vulnerabilidade, que é a essência da coragem. Porque, pessoas bem resolvidas são aquelas que optam por não ignorar o que sentem. No entanto, o reconhecimento de uma emoção, implica em assumir responsabilidade de equilibrá-la.

Assumindo responsabilidade pelo que sentimos

“Você pode não controlar tudo o que lhe acontece. Mas pode tomar a decisão de não se deixar reduzir pelos acontecimentos.” Maya Angelou

Muitas pessoas são exemplos vivos de superação. Uma destas pessoas, certamente, é Maya Angelou. Sua biografia é recheada de momentos que tinham potencial para destruí-la. No entanto, ela decidiu resignificá-los; tendo ousadia de reconhecê-los. Pessoas com trajetórias bem menos desafiadoras sucumbem. Ela, no entanto, é uma das vozes e exemplos que se levantam para provar que temos capacidade de superação. Ela não remendou seu passado e nem escondeu-se dele.

Por isso, quando nos levantamos de lugares de destruição descobrimos a mesma capacidade que ela experimentou. A escolha será individual. A tarefa não pode ser terceirizada e ninguém pode receber a culpa pelo que nos acontece. Eventualmente a vida oferta pratos menos saborosos e atraentes. Mas, nós decidimos do que vamos nos alimentar. Não podemos evitar circunstâncias e não é saudável ignorar as emoções.

Portanto, ao nos posicionarmos de forma correta diante das dificuldades, temos chance de aprender lições valiosas. A distância que existe entre uma pessoa bem sucedida de uma fracassada é diretamente proporcional ao seu desejo de lidar com o que sente. A negação é o pior dos venenos que podemos ingerir. Emoções são legítimas e não devemos suprimi-las. Cada um de nós é chamado a equilibrar o que sente, lidando honestamente com sua origem.

Reconhecendo a origem

Nada do que sentimos brota da superfície por acaso. Por isso, quando a raiz é saudável, não temos do que nos envergonhar. Ou seja, a identificação da raiz nos permite remover o que alimenta as emoções negativas e adubar o que queremos que cresça. Cada ser humano escreve sua história de forma menos ou mais emocionante. A razão precisa ter espaço, mas as emoções não devem ser negligenciadas.

Existe capacidade dentro de cada um de nós de experimentar o equilíbrio entre a razão e a emoção. Pois, tudo em excesso oferece algum risco. Portanto, ao sentirmos que as emoções afloram, pedindo espaço para se manifestar, temos que ser sábios. Silenciá-las não pode ser uma opção, assim como expressá-las de forma descontrolada não é adequado. A saúde de nossa alma depende deste equilíbrio e nunca é tarde para iniciar esta jornada.

Pertencer é diferente de encaixar-se

Temos necessidade de pertencer e não de um encaixe. Enquanto o pertencimento nos completa, o encaixe nos esvazia.

O ser humano foi criado com a necessidade de pertencer. Somos seres sociais, precisamos de convívio com nossos semelhantes que nos completam e desafiam a ser pessoas melhores. É neste convívio que amadurecemos e adquirimos consciência de nossos limites e lacunas. Os relacionamentos revelam também nossas qualidades, bem como nossa capacidade de lidar com diferenças.

Relacionar-se com quem tem afinidades conosco é legítimo. Pois, em geral são as semelhanças que nos aproximam e constituem o ponto de partida do relacionamento entre casais, amigos e colegas. No entanto, na família não exercemos escolha, somos apresentados a um tipo de pertencimento imposto. Por isso, alguns destes relacionamentos são desafiadores, mas são estes mesmos que possuem potencial de nos transformar.

Em geral nos irritamos ou discordamos de pessoas tão teimosas quanto nós. O velho ditado que diz que “dois bicudos não se beijam” é verdadeiro. Quanto mais semelhanças temos com determinada pessoa, mais facilmente nos deparamos com regiões de conflito, já que os pontos cegos também são compartilhados. Na prática não são os opostos que se atraem, e sim os iguais. Nossa principal tendência é de nos associar com os “iguais”, não com os “diferentes”.

A importância de pertencer

Pertencer a uma família, ou grupo de amigos com objetivos comuns, seja no trabalho, na escola ou vizinhança é imprescindível. Precisamos do que o outro carrega, no entanto não podemos confundir a necessidade de pertencer com o “encaixe” forçado. O pertencimento agrega valor e segurança à nossa existência. O encaixe, ao contrário, rouba nossa identidade e nos conduz por um caminho onde máscaras são usadas em nome da aceitação.

Qualquer um que deseja encaixar-se em algum grupo com o qual não se identifique minimamente, acabará traindo a si mesmo. Nenhuma aceitação deve custar tanto, porque não seremos capazes de extrair deste tipo de convívio algo que nos deixe melhor. Além disso, relacionamentos fundamentados em mentira não se sustentam. Relacionar-se é uma arte, exige boas doses de perseverança, paciência e muito amor. No entanto, quando um relacionamento violenta nossa essência, ele deve ser descartado.

Portanto, o exato momento em que percebemos que nossa identidade foi agredida ou sacrificada, constitui um alerta. Certamente algo está indo na direção errada e precisamos corrigir a rota. Pois, pertencer deve ser consequência de empatia e comprometimento mútuos. Porque, esta é uma via de mão dupla, não existe possibilidade de se estabelecer algo duradouro sobre outro tipo de alicerce. Ambos os envolvidos, precisam dar passos nesta direção, porque a manipulação e as máscaras inviabilizam parcerias sólidas.

Pertencendo sem medo

A busca por “pertencer” a lugares e grupos com os quais podemos aprender e trocar experiências é um componente importante da equação da vida. O isolamento não nos deixa melhores, nem nos protege de sofrer decepções. Quando nos isolamos estamos indo contra tudo que sustenta nossa existência; porque é na troca com o outro que nos tornamos pessoas mais completas. Porém, quando buscamos pertencer nos deparamos com a dor de decepções e frustrações.

É preciso ter coragem para admitir o quanto nos sentimos solitários e o quanto o outro nos faz falta. Mas, além disso, é preciso ter coragem para lidar com a mágoa e o ressentimento. Porque não existe coragem sem vulnerabilidade. Ser vulnerável é assumir nossa real identidade, é lutar por um lugar que nos pertence, na mesma medida que buscamos pertencer. Não são os outros que atribuem o valor que temos. É nossa capacidade de lidar com quem somos, que dá aos outros capacidade de reconhecer isso.

A ordem dos fatores, neste caso, altera o produto. Já que, quando nos esforçamos para nos encaixar, violentamos quem somos. Mas, quando temos coragem de ser quem somos, pertencemos naturalmente e atraímos pessoas com valores semelhantes. Este não é um caminho fácil de percorrer, existem etapas doloridas e solitárias. No entanto, é a única forma verdadeira de construir relacionamentos sólidos e duradouros.

Escolhendo a vulnerabilidade

“A vulnerabilidade soa como verdade e sente-se como coragem. Verdade e coragem não são sempre confortáveis, mas elas nunca são fraqueza.” Brené Brown

Escolher ser vulnerável é o oposto de ser fraco. Somos vulneráveis quando arriscamos ser quem somos. Permitir que as pessoas acessem nossa essência, inclui permitir que vejam nossas falhas, nossos erros e pontos cegos. Excluir a vulnerabilidade é o mesmo que limitar nossa capacidade de solidificar nossa identidade. Existe dor envolvida, porém nenhuma dor é insuportável quando o que está em jogo é nossa identidade.

“É preciso coragem para ser imperfeito. Aceitar e abraçar as nossas fraquezas e amá-las; é deixar de lado a imagem da pessoa que devia ser, para aceitar a pessoa que realmente sou.” Brené Brown

É bem verdade que nossa natureza não gosta de sofrer, temos pouca tolerância para lidar com desconforto. Em geral somos melhores gerando dor do que ao lidar com ela. Ou seja, facilmente fugimos de lidar com o que nos tira de nossa zona de conforto e em contrapartida ferimos com facilidade. Não existem atalhos seguros que nos levem até nosso destino e nos poupem da dor. Abraçar a dor emocional e às vezes física, não é negociável, faz parte integrante do contrato dos que buscam pertencer.

Pertencendo, não encaixando-se

Por isso, quando optamos por construir relacionamentos maduros, sabemos que um componente de dor estará presente. Seremos feridos e feriremos, mas a cada novo desafio enfrentado em conjunto, uma de nossas arestas é lapidada e ficamos mais fortes. Portanto, ser vulnerável é pedir e conceder perdão, é também ter coragem de dizer não, estabelecendo limites. O diálogo do coração é sempre mais coerente do que o discurso vazio das palavras.

Pertencer é ser capaz de assumir a fragilidade de quem somos diante de quem pode ou não compreender nossas razões. Pertencer é ter coragem de não andar só, reconhecendo que existe algo no outro que nos completa. Pertencer não é o mesmo que encaixar-se, porque o encaixe nos esvazia e o pertencimento nos preenche. Pertencer é saber quem somos, respeitando e permitindo que o outro seja quem é.

Nascemos para pertencer não para o encaixe. Os que viveram uma vida de encaixes não conhecem o valor do pertencimento. Os que pertencem não se esforçam para encaixar-se. O conhecimento de quem somos é decisivo para que consigamos cumprir nossa missão nesta terra. Nascemos com uma identidade e com um propósito. Viver nossos dias inclui perseguir uma identidade e um lugar de pertencimento.

O primeiro fato que devemos considerar é que pertencemos a Deus. Quando somos achados nEle, somos livres para pertencer a todos os lugares ou a lugar algum. Porque o verdadeiro pertencimento é fruto de uma identidade sólida. E a única fonte confiável de descoberta desta identidade é o próprio Criador.

“Você só é livre quando percebe que não pertence a lugar nenhum — você pertence a todos os lugares. O preço é alto, mas a recompensa é valiosa.” Maya Angelou