Pare de começar e comece a terminar.

Iniciar algo novo é maravilhoso, mas nem sempre é tão necessário e oportuno como concluir algo inacabado.

Em alguma medida, a procrastinação é um desafio a ser superado na vida da maioria de nós. Especialmente em um tempo em que fomos direcionados a um confinamento para vencer uma crise sanitária. É espantoso constatar que, independente da cultura ou posição geográfica, os efeitos foram muito semelhantes. Ou seja, pessoas confinadas reagiram de forma parecida nos diversos pontos da terra. Conflitos familiares se agravaram, assim como desafios financeiros abalaram frágeis estruturas que precisavam só de um empurrãozinho para ruírem.

Sem dúvida, a pandemia desencadeou um efeito cascata e denunciou a fragilidade da estrutura humana. Independentemente do lugar do planeta em que habitamos, a crise extrai de nós reações similares. Inegavelmente, somos frágeis e nossa vida passa como um vapor. Um inimigo invisível ameaçou a segurança de todos e espalhou pânico e muita polarização em cima das soluções. Contudo, alguns heróis fizeram diferença, apresentando estratégias equilibradas e transparentes que diminuíram o impacto e as consequências catastróficas da crise global.

Muitos lidaram com o desafio de se reinventar e os mais antenados e criativos vislumbraram oportunidade onde outros enxergaram apenas ameaças. Não se trata, no entanto, de avaliar a circunstância como quem pretende tirar vantagem ilícita dela, e sim de observar o cenário sob uma nova perspectiva. Os que se comportaram de forma interesseira e inescrupulosa, só provaram que não reconhecem no outro uma extensão de si mesmo. Defraudar um semelhante, pensando apenas em algum tipo de enriquecimento ou promoção pessoal, nos esvazia da característica que nos une – a empatia.

Recomeçar exige um fechamento

Recomeçar nunca é fácil, porque exige perseverança e otimismo. Contudo, este momento encurralou-nos no que para alguns parecia ser um beco sem saída, quando perceberam que era possível abrir uma passagem, onde antes nada havia. Esta capacidade de aquietar a ansiedade, analisando o quadro com clareza e redesenhando a estratégia é o que podemos e sabemos fazer. Ou seja, o ser humano desconhece a capacidade de superação que possui, até que seja forçado a utilizá-la. Temos que terminar o que começamos. Isto é, não podemos desistir de viver. A vida é mais do que as perdas momentâneas e tem mais valor do que as adequações que a estação exige.

Além disso, nada começa do zero, pois acumulamos experiências em tudo que vivemos. Porque, quando perdemos bens, emprego e até mesmo um ente querido, acumulamos aprendizado e isso ninguém nos rouba. A necessidade de finalizar completamente uma etapa é pré-requisito para o que o futuro nos reserva. O luto é parte do processo em qualquer esfera e devemos respeitar a velocidade de cada de absorver o impacto das mudanças. Por isso, nem sempre o externo representa o fim. Pois, aparentemente podemos estar lutando honestamente para implementar inovações, mas elas precisam acontecer de dentro para fora. Isto é, precisamos finalizar para poder reiniciar.

“A alegria não está nas coisas, está em nós.” Johann Goethe

Tendo coragem de mudar

Começar algo novo pode ser sensato, mas mais sensato é concluir o que está inacabado. Nem sempre a solução está vinculada a um giro de cento e oitenta graus, talvez girar noventa graus é o recomendado. Temos que avaliar o que sobrou e o que pode e deve ser aproveitado. Ninguém sai ileso ou igual de uma crise, seja ela de que ordem for. Quanto mais abalados forem os alicerces, tanto maior será a adequação necessária. Quando aquilo em que nos apoiamos não é sólido, todo resto sofre dano. No entanto, é importante avaliar sobriamente o tamanho do giro necessário. Pois, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

Portanto, sem temer mudar, arriscando na medida correta, não devemos nos deixar influenciar por desespero ou desesperança. Na prática, correr riscos é o maior investimento que fazemos em nós mesmos. Ou seja, adquire-se muito conhecimento em cada adequação imposta ou escolhida e nenhuma transformação é desprovida de risco. Quem teme o risco fica estagnado e ignora parte da beleza da vida. Porque, por mais desafiador que seja nosso contexto financeiro, familiar, profissional ou pessoal, é nossa obrigação seguir em frente com os recursos que restaram.

Tomar decisões no momento em que a fervura está no ponto alto de ebulição não é recomendado. Precisamos esperar a temperatura baixar e avaliar com coerência o que temos que reconstruir e o que deve ser desprezado. A triagem correta de algumas emoções, assim como a ousadia de arriscar estão muito vinculadas. Pois, ao classificarmos corretamente nossos sentimentos e sua origem, desbravamos com mais facilidade e otimismo o desconhecido. Equilíbrio é o que devemos perseguir, porque o golpe foi dado exatamente naquilo em que nos apoiávamos. Reconstruir sobre um alicerce frágil nos fará repetir a experiência e pode ser devastador.

“A vida se encolhe ou se expande em proporção à sua coragem.” Anais Nin

Outros já fizeram

A história da humanidade é repleta de momentos em que nações inteiras tiveram que se reerguer das cinzas. Ninguém que promova conscientemente tamanha devastação está em seu juízo perfeito. É legítimo e lícito trabalhar e buscar implementar condições favoráveis para uma vida saudável e estável. Mas, em alguma medida, todos já descobrimos que a vida não é um conto de fadas com final feliz de histórias infantis. Pois, narrativas previsíveis e controladas são monótonas e desinteressantes e a vida real é bem mais do que isso.

Além disso, cenários estáticos e previsíveis só são criados para alimentar mentes imaturas que escolheram ou esqueceram de crescer. Outros antes de nós já se reinventaram e talvez tenham partido de pontos bem menos privilegiados do que o nosso. Portanto, temos que acreditar que existe um potencial ainda não explorado dentro de nós. O ser humano não nasceu para viver fora de uma comunidade. Somos seres relacionais e o outro nos inspira e pode ser o braço que se estende no momento difícil. Cada um escolhe ser ou não a resposta na vida de alguém.

Outro fato importante é jamais esquecer que existe um Criador governando toda e qualquer circunstância. Deus não desistiu da humanidade e Ele continua tendo a solução para cada um de nossos conflitos. No entanto, Ele aguarda que permitamos que Ele faça, ao voltarmos espontaneamente nossos olhos em Sua direção. Não foi Ele quem estabeleceu o caos em que estamos envolvidos e nunca foi Seu desejo que experimentássemos qualquer tipo de dor ou distanciamento dEle. No entanto, o primeiro homem criado escolheu a independência e a desobediência e, se formos honestos, não teremos dificuldade em admitir que repetimos esta escolha ao longo da vida muitas e muitas vezes.

“Deixe as suas esperanças e não as suas dores moldarem teu futuro.” Robert H. Schiller

Pare e pense

Parar não é sinal de estagnação é antes um momento que antecede uma ação. Parar diante de um sinal de trânsito é uma medida de proteção e prevenção. Muitos acidentes poderiam ter sido evitados se essa simples regra fosse obedecida. A vida exige paradas, tanto para os descansos requeridos pelo corpo, quanto para o início de um novo empreendimento. As pequenas decisões da vida, quando planejadas, são bem sucedidas. Aquelas que não são antecedidas por um período de avaliação nem sempre prosperam.

A parada obrigatória neste momento foi imposta e deveria representar uma oportunidade de reavaliação. Portanto, quanto maior for nossa capacidade de lidar com o momento de crise, tanto melhor sairemos dele. Por isso, nenhuma ansiedade ou pessimismo, assim como doses de medo e insegurança contribuem, devendo ser imediatamente descartadas. Não produzimos e nem extraímos o melhor de nós debaixo destes algozes. Temos que buscar o ponto de equilíbrio e a ajuda necessária para que nossa sanidade retorne a níveis normais.

Deus continua sendo Deus

Deus continua sendo Deus e quando tentamos fazer o que só Ele pode fazer, extrapolamos nossa esfera de ação. Existe uma parte que é nossa e essa parte Deus não faz. Ter fé não é assumir posição passiva e fatalista em relação ao que nos acontece. Cada um de nós recebeu capacidades que precisam ser exploradas e treinadas. Ninguém nasce sabendo, tudo o que hoje sabemos foi aprendido. Pois, falar, andar, escrever, ler e qualquer outra tarefa que desempenhamos foi aprendida. Tudo que temos condições de administrar e gerar continua sendo responsabilidade nossa. A de Deus começa onde a nossa responsabilidade e capacidade termina.

Tanto a pessoa que acredita que pode e deve fazer tudo sozinha está errada; quanto aquela que atribui culpa a Deus por tudo que de ruim lhe acontece. Os dois extremos denunciam falta de compreensão de qual é o papel de Deus em nossa vida. Ou, melhor dizendo, qual papel permitimos que Ele ocupe em nossa vida. Ele não é um Deus distante na vida daqueles que decidiram ter uma aliança pessoal com Ele. Não se trata de ir à igreja ou de ter uma religião. Trata-se de entender que temos uma origem espiritual e que nosso Criador deseja relacionar-se conosco. Para os que optam por ignorar esta realidade, preferindo excluir Deus da equação, ou criam para si outros deuses ou perdem-se em uma rotina sem sentido.

Tudo aqui um dia acabará, a crise atual demonstrou como rapidamente podemos ter nossas circunstâncias modificadas. Infelizmente muitas vidas foram ceifadas precocemente. Muitos haviam feito planos bem estruturados para um futuro que não chegaram viver. A realidade é que todos nós só temos o presente e temos que vivê-lo da forma mais sábia possível. A sabedoria para viver o hoje está em estabelecer o fundamento de nossas escolhas e estratégias sob um alicerce imutável e eterno. Só existe uma forma de fazer isso, que é reconhecendo que não nascemos para viver apenas esta vida e que quando tudo aqui acaba, há continuidade.

Menos armadura, mais aprendizado.

Usar armadura no momento certo nos protege. Mantê-la por muito tempo pode nos prejudicar e roubar nossa liberdade.

Usar uma armadura nem sempre é negativo. Inegavelmente em caso de uma guerra ou de algum ataque inesperado, possuir uma armadura e estar vestindo-a nos protege. No entanto, existem armaduras que pretensamente utilizamos e que nos isolam. Nem sempre elas são perceptíveis. Já que podem bem ter sido tecidas ao longo dos anos por circunstâncias diversas. Certamente o ser humano tem um instinto de preservação muito aprimorado. Pois, ao menor sinal de perigo temos a tendência de nos proteger e reagir.

No corpo humano temos um sistema imunológico que detecta e reage ao que considera ameaça. No entanto, assim como na vida, quando nosso sistema imunológico está enfermo, acaba confundindo o inimigo. Ou seja, destrói o que nem sempre precisa ser eliminado. Podendo assim, atacar a si próprio, gerando o que conhecemos como doenças autoimunes. Dentre elas temos a diabetes, lúpus, esclerose múltipla, para citar as mais comuns. O estrago causado por estes ataques é gigantesco, assim como pode ser o uso de uma armadura desnecessária.

As dores e traumas que vivemos tendem a contribuir para o surgimento de uma armadura. Inicialmente ela parece ser benéfica e até imprescindível. Mas, precisamos revisitar sua importância, porque nem sempre o problema permanece. Pois, por vezes, temos a sensação de que ela se faz necessária quando, efetivamente, o risco já desapareceu. Carregar uma armadura pesa e nos separa do que pode nos libertar. Ela bloqueia o acesso do que talvez nos cure, como também promove ataques desnecessários.

Removendo a armadura

Livrar-se da armadura desnecessária é um ato da vontade, já que ninguém pode fazer isso por nós. Nos armamos porque imaginamos que o perigo existe, ou que o ataque é iminente. O descarte de conceitos errados e de premissas mal fundamentadas exigirá humildade. Pode parecer que a coragem seja o ingrediente imprescindível. No entanto, o corajoso é humilde em sua essência. Pois, um ato de coragem exige exposição e, em geral, admite o erro como consequência do risco. Ou seja, se abrir para algo novo que nos faça refletir é um ato corajoso e humilde.

O aprendizado que a vida propõe envolve risco. Seja o risco de perder alguma batalha ou de estar equivocado. A vulnerabilidade é um componente que acompanha a valentia de quem não teme o progresso. Uma cultura fechada em seus conceitos jamais será uma cultura adequada. Uma vez que o progresso acontece diariamente, oferecendo-nos novas perspectivas para um mesmo tema. Isto não significa, no entanto, negociar valores. E sim, avaliá-los constantemente à luz de um contraponto. Esta análise honesta, servirá para fortalecer os conceitos sólidos e descartar os que são temporários.

Por exemplo, existem medos e inseguranças próprias da infância. São tolerados e admitidos com certa naturalidade nesta fase. Contudo, quando invadem a fase adulta e se perpetuam pelas gerações sem ser questionados, são nocivos. Denunciam uma apatia e um conformismo que mais nos escraviza do que protege. Algumas armaduras são manufaturadas com este tipo de material. Tendem, portanto, a agregar prisões no que nasceu para ser livre.

“Repartir a verdade com quem não busca genuinamente a verdade é fornecer múltiplas razões para interpretações erradas a respeito dela.” George Macdonald

Conhecendo a verdade

A verdade como conceito absoluto existe. Embora o tema seja controverso e com muitos aspectos que devem ser considerados. Se ela não existisse não teríamos um padrão ético e moral que regesse a civilização. Não seria lógico permitir que pessoas façam o que consideram certo e errado, sem um padrão moral regendo e punindo as contravenções. Onde não há ordem a anarquia se instala. Por anarquia entendemos todo e qualquer estado de coisas que não preserve minimamente os direitos básicos do cidadão. A vida em sociedade exige regulamentações e políticas que preservem estes direitos.

Obviamente os tipos de governo e cultura implementam o que consideram correto. Algumas vezes de forma mais arbitrária, outras vezes mais democrática. Mas, inegavelmente, os povos são regidos por um código de conduta. Quando nossa fonte de moral não é a mesma, poderemos divergir, sem ultrapassar os limites da decência e do respeito. Ou seja, os que admitem a existência de um Deus, agem ou pelo menos deveriam agir, de acordo com os conceitos por ele estabelecidos. Os que se classificam como ateus, embora não admitam, possuem seu próprio conjunto de regras e padrão moral que seguem. 

Por isso, tanto os que admitem um Ser como sendo fonte de moral, como os que recusam-se a vincular-se com esta ideia, todos possuem uma lista de princípios que os rege. O criador da bomba atômica, no final de sua vida admitiu que achava que a bomba inventada por ele, era a força mais poderosa da terra. Contudo, descobriu que o conhecimento da verdade tinha mais poder do que ela. Quando admitimos a existência de uma verdade absoluta, seremos tolos se não perseguirmos conhecê-la de maneira incessante. Isso, certamente, envolverá disposição de lidar com as mentiras e armaduras que carregamos.

“A verdade é muito poderosa, mas vive cercada de guardiões da mentira.” Winston Churchill 

Esquecer é tão importante quanto lembrar.

Tanto esquecer das coisas ruins, quanto lembrar das conquistas, são chaves que nos catapultam na direção de nossos sonhos.

Esquecer de algumas coisas, permitindo-se virar a página, é tão importante quanto lembrar do que de bom nos acontece. A dosagem adequada do esquecimento dependerá sempre do quanto a lembrança nos atormenta e limita. Pois, embora nosso cérebro absorva e registre os eventos traumáticos de forma automática, temos opção de enfraquecê-los. Ou seja, revisitá-los com frequência fará com que o gosto amargo volte ao nosso paladar emocional. Ao passo que substituí-los por memórias recentes e resignificá-los é o caminho de quem busca superação.

Sabe-se que os registros de eventos positivos e negativos constituem nossa estrutura emocional e de pensamento. Por isso, temos que parametrizar nosso filtro interno para que ele descarte com mais rapidez aquilo que não nos beneficia. Ou seja, ao contrário do que pensam alguns, temos capacidade de estimular estes registros ou enfraquecê-los. Fazemos isso de forma instintiva, mas temos que ser intencionais em algumas circunstâncias. Ao nutrir o bem que recebemos ou nossos acertos, sendo gratos, estamos fortalecendo memórias positivas. De maneira idêntica, se não valorizarmos o que de mau nos acontece e os erros cometidos, eles desvanecem.

Esta regra da natureza vale para qualquer planta que desejemos cultivar. Isto é, aquela que for adubada, aguada e estiver sendo exposta ao sol na medida certa, será a que mais facilmente se desenvolverá. Nossas memórias reagem da mesma forma, já que podem ser fertilizadas com a atenção que damos a elas. Não se trata, no entanto, de pensar positivo apenas. Isto seria muito simplista e ignoraria a complexidade de cada ser humano. No entanto, sabe-se que os níveis de otimismo e pessimismo com que encaramos os desafios determinam nosso avanço e a superação almejada.

Aprendendo a desapegar

Apego é uma vinculação obsessiva a uma pessoa, a um objeto ou a ideias. Quando temos dificuldade em desapegar, sofremos mais com relação a qualquer necessidade de mudança. Ou seja, a obsessão vinculada a uma ideia ou circunstância nos conecta em níveis exagerados e maléficos ao que pensamos que nos define. O desapego acontece quando percebemos que não somos definidos por um objeto, circunstância ou pessoa. Temos uma capacidade muito grande de nos reinventar e poucos exploram este potencial. O medo do desconhecido e as muletas nas quais nos apoiamos constituem um reforço a tudo de negativo que abrigamos.

O desafio pode assumir proporções gigantescas quando adiamos a decisão de lidar com o que nos oprime. Procrastinar esta investigação ou simplesmente ignorar a existência destes focos de dor e desajuste nos aprisionam. A autopiedade e o isolamento também podem ser sutis e contribuem significativamente para o aumento do desconforto. Portanto, quando deixamos que as pessoas vejam quem somos e assumimos nosso protagonismo em relação ao que abrigamos, rumamos na direção da liberdade. Por isso, podemos e devemos exercer controle do que acolhemos como verdade, sem temer descartar e desapegar daquilo que nos limita. Ao julgarmos menos os outros seremos menos rígidos conosco.

“Cada vez que você faz uma opção está transformando sua essência em alguma coisa um pouco diferente do que era antes.”  C S Lewis

Tendo coragem para prosseguir

Coragem não é ir sem medo, é ir apesar do medo. Qualquer situação que pareça maior do que nós tende a nos intimidar. O tamanho de cada circunstância é determinado pelo valor que atribuímos a ela. Ou seja, podemos corajosamente decidir amplificar nossas conquistas, consequentemente, reduziremos a influência do medo. Já que, não se pode alimentar simultaneamente pensamentos tão antagônicos, um deles fatalmente desvanece. A ousadia de se perceber com potencial de superação e capacidade de recomeçar é inerente ao ser humano. No entanto, nem todos escolhem explorar seu potencial, contentando-se em viver na média.

“Se você estiver sempre tentando ser normal, você nunca vai saber o quão incrível você pode ser.” Maya Angelou

A decisão de abandonar, esquecer ou deletar os estilhaços de alguma batalha perdida, inicia no exato momento que identificamos o rombo que eles abriram em nosso interior. Fechar estas portas e curar estas feridas é a chave que abre janelas de oportunidades. Pessoas com biografias bem traumáticas se destacam na multidão quando usam sua dor com empatia. Pois, em níveis diferentes, cada um de nós já foi ferido e perdeu alguma guerra. Os vencedores e grandes heróis são os que, portanto, percebem-se de forma correta e não se deixam intimidar pelo tamanho do inimigo que enfrentam. 

Somos merecedores

Só acolhemos aquilo que achamos que merecemos. Portanto, denunciamos possuir baixa autoestima, quando abrigamos críticas e rótulos de pessoas que nos desprezam, conformando-nos com eles. Pois, sempre que nosso valor sofre revezes com o que é externo, nossa estrutura interna é testada. Ao nos abalarmos em demasia diante dos conflitos, abrimos oportunidade para que o desânimo e a derrota se instalem. Os presentes que a vida nos oferece nem sempre possuem uma embalagem adequada. Por isso, temos que ter coragem de desembrulhá-los e, se necessário, customizá-los. Desta capacidade depende o avanço de nossos sonhos e projetos.

“Não havia sentido em oferecer a uma criatura, por mais inteligente ou amável que fosse, um presente que essa criatura seja, por natureza, incapaz de desejar ou receber.” C S Lewis

Devemos almejar o que é saudável e não o que nos contamina e envenena. Abrigar sentimentos negativos e amargura em relação aos que falharam conosco é um tiro em nosso pé. Já que lesiona muito mais nosso interior do que a pessoa que é alvo de nosso rancor ou ressentimento. Existem sentimentos tóxicos que devemos banir de nossa mente. Portanto, quando sorrateiramente quiserem ocupar o palco de nossas emoções precisam ser dispensados com rapidez. Existem sentimentos nobres que habitam nossa alma, como alegria, contentamento, gratidão e otimismo. Ao regarmos estas árvores, suas raízes desalojarão as ervas daninhas que nos afetam.

O suave voa mais alto.

O que é suave carrega características de sabedoria e segurança. Quem se vale da agressividade ou silencia, abandona seu lugar de influência.

Tudo que é suave, voa mais alto. E o que é suave não cai; pousa. Seja uma palavra ou gesto de desaprovação; tudo, absolutamente tudo que expressamos com suavidade, tende a ser melhor aceito. Porque a suavidade é um tipo de tempero que equilibra e inibe o argumento ferino. É também aquele ingrediente que acrescenta ternura e empatia ao que verbalizamos. O carinho sempre une; enquanto a agressividade tende a separar. Os ruídos em nossa comunicação são fundamentados basicamente em alicerces débeis de nossa alma. Ou seja, denunciam fragilidades de nosso caráter e feridas que hospedamos.

A dor que abrigamos no íntimo, é aquela que expressamos quando alguns gatilhos são acionados. Nem sempre são as palavras que a denunciam. Por vezes é no silêncio que ela se aloja. Portanto, defender um ponto de vista com agressividade ou se calar completamente, são dois lados da mesma moeda. Já que, aquele que fundamenta sua coerência na agressão, pensa com isso intimidar quem o ouve. Já o que cala simplesmente, como se superior fosse, oferece indiferença a quem com ele não concorda. Diz-se que o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. Portanto, o desrespeito oferecido através do silêncio ou do discurso agressivo revelam orgulho e ausência de empatia.

Escolher a suavidade como árbitro das diferenças é sinal de inteligência emocional. É, também, demonstração de valorização do outro. Pois, cada um de nós é único e merece ter espaço para manifestar opiniões e fazer escolhas. Por isso, qualquer comportamento que iniba nosso livre arbítrio ou limite nossa expressão constitui uma violação de nossa identidade. Porque, quanto mais opressiva for a cultura de uma nação, instituição ou família, tanto maior será o dano causado sobre quem somos. Em contrapartida, quanto mais liberdade tivermos para expressar nossa essência, tanto maior será o amadurecimento de nossa relação com nosso próximo.

A escola da vida

A vida passa depressa e não podemos arriscar perder esta carona. O passado nem sempre pode ser ajustado, mas temos o presente para viver. Por isso, temos obrigação de fazer diferente, quando almejamos resultados distintos. Pois, se continuarmos lidando com os desafios e diferenças com a mesma postura, colheremos resultados idênticos aos que desejamos evitar. Mesmo quando temos uma trajetória linear e de sucesso no que se refere aos relacionamentos, temos espaço para crescer. Ou seja, nunca sabemos tudo ou esgotamos as possibilidades de estreitar a relação com os que nos rodeiam. Especialmente com aqueles que divergem, oferecendo contraponto à nossa ótica.

Portanto, oferecer ao outro a oportunidade de ser quem é; é antes de tudo, uma demonstração de respeito. Os culpados espalham culpas; já os que amam espalham amor. Só vamos achar amor de verdade, quando o ódio virar saudade. E a saudade tem fronteiras, daqui para frente já é saudade. Por isso, desperdiçar oportunidades de expressar afeto, nunca é sábio. Devemos antes escolher suavizar os momentos desafiadores com um olhar carinhoso e otimista. É disto que a vida é feita. Pois, cada um de nós possui desafios pessoais que podem ser amenizados no convívio com quem se dispõe a andar do nosso lado de forma coerente.

O dedo que acusa, o grito, ou qualquer forma de manifestação violenta não agrega. Seja qual for a circunstância, nada justifica ou valida o descontrole emocional. Porque tanto com palavras, como com gestos e escolhas, ferimos facilmente os que nos rodeiam. Nossa negligência e omissão também representam uma pancada, nos que almejam parceria. No jogo da vida, não temos opção de escolher o anonimato, já que nossa marca é deixada quando agimos e quando nos esquivamos. O retraimento é uma escolha. E quem escolhe se omitir, está revelando suas prioridades e um pouco de seu caráter inseguro e egoísta.

Só temos o hoje

Não podemos adiar a vida. Porque, só temos o hoje. Por isso, deixemos o amanhã para amanhã. E o amanhã no controle de Deus. Vivamos o hoje com toda intensidade que pudermos, sem negligenciar as oportunidades de aprender com cada circunstância. De maneira idêntica, não é sábio ignorar quem está ao nosso redor, como se não fizesse parte de nosso desenho. Cada pessoa tem algo a nos ensinar e precisa de um pouco de quem somos. Nenhum de nós sentiria solidão ou abandono se escolhesse se relacionar de maneira correta. Ou seja, temos inúmeras oportunidades de repartir quem somos e absorver um pouco de nosso semelhante.

O hoje nos oferece a oportunidade do erro e do acerto. E, mesmo quando erramos, estamos avançando, porque existe aprendizado disponível. Ao aprendermos de forma dura com nossa falha, a maturidade toma forma e nosso coração é sensibilizado. Portanto a humildade de reconhecer o erro é o que nos capacita a perdoar e estender a mão com empatia a quem sofre. A superficialidade dos relacionamentos não acrescenta nada à nossa trajetória. Mas a interação e o atrito gerado através deles nos molda e aperfeiçoa. Por isso, os que desistem facilmente de lutar por seus sonhos, afastam-se dos que podem ser peça fundamental na construção deles.

A suavidade está presente nas pequenas criaturas criadas e na natureza de forma geral. A perfeição de uma pétala ou de um floco de neve revelam um Criador detalhista e que nos criou à Sua imagem e semelhança. Deus ama o belo e somos atraídos por aquilo que expressa beleza e suavidade. Portanto, podemos escolher ser canais de aceitação e de beleza. Porque cada um de nós tem potencial de amar e expressar o que tem poder de transformar o ambiente em que estamos. Somos agentes da mudança que desejamos e ela não será alcançada de forma imposta. Pois toda mudança começa de dentro para fora. Por isso, começa em nós para atingir aos que estão perto.

“O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos.” G. K. Chesterton

Dentro do não, existe um sim

As aparentes negativas, recebidas ao longo da jornada, são oportunidades de mudança. Pois, cada não carrega dentro dele um sim que precisamos explorar.

Dentro de cada não recebido, existe, pelo menos, um sim. Pois, cada porta que se fecha ou oportunidade adiada, contém uma enormidade de possibilidades. Já que, são muitos os caminhos que podemos explorar para chegar aos objetivos que temos. Inegavelmente nem sempre é fácil se desvencilhar da maneira engessada de pensar. Mas é exatamente isto que temos que fazer quando as circunstâncias nos encurralam em direção diferente da desejada. Os grandes inventores sempre foram pessoas curiosas, questionadoras e observadoras. Muitos não se classificam como pessoas criativas, contudo todos temos parcelas de criatividade que podemos explorar.

Certamente o primeiro passo é não classificar as negativas que recebemos como derrota. Quando acrescentamos um olhar otimista ao nosso cotidiano, somos capazes de enxergar o copo meio cheio. Pois, o que enxerga o copo meio vazio está olhando para o mesmo lugar, porém, transfere seu pessimismo para o que pode ser uma oportunidade. Ninguém que desanima facilmente diante dos desafios e desvios da jornada, consegue tocar nos alvos estabelecidos. Ou seja, todo objetivo traçado ou planejamento feito sofrerá reveses. Já que as digitais de nossa humanidade permeiam tudo o que fazemos. Nossas falhas e as de quem nos cerca inevitavelmente imprimirão algum nível de instabilidade e incerteza ao nosso dia a dia.

Por isso, é muito importante entender que o não carrega um sim dentro dele também. Talvez o sim esteja apontando em uma direção inversa e exigirá de nós algum giro de 180° de nosso olhar. Contudo, não basta girar o olhar se nossos pés permanecem fixos na posição inicial. O desconforto ocorre quando não desistimos de algumas coisas para poder enxergar outras. É impossível compatibilizar alguns destinos com escolhas previamente feitas, que demonstraram não ser inteligentes. Temos que aprender com os erros e admitir honestamente nossos fracassos, sabendo que são parte do processo. O aprendizado é a soma do que aprendemos e incorporamos a quem somos.

Ousando abandonar

O aparente abandono de uma estratégia, pode bem representar a capacidade de criar um caminho não explorado. O principal inimigo a ser derrotado neste caso é o medo. O medo do julgamento, da falha, do risco ou do fracasso nos limita. Seja qual for a circunstância, quando eliminamos o limite imposto pelo medo, somos capazes de olhar mais longe. Embora nosso medo seja legítimo em algumas circunstâncias, ele não deve nos paralisar. O novo assusta em alguma medida, mas quando percebemos que temos capacidades não exploradas, lidamos com os desafios como oportunidade de crescimento.

O olhar livre é capaz de observar as coisas sob a perspectiva correta. O conselho de pessoas que não estejam intimamente envolvidas nas circunstâncias pode contribuir. Já que, nossas emoções também influenciam nossa ótica. Uma pessoa que olha de fora às vezes enxerga o que nosso olhar é incapaz de capturar. Reconhecer que precisa de conselho ou de ajuda não é sinal de fracasso ou fraqueza. Perceber-se como alguém limitado é interagir apropriadamente com a dinâmica da vida; que nada mais é do que um percurso dinâmico e inesquecível. Pois, ninguém nasceu para viver isolado ou sozinho. Ainda que para alguns seja mais difícil do que para outros admitir isso, fomos criados para viver em comunidade. Porque o outro carrega um pouco do que nos falta e vice-versa.

Ter coragem de abandonar velhas práticas, abrindo-se para novas oportunidades areja nossa alma. Precisamos de motivação para levantar todos os dias. A mesmice e a falta de perspectiva nos aleijam. Ou seja, alguém que se anula ou desiste de lutar por seus sonhos já é um derrotado. Os rótulos que carregamos são poderosos e temos que ter ousadia de nos distanciar deles. Fazer diferente, desaprender, reaprender e recomeçar são verbos conjugados por pessoas de valor. Somente os verdadeiros guerreiros não se intimidam e lutam contra os inimigos sabendo que possuem chance de vitória. Pois, ficar parado já é uma derrota maior do que qualquer perda eventual de quem se movimenta.

O tempo é um belo juiz

O tempo é um juiz muito sábio. Ele revela os acertos e erros cometidos e acrescenta significado à nossa vida. Ao olharmos para trás, inevitavelmente reconheceremos as consequências de más escolhas, assim como o benefício de boas escolhas. Contudo, não podemos negligenciar o aprendizado que os erros agregaram à nossa caminhada. Porque somos o resultado desta trajetória. Tanto o lugar de nascimento, quanto nossa criação, personalidade e diversos outros fatores combinados, formam quem somos. É desta combinação que nasce nossa peculiaridade e onde está fundamentada nossa identidade única.

Por isso, ao assumirmos o protagonismo de nossa existência, estaremos fortalecendo nossa identidade. Nossa postura de enfrentamento determina o quanto estamos dispostos a brigar por aquilo em que acreditamos. Nossa impressão digital deve estar registrada nos lugares por onde passamos e nas pessoas com quem convivemos. É disto que a vida é feita. Não devemos temer as escolhas e sim o fato de delegarmos algo que nos pertence. Ninguém pode ocupar este lugar em nossa vida sem nos colocar como coadjuvantes de nossa história. Ou seja, o simples fato de temermos escolher, retarda e paralisa a expressão de quem somos.

Cada um de nós será julgado pelo tempo. Ele passa em uma velocidade assustadora e nos confronta. Usufruir da oportunidade de mudar rumos de nossa trajetória é uma dádiva. Não reconhecer estas janelas de oportunidade pode representar uma lacuna importante em nossa biografia, que nem sempre pode ser recuperada. Portanto, olhar para o não como uma das respostas possíveis, sem classificá-lo como derrota, é o início do entendimento que nos leva para algum sim escondido. As negativas recebidas ao longo da vida podem ser os desvios necessários que, quando bem calculados, acrescentam velocidade e significado aos nossos dias.

“A maneira de apreciarmos uma coisa é dizermos a nós próprios que a podemos perder.” G. K. Chesterton

As diversas maneiras de saber

O saber é o resultado de conhecimento aliado à experiência. A sabedoria não ensoberbece, mas aumenta a certeza que jamais sabemos tudo.

O saber pode se expressar de maneiras distintas. Por isso, eleger corretamente o método utilizado para expressar o que conhecemos, exige sabedoria. Ou seja, o conhecimento avulso e desprovido de sabedoria nem sempre é identificado como saber. Pois, a pessoa sábia é aquela que se percebe como um eterno aprendiz e que essencialmente aprendeu a ouvir. Porque, toda sabedoria alicerçada em auto suficiência e orgulho é apenas informação. Ainda que seja um conhecimento profundo, será apenas teoria, se não tiver sido testado.

Curiosidade aliada à certa dose de disciplina e tenacidade nos conduz por caminhos que aumentam consideravelmente nossa capacidade de absorver conhecimento. Já que o verdadeiro aprendizado é absorvido através de nossos cinco sentidos de forma intuitiva. Uma boa leitura, por exemplo, pode provocar questionamentos que nos transformam. Assim como o que ouvimos nos afeta, podendo nos instruir ou confundir. O olfato, paladar e tato, inegavelmente, estão captando nuances que complementam o que vemos e ouvimos. Ou seja, nosso corpo foi estrategicamente desenhado para sorver o que nos rodeia. No entanto, cada um processa e utiliza estas informações de forma distinta.

Existem pessoas que escolhem não aprender com as circunstâncias, pois repetem erros cometidos. É fato que não somos à prova de fracassos, mas, cada vez que o novo nos desafiar e escolhermos errado; temos que corrigir o erro. No entanto, a repetição de um padrão que gerou resultados negativos, denuncia incapacidade de aprender. A linguagem não verbal e as circunstâncias precisam ser codificadas corretamente. Porque são fonte abundante de conhecimento e de respostas. Certamente não são apenas as nossas circunstâncias que nos ensinam. Inegavelmente, quando se deseja conhecer algo, a experiência do outro pode ser um bom ponto de partida.

“Só sei que nada sei.” Sócrates

Descobrindo como convém saber

Ainda que o aprendizado adquirido como fruto de observação seja legítimo, o conhecimento que mais nos afeta e influencia é o oriundo de uma experiência pessoal. Certamente é com base no que experimentamos que nossa alma recebe impressões poderosas que a modificam. Contudo, nem sempre estas impressões são positivas. Muitos possuem tatuados em sua psiqué fatos e traumas, que distorcem sua percepção. Ou seja, o processamento da informação é afetado por gravações antigas e doloridas que funcionam como filtros. Por isso, uma mesma situação vivida por pessoas diferentes pode produzir resultados muito diferentes.

De maneira idêntica, uma mesma palavra dita por alguém que passou ou viveu algo tem peso maior do que a que é simplesmente repetida ou citada. Certamente o que nos atrai e tem poder de chamar nossa atenção nem sempre é tangível. Capturamos nuances no tom da voz, na doçura da escolha das palavras e dos gestos que embelezam o saber. Assim como fica evidente a falta de controle, o nervosismo e a insegurança no discurso dos amadores. Por isso, o saber é um todo, envolve elegância, gentileza e empatia. Porque o sábio aprendeu a ocasião oportuna de falar e calar. Sua abordagem é honesta e firme, mas também é doce e gentil.

Portanto, a pureza da inteligência é testada nos momentos mais inesperados e conflitantes. A maturidade do julgamento e a retidão da vontade geram a discrição necessária; típica de quem sabe como saber. Nascemos com a necessidade de aprender e construir uma trajetória crescente de sucesso. Esta trajetória, no entanto, nem sempre é linear. Teremos momentos de aparentes retrocessos e quem sabe até de apatia. Contudo, mesmo a partir destes momentos, estamos sendo transformados. O movimento em busca do aprendizado produz avanços, já que inutiliza o ponto de partida. Ou seja, nosso andar elimina possibilidades e destrói algumas pontes que nos conectam a zonas de conforto.

“O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute.” Sabedoria oriental

Lidando com a incerteza

Por isso, o ponto de partida nunca é o mesmo, ainda que aparentemente pareça ser. Pois, o processo de aprendizado transforma nossa estrutura emocional. Não raro, temos sentimento de perda e sentimos saudades de um lugar que não existe mais. Portanto, os que antipatizam com a incerteza e possuem tendência perfeccionista terão mais dificuldade de contabilizar progressos. Já que sua percepção é afetada por um padrão que não corresponde à realidade. Eles também terão dificuldade de celebrar vitórias alheias; pois não as reconhecerão facilmente. O aprendizado neste caso estará vinculado à disposição de lidar com estes filtros, eliminando-os.

O saber, portanto, pode ser a simples descoberta de que existe liberdade disponível. Liberdade para criar, errar e viver o hoje. Sucumbir ao medo ou à insegurança limita consideravelmente nossa capacidade de evoluir. O desaprender para reaprender é parte integrante da jornada rumo ao saber. Pois, os sábios não necessitam aplausos ou aprovação de quem os rodeia. Porque, sabem que não são perfeitos e nem pretendem ser. Reconhecem suas fragilidades e são generosos com erros cometidos por seus semelhantes. Levam-se menos a sério e, por isso, usufruem mais do hoje; preocupando-se menos com o futuro.

Quando sabemos que está fora de nosso alcance consertar os erros do passado; lidamos com as consequências destas escolhas com maturidade e honestidade. Já que, absorver as lições aprendidas;  abrindo-se para os novos desafios, sem perder o entusiasmo e o otimismo é o que se espera de todos que desejam aprender. Pois, a vida é resultado destas escolhas, e nos conduz por caminhos diversos que nos moldam e embelezam. O saber, portanto, não é conhecimento puro e simples. É uma ótica curiosa e destemida que adquirimos quando deciframos corretamente nossa estrutura. A estagnação e o fatalismo são substituídos por um posicionamento consciente e ativo.

“O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes.” Cora Coralina

Vencendo limites

Os limites são considerados, contudo, não constituem barreira para o progresso daqueles que estão determinados em superá-los. Desculpas e justificativas não fazem parte da linguagem de quem valoriza a possibilidade de aprender. Os mestres serão tudo e todos, já que existe um pouco de sabedoria escondida em cada oportunidade e circunstância. O verdadeiro saber não ensoberbece. Porque faz parte do saber se perceber como finito dentro de um universo infinito.

A sabedoria, portanto, é adquirida por aqueles que descobriram que não existe limites para o saber. Por isso, eles também não se deixam limitar, nem mesmo por suas fragilidades. Pois, quanto mais avançam, tanto mais certos estão de que nada é permanente e que estamos sempre nos transformando. A plasticidade do cérebro precisa ser explorada e nela começam as decisões rumo ao desconhecido. Desbravar territórios não conquistados em nós e fora de nós é o que nos faz sábios.

“Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.” William Shakespeare

Embarque em uma nova viagem

O embarque, nas diversas estações da vida, é o que nos conduz para nosso destino. Atrasos raramente são tolerados. Por isso, os dados do bilhete precisam ser atentamente observados.

O embarque, especialmente em aeroportos, acontece com antecedência por questões de segurança. De maneira idêntica, nas rodoviárias e ferroviárias existe um protocolo a ser obedecido. Até mesmo no trajeto urbano, temos que estar posicionados, em local previamente estabelecido, para que o embarque aconteça. Certamente todos nós já vivemos alguma situação em que, por questão de segundos, perdemos o transporte público. Os segundos de atraso podem representar horas de espera, ou até dias, em alguns casos. Os atrasos no embarque podem ser ocasionados por imprevistos ou por uso inadequado do tempo.

Mas, seja qual for a razão, tais atrasos nos obrigam a reprogramar uma estratégia. Inegavelmente, estar atrasado, causa desconforto e gera ansiedade. Especialmente para os que são mais organizados, a demora em qualquer atendimento, incomoda tanto quanto estar atrasado. Pois, o atraso é percebido por quem espera, como falta de respeito com o tempo alheio. Sabemos que o tempo é um bem que não pode ser recuperado; depois de utilizado.

Por isso, temos uma única chance de usar bem nosso dia e nossas horas. Já que o “agora” não volta. No entanto, programar o hoje de forma coerente exige, na maioria das vezes, um planejamento mínimo. Pois, nem tudo na vida é sustentado por improviso. Sem dúvida, qualquer rigidez excessiva não é benéfica. Mas, a desorganização e ausência de critérios pode representar o caos.

“O conhecimento é o único passageiro que nunca sairá de seu embarque.” Ketely Temper Almela

Prontos para o embarque

Quando, por exemplo, pretendemos fazer uma viagem de férias ou mesmo profissional, os resultados podem ser facilmente otimizados com bom planejamento. Já que, nem sempre planejar é demorado ou maçante, como pensam alguns. Inegavelmente alguns terão mais facilidade de lidar com horários, tendo disciplina para cumpri-los, do que outros. No entanto, mesmo deixando-se um bom espaço para o improviso, a compra antecipada das passagens e a observação do horário de embarque são requeridos.

Uma pessoa está pronta para o embarque quando leva consigo os documentos e objetos necessários para sua viagem. Certamente, isto varia de acordo com cada pessoa e cada destino. Pois, quanto mais longa for a viagem, tanto maior será a necessidade de organização prévia. Alguns países exigem, inclusive, a liberação antecipada de vistos e autorizações, sem os quais o ingresso no destino não é autorizado. O domínio do idioma da nação facilita em muito a comunicação e a desfrutar a totalidade da experiência de uma viagem.

Por isso, se aprontar para o embarque, pode significar anos de estudo e planejamento. Assim como pode ser traduzido como a capacidade de improvisar e reprogramar com agilidade uma rotina. Pessoas prontas para o embarque são aquelas que sonham com o novo, preparando-se para ele. O embarque acontece de maneira espontânea e natural e nenhuma regra é empecilho para os que sabem onde querem chegar.

A sala de embarque da vida

No entanto, viagens não programadas são legítimas e por vezes necessárias. Isto significa ser capaz de usufruir de toda liberdade que tais passeios propiciam. Por isso, nossa vida pode muito bem ser comparada com uma sala de embarque. Já que, existem semelhanças entre as dinâmicas envolvidas no embarque e desembarque, com o que a vida nos propõe. Não por acaso, ao observar estes ambientes, percebemos a diversidade de motivos e momentos de cada um.

Estes são locais onde alguns celebram conquistas, levando na mala doces lembranças. Há, também, os que se despedem, que sofrem com perdas e distanciamentos inevitáveis. Salas de embarque congregam emoções diversas. Lágrimas de alegria e tristeza, mesclam-se com ansiedade, medo, abraços, sonhos sendo realizados ou adiados. Cada mala carrega um pouco de quem somos. No entanto, a inexistência delas pode ser sinal de desapego ou de perdas irreparáveis, que nos obrigam a recomeçar.

Portanto, seja qual for a circunstância, o embarque pode ser para um futuro promissor, para um recomeço ou simplesmente sinaliza o final de um percurso. É importante, por isso, desembarcar os pesos excessivos e embarcar a expectativa que o novo representa.

“O trem da vida continua andando. Então, embarque nele até chegar à estação principal da sua existência.” Ricácia Dantas

Abrindo espaço para o novo

Tudo que é novo nos desafia em alguma medida. Embarques podem ser convites para desbravar novas oportunidades ou caminhos. Perder a expectativa de que a vida nos reserva experiências não vividas é nocivo. Quando não desejamos mais lidar com a possibilidade de mudança ou com o que o futuro nos reserva, é sinal de que um pouco de nós está morto. Mudar não é desprezar a estabilidade ou menosprezar conquistas. Também jamais pode estar associado com ingratidão.

Já que, a verdadeira mudança acontece quando o aprendizado é reconhecido e assimilado, regado por gratidão. O embarque na nova estação coroa um ciclo e sempre representará progresso. Pois, todo processo de aprendizado contempla o erro, e talvez algumas perdas. Mas, isso não é sinônimo de fracasso. As verdadeiras conquistas acontecem quando lidamos com estas transições de maneira coerente. O peso na balança não pode pender exageradamente para o lado do que não aconteceu como gostaríamos ou planejamos.

Temos que ter capacidade de filtrar e equilibrar nossas emoções, sem desprezá-las ou anulá-las. É permitido chorar, se entristecer e viver o luto. No entanto, é desaconselhado permanecer indefinidamente em estado de apatia. Nossa tarefa será sempre a de decidir lutar por nosso futuro e pelos sonhos que temos. Por isso, desembarcar é tão importante quanto embarcar. Pois, não podemos indefinidamente prosseguir por um caminho; às vezes é preciso recalcular a rota.

Desembarcando para embarcar

A chegada é importante, ainda que seja para um traslado ou escala rápida. O embarque, assim como o desembarque, exige coragem, determinação, planejamento e disciplina. Qualquer que seja o desafio que nos aguarda ao final do trajeto, temos que ter certeza de que a jornada nos transforma. Na maioria das vezes a simples decisão de ir nos afeta e modifica.

Portanto, embarcar na jornada da vida, de mala e cuia, como dizem os gaúchos, pode ser determinante na conquista de nossos sonhos. Ainda que nosso bilhete tenha expirado ou tenhamos perdido alguma oportunidade, nunca será tarde demais para recomeçar uma jornada. Só perdem os que desistem no meio do caminho. Pois, mesmo o desembarque em locais errados pode ser facilmente ajustado. O que vai se desvendando a cada nova estação é um pouco de quem somos.

Nossa tolerância à espera é testada; assim como nossas motivações e clareza. No frigir dos ovos, nossa capacidade de usufruir do trajeto é o que torna a viagem prazerosa. Por isso, não importa se percorremos os trajetos a pé, de carro, avião ou bicicleta. Porque, o que precisa ser estabelecido é o destino. Pois, a freqüência de embarques e desembarques de nossa trajetória, contará sempre um pouco de nossa história.

“Trace o generoso caminho de reconhecer a si próprio. Embarque no navio inseguro que é se descobrir.” Murillo Leal

O colorido de nossa vida.

O colorido de nossos dias não é determinado pelas circunstâncias, e sim pela atitude e perspectiva com que encaramos a vida.

A vida nos oferece alguns objetos e circunstâncias descoloridos; sendo nossa tarefa colori-los. A criatividade envolvida neste processo é inata. Pois, embora alguns não se percebam criativos, todos aplicamos doses de originalidade em tudo que fazemos. Certamente, alguns exploram mais este aspecto de sua personalidade do que outros. Mas, sem dúvida, todos temos capacidade de inovar.

Portanto, a escolha das cores, assim como a ausência delas, reflete muito de quem somos. Pois, temos tendência de influenciar os ambientes dos quais fazemos parte. Este é um de nossos papéis na relação com nosso semelhante e naquilo que fazemos. Alguns gostam de cores vibrantes, alegres e contrastantes. Outros preferem os tons pastéis e cores neutras. O simples fato de termos preferência por determinada cartela de cores, indica que nosso gosto e singularidade está se expressando.

Refletimos isso na escolha das roupas, da cor do carro, das paredes da casa, da decoração, etc. Tudo em nosso ser, e nos ambientes sobre os quais temos gerência, carrega um pouco de nosso olhar. É inevitável, portanto, que nossa presença se expresse. Sufocar isso é inadequado. Mesmo quando não temos autonomia para tomada de decisão, temos um ponto de vista. Nossa ótica é formada por coisas que nos agradam ou desagradam, sendo resultado da complexa estrutura de nossa psiqué.

Aprendendo a conviver com a diversidade

Obviamente, gosto não se discute. Por isso, há consenso no que diz respeito à necessidade de considerar a opinião alheia; nem sempre objetivando a unanimidade. No entanto, as predileções corriqueiras e cotidianas, falam muito à respeito de quem somos e por vezes não são detectadas. Pois, a rotina desgasta nossa capacidade de perceber o tanto de nós que repartimos com os outros, quando escolhemos o que vestir, por exemplo.

Portanto, comunicamos mensagens subliminares por cada poro de nosso ser, à cada segundo de nosso dia. É natural que não valorizemos os pequenos gestos e escolhas. Contudo, é importante identificar nosso DNA no que fazemos. Nossa impressão digital se manifesta sempre que ousamos ser quem somos.

“A maior dor do vento é não ser colorido.” Mario Quintana

O simples fato de impactarmos outros com o que fazemos e com quem somos; indica que fomos criados para fazer diferença. Porque, ninguém na face da terra nasceu sem um propósito ou desprovido da capacidade de contribuir. Contudo, precisamos revisitar esta realidade com certa frequência. A avaliação honesta de como fazemos uso desta influência, nos possibilita ajustar os excessos e avançar na direção do aprimoramento.

Criados para impactar outros

Por isso, um dos aspectos que compõe a realização pessoal é o senso de que somos capazes de somar de alguma forma. Inegavelmente repartir quem somos com outros, influenciando-os com nosso exemplo, nos completa. Nascemos com a necessidade de pertencer, e a vida saudável em comunidade, pressupõe a troca.

Porque o equilíbrio acontece sempre que repartimos, sem constrangimentos, nossas opiniões e gostos e ouvimos o outro, com respeito. De fato, ao repartir um pouco de quem somos nestas interações, o senso de valor aumenta. Contudo, existe o risco de bloquearmos esta aptidão, devido a alguma experiência negativa passada.

Isto é, podemos ter sido mal interpretados ou quiçá feridos em alguma circunstância em que tivemos coragem de expressar algo. No entanto, precisamos separar o objeto do autor. Isto é, o que pode ter sofrido crítica, é uma ideia ou preferência, não quem somos. Já que, nós é que concedemos ao outro o direito de nos diminuir, quando desaprova algo que expressamos. Por isso, é importante ser capaz de lidar com opiniões divergentes.

O grande erro

O grande erro é conceder aos outros este poder de limitar nossa expressão. Pode bem ser uma limitação velada, mas, se ela nos bloqueia, precisamos lidar com este fato. Pois, ao anularmos alguma característica de nossa personalidade, destruímos um pouco de quem somos. Indiscutivelmente, pessoas bem ajustadas brigam por seu espaço sem intimidar-se.

Pois, entendem seu valor e papel, sabendo que ninguém tem direito de roubar-lhes este espaço. Contudo, são reais e variados os motivos que nos levam a abandonar esta posição. Mas, nenhum deles deve servir de prerrogativa para manter-nos na condição de anonimato. 

“Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu numero é serem postas no seu justo lugar.” Pablo Picasso

Os dois lados da moeda

Diz-se que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Sempre que pessoas nos oferecem sua indiferença, elas nos agridem. Contudo, nós podemos estar sendo indiferentes também, ao negligenciarmos nosso papel. Isso, além de nos limitar, machuca quem espera poder contar conosco. Por isso, deveria ser proibido se esconder ou optar por não se expressar. Alguns vestem-se com a capa da timidez ou até da humildade; objetivando aplacar seus medos.

Portanto, estas são justificativas inválidas quando o que está em jogo é nossa realização pessoal. Contudo, isso não autoriza ou valida a agressividade ou a incoerência. Pois, nem sempre nos é concedida a opção de ser ouvidos ou o espaço para expressar o que pensamos. Contudo, nenhuma situação externa deve influenciar quem somos, ou anular nosso ponto de vista.

Porque, mesmo quando não somos ouvidos, podemos resguardar nosso território. As pessoas que aceitam passivamente que outros assumam o comando e tomem decisões por elas, são pessoas que precisam descobrir seu valor. Cada vez que um de nós se cala ou retrocede, o mundo fica menos completo, menos colorido, perde beleza. Porque o dano não é causado apenas na vida de quem se retrai. Ele acontece, em igual medida, na vida dos que são privados da contribuição.

Só repartimos o que temos e somos

É fato que pessoas feridas ferem. Talvez tenhamos lembranças que tenham nos influenciado negativamente e que nos fizeram assumir posturas defensivas. Elas podem se expressar através de uma retração consciente ou inconsciente. Mas, seja lá o que for que tenha gerado este desconforto, é infinitamente menor do que nossa capacidade de resolver o conflito. Pois, além de nossa necessidade de encontrar nosso lugar ao sol, outros esperam por nosso posicionamento.

Pois, os vínculos que temos com quem nos rodeia, nem sempre são sanguíneos. Mas, existem em alguma medida. Eles podem ser explícitos ou não. Contudo, é fato que nossa vida está interligada com a vida de quem nos cerca. Nossas decisões, quer gostemos ou não, afetam aos outros de forma positiva ou negativa. Por isso, nossa retração diminui o outro também.

“O espelho reflete a imagem da alma, que pode ser branca e preta ou colorida. A escolha é sua.” Beatriz Sebastiany

Decididos a colorir

Por isso, perdemos e geramos perda sempre que vivemos uma vida menor do que aquela que fomos desenhados para viver. Nossos sonhos precisam ser perseguidos. As cores que carregamos precisam ser vistas e conhecidas. Existe um livro para ser escrito; uma canção que ainda não foi composta; um experimento que ainda não foi feito. Em resumo, existe algo que só você pode fazer, ninguém mais. Já que, fomos desenhados para colorir nosso mundo com as cores que carregamos.

Nosso cheiro, nosso olhar, nosso abraço, nosso carinho, nosso ouvido, pode mudar o dia de alguém. Negligenciar este papel nos deixa menores e diminui quem está à nossa volta. Por isso, não permita que ninguém diga que a cor que você usou para pintar seu dia é feia ou inadequada. Ela é a contribuição que você tem para dar ao mundo e precisamos dela para que o mundo fique mais colorido. Todos nós vivemos dias cinzentos ou sombrios, e neles temos permissão para usar cores que expressem nossa tristeza. No entanto, não é sábio permanecer indefinidamente na condição de anonimato.

Temos dentro de nós capacidade de mudar nossa trajetória e a de quem nos cerca. A descoberta de nosso valor e a ousadia de viver algo novo é o que dá sentido à nossa existência. O mundo tem espaço suficiente para absorver nossa contribuição. Ela é bem-vinda e necessária. Ainda que ninguém tenha dito hoje que você é importante; saiba que para Deus sua vida tem valor. Foi Ele quem formou cada célula de seu corpo. Ele nos criou e não nos fez iguais de propósito. Ele ama a diversidade e espera que imitemos Sua ousadia usando as cores que nos deu. O mais singelo gesto deixa marcas. Por isso, temos em nossas mãos, capacidade de colorir nosso cotidiano.

“Não há dias cinzentos para aqueles que sonham colorido.” Dr. Cowboy

Que tal observar de outro ângulo?

Tudo que observamos possui um ângulo distinto; que pode ou não, distorcer o que vemos. Portanto, eleger o ângulo correto é determinante quando se pretende escolher certo.

O ângulo de observação que elegemos, pode determinar muito do que enxergamos. Ao olhar qualquer imagem de cima, perde-se alguns detalhes, mas enxerga-se o todo. Ao passo que, a mesma gravura contemplada de perto oferece particularidades que desaparecem quando observada à distância. Nem sempre temos opção de contemplar o interior juntamente com o exterior, o que certamente pode mudar nossa opinião à respeito do que vemos. Em resumo, nossa ótica das circunstâncias passa por filtros internos e externos, por ângulos e nuances que afetam nossa percepção. Por isso, uma mesma situação pode ser discutida e analisada sob diferentes pontos de vista.

Com a globalização da informação, é comum sermos bombardeados por opiniões diversas. Algumas fortalecem pontos de vista previamente estabelecidos e outras os confrontam. Diariamente temos que escolher que nível de ruído permitiremos que nos atinja. Isto é, por mais que seja importante avaliar a situação por diversos ângulos, temos que ser cuidadosos em relação ao que absorvemos de tudo que vemos. É fato que toda moeda tem dois lados. Por isso, em tempos tão polarizados; ao expor nossa opinião, corremos o risco de desumanizar os que de nós divergem. Talvez seja esse nosso maior desafio, já que, é legítima a liberdade de expressão e precisamos aprender a respeitar opiniões antagônicas.

Quando se busca construir uma sociedade democrática e participativa, temos que no mínimo respeitar, para ser respeitados. Ser firme não é sinônimo de ser violento ou agressivo. Não só em nossa nação, que vive um momento de transição muito grande, mas ao redor do mundo as opiniões se dividem. Justamente porque o acesso à informação é globalizado, somos expostos constantemente à análises e pesquisas. São elas que pretendem esclarecer e fundamentar determinados posicionamentos. No entanto, nem sempre existe isenção por parte de quem compila os dados e os divulga. É sabido que até na construção do argumento podemos ser tendenciosos.

“Tudo na vida é questão de perspectiva. Escolha o melhor ângulo.” Marcelo Predebon

Fundamentados na verdade

Diz-se da verdade que ela pode ser relativa. Alguns não acreditam em uma verdade absoluta, e talvez em certos casos ela fique bem nublada mesmo. Contudo, se não existir uma verdade absoluta em relação às principais questões da vida, o caos está instaurado e regulamentado. Instintivamente buscamos esta verdade e perseguimos este padrão. Mas, embora alguns se considerem abertos e flexíveis em suas convicções, elas geralmente encontram-se arraigadas em nosso íntimo, e não nos despojamos delas com facilidade. É de se esperar que nossas escolhas sejam fundamentadas no alicerce que elegemos. Assim como é incoerente negar a existência de tal fundamento. Independentemente de ser sólido ou não, ele existe na vida de cada um de nós.

Foi exatamente esta ordem de coisas que Jesus confrontou. Porque a ótica cristã da vida não tem como objetivo nos isolar do mundo e de opiniões divergentes. Porque, ao contrário do que pensam alguns, ela oferece um posicionamento em relação à variação de perspectivas existentes. Contudo, tal posicionamento não nos autoriza a criticar ou hostilizar quem pensa diferente ou faz escolhas opostas. Somos essencialmente livres para escolher como viveremos nossos dias. Cada um escolhe no que acredita e como se posicionará diante de fatos que lhe são apresentados. Inegavelmente cada um de nós decide se o que contempla são fatos, evidências ou se são apenas pontos de vista distintos. Somos responsáveis por filtrar o que ouvimos e vemos e seremos inconsequentes se imaginarmos que não temos esse dever.

Permitir que nossas ideias sejam confrontadas é um dos meios de fortalecê-las, se a permissão for honesta. Isto é, quando realmente estamos em busca da verdade, não tememos o confronto. No entanto, o rumo deste tipo de abordagem deve ser respeitoso e equilibrado. Quando se perde o controle, e a agressividade e o desrespeito imperam, ultrapassamos um limite importante. Pois, é impossível convencer quem quer que seja à respeito do que pensa, se a pessoa não estiver disposta a nos ouvir. Porque, nenhum argumento ou evidência é forte suficiente para abalar o ponto de vista de um teimoso. Portanto, nestes casos, é muito mais sábio respeitar suas escolhas do que confrontá-las.

A vida falando mais que as palavras

Muitas vezes não conseguimos ouvir o que o outro nos diz, porque suas atitudes estão falando mais alto do que o que pretende comunicar. Esta é também uma verdade que nos afeta. Porque nenhum posicionamento defendido por nós, fala mais alto do que nossa vida. Somos o conjunto de escolhas que fazemos e toda incoerência é percebida facilmente por quem nos observa. Toda inconsistência entre nosso discurso e a prática é testada pelo olhar atento do outro. Este é um esforço que não precisamos fazer, já que instintivamente capturamos estas nuances. O ser humano é muito mais apto a observar do que pode admitir. A análise pode ser subjetiva e até instintiva, mas, em maior ou menor medida, todos possuímos o que classificamos de “feeling”.

Encontrar a verdade absoluta não é sinônimo de vivenciá-la. Inegavelmente anelamos por esta coerência entre o que cremos e o que vivemos. Mas, a distância entre estas duas realidades é o que classificamos como imaturidade ou, em alguns casos, como hipocrisia. Uma pessoa hipócrita é aquela que tem consciência de que seu discurso é diferente de sua atitude. Já os imaturos perseguem honestamente praticar o que classificam como verdade, mas se percebem falhos e em processo de aprendizado. Comumente rejeitamos uma verdade quando ela não está presente na vida de quem a professa, porque buscamos coerência. Esta atitude é legítima, pois, o mundo ideal seria aquele onde toda verdade pudesse ser encontrada na vida dos que a proclamam. Infelizmente, no entanto, isto não é uma regra ou o que acontece na prática.

Por isso, nosso cuidado deve ser redobrado, evitando eliminar o bebê, juntamente com a água do banho. Em nome desta tal coerência podemos desperdiçar o que é legítimo. Pode parecer grosseiro afirmar que isto é possível, contudo, corremos este risco. Especialmente para os que possuem dose excessiva de justiça própria, a chance disto acontecer é eminente. Portanto, quanto menos a sério nos levamos, mais coerente seremos. Já que a sabedoria estará sempre associada a nossa capacidade de aprender e se reciclar. O verdadeiro aprendizado inclui o “desaprender”, e envolve porções consideráveis de humildade. O orgulho nos cega e distancia da verdade. Pois, nos separa interiormente de qualquer confronto, mesmo quando o exterior parece estar aberto. São precisamente estas muralhas de orgulho que ao invés de nos proteger, nos isolam.

“Não existem garantias. Sob a perspectiva do medo, nada é suficientemente seguro. Sob a perspectiva do amor, nada é necessário.” Emmanuel

Nossos mecanismos de defesa

Todos temos mecanismos de defesa, porque o ser humano busca preservação de forma instintiva. Desenvolvemos estes mecanismos por conta de experiências negativas que nos traumatizaram. Qualquer um que tenha sido ferido, fará todo possível para que a ferida não abra, evitando assim que novos golpes sejam desferidos no mesmo lugar. Se assim não fosse, alguns de nós já teriam sido destruídos. Buscar segurança é legítimo e necessário, assim como fugir de tudo que nos violenta. Uma vez que, os que se auto mutilam, não constituem um modelo a ser imitado. Portanto, devemos fugir de qualquer postura que reconheça a tortura ou a agressão como instrumentos de mudança.

No entanto, quando se pretende estabelecer regras saudáveis de comportamento, temos que lidar com tais paradigmas. Contudo, não temos garantia de que a remoção destes gatilhos acontecerá sem dor ou sofrimento. Porque acessar feridas não é indolor. Porém, sempre que recorremos a um especialista, aumentam consideravelmente as chances de sermos bem sucedidos. Apenas quem tem capacidade de nos ver por dentro, sem reservas, pode nos ajudar de forma efetiva. Esta, portanto, não é tarefa para um mero mortal. O especialista que buscamos precisa nos acessar de forma sobrenatural. É neste ponto que a existência de um Deus precisa ser considerada.

Certamente, mesmo que decidamos, de forma legítima, ignorar a existência de um Criador, e optemos por viver sem Ele, estaremos elegendo um deus, que talvez seja nosso eu. Pois, temos uma natureza que precisa de um referencial maior, por isso, buscamos uma verdade que explique nossa existência. Enxergar a vida através da ótica de um Deus que nos ama e que nos criou com um propósito; acrescenta significado e valor à nossa vida. Ao contrário do que afirmam alguns, não é utopia ter fé em Deus. É antes uma necessidade sem a qual nossa vida fica vazia e desprovida de significado. Seja um Deus criador, que formou os céus e a terra, e também nossa vida, ou qualquer outra forma de vida superior que governa o universo, todos temos um deus.

“Quando sua perspectiva está em Deus, seu foco está naquele que vence qualquer tempestade que a vida pode trazer.” Max Lucado

O que é ser cristão?

Por isso, ser cristão é enxergar o mundo e a vida a partir da ótica de um Deus Criador. Este Deus é aquele que criou não apenas o universo e a natureza, mas a cada um de nós. Portanto, possui maior e melhor capacidade de nos decodificar. É também admitir que não nascemos para viver separados ou isolados dEle. É fazer escolhas que sejam coerentes com o que Ele ensinou na pessoa de Jesus. É admitir que sem a cruz nosso acesso ao Pai estava interrompido e que este sacrifício nos incluiu. Ser cristão não é frequentar uma igreja ou simplesmente ler a bíblia e fazer boas ações. Pois, é bem possível que existam pessoas que não se consideram cristãs e que praticam boas obras. Identificar-se com o cristianismo é possuir um relacionamento com a pessoa de Jesus.

Este relacionamento é possível e se traduz na maneira como nos relacionamos com cada aspecto de nossa existência. De modo prático e visível traduz-se na forma com que demonstramos empatia ao sofrimento alheio. Porque foi sempre esta a abordagem de Jesus quando exposto aos conflitos humanos. Ele viu cada um dos que o rodeavam e respondeu de forma prática ao clamor que existia em seus corações. Os que pediram-lhe visão, receberam capacidade de ver. Os que careciam de esclarecimentos foram ensinados. Cada milagre foi liberado de acordo com o que a pessoa necessitava, suprindo uma lacuna. No entanto, Ele foi firme e categórico ao afirmar que era a personificação da verdade, e que não havia outro caminho de acesso ao Pai, fora dEle.

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” João 14:6

Quer concordemos ou não com a verdade absoluta que Jesus veio proclamar, infelizmente não a encontramos na vida de seus seguidores na medida desejada. Cada um de nós, ao se identificar como seguidor de Cristo, deveria carregar traços de caráter, ousadia e amor que Ele possuía. No entanto, temos que ser honestos ao admitir que a vida dEle está aguada e diluída em nosso DNA, sendo raramente percebida por quem nos observa. Quem dera tivéssemos o suficiente dEle para oferecer respostas para tantas questões que assolam a humanidade, como Ele fez. Este sempre foi Seu desejo, isto é, tocar os homens por nosso intermédio, através de nossas mãos. Enquanto isso não acontece de forma satisfatória, vamos amadurecendo. Gradativamente nos humilhamos mais, para quem sabe algum dia, expressar em nossa vida, a perspectiva dEle.

A brevidade da vida.

Nossa vida é breve, por isso, é nossa tarefa conferir-lhe significado. Analisá-la sob a perspectiva da eternidade acrescenta-lhe valor. Já que é imprescindível que façamos bom uso dos poucos anos que temos, transformando-nos em quem nascemos para ser.

Meditar na brevidade da vida e achar sentido para nossa existência não é tarefa fácil. Certamente já vivemos estações em que nos fizemos esta pergunta. Já que, buscar significado e fazer escolhas que nos aproximem de nossos sonhos é no mínimo apropriado, para não dizer decisivo. Nossa mente é limitada para compreender a brevidade de nossos dias, quando analisada a partir de uma perspectiva eterna. Pois, fomos criados por um Deus imenso, eterno, que desenhou o universo e nos inseriu num contexto gigantesco. 

No entanto, a eternidade foi depositada no coração humano, em formato de semente. Esta partícula invisível de nosso ser, assim como cada um de nossos órgãos internos e externos, possui função específica. É dela a tarefa de conferir dimensão correta ao que vivemos. Pois, o grito, por vezes silenciado, que anela respostas, tem sua origem neste lugar. É exatamente lá, no âmago de nosso ser, que os questionamentos e as inquietações nascem. A verdade que revela o que está por trás de nossa breve passagem por esta vida, não é encontrada, a não ser que incluamos o Criador de todas as coisas, nesta equação.

“Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez.” Eclesiastes 3:11

“Quando considero a brevidade da existência dentro do pequeno parêntese do tempo e reflito sobre tudo o que está além de mim e depois de mim, enxergo minha pequenez. Quando considero que um dia tombarei no silêncio de um túmulo, tragado pela vastidão da existência, compreendo minhas extensas limitações e, ao deparar com elas, deixo de ser deus e liberto-me para ser apenas um ser humano. Saio da condição de centro do universo para ser apenas um andante nas trajetórias que desconheço.”  Augusto Cury

Olhando de cima para baixo

Tudo que observamos de cima, nos oferece melhor perspectiva. A visão do passageiro do avião, que observa a cidade e seus habitantes diminuírem à sua vista, enquanto a aeronave decola, certamente difere da que tem o motorista preso no congestionamento. Os carros, casas, prédios, cidades e oceanos vistos de cima assumem proporção diferente da que possuem quando analisados de perto. Por isso, é importante colocar as circunstâncias em perspectiva correta, quando se pretende atribuir valor a cada uma delas.

Pois, perder tempo e gastar energia com situações menores drena nossa capacidade de sonhar e de encontrar respostas. Ao passo que o estabelecimento correto de prioridades está intimamente ligado ao que consideramos importante. Por isso, a desculpa de que não temos tempo para determinada atividade ou interação, nada mais é do que uma declaração de que tal coisa não é importante. Porque comumente priorizamos o que valorizamos. Inegavelmente, somos os únicos responsáveis pela maneira como escolhemos gastar nossos dias.

Portanto, deveríamos perseguir com afinco e determinação o verdadeiro sentido de nossa existência. Certamente essa descoberta é gradativa e não limita-se à análise de apenas uma faceta de quem somos. Muito além dos aspectos práticos e legítimos de se buscar ascensão profissional, da constituição de uma família, encontra-se o encaixe de nossa vida dentro de um universo infinito. É sabido que a experiência dos astronautas, cujos pés tocaram a superfície da lua, em relação à terra, foi assombrosa. Eles tiveram a oportunidade única, de observar a pequena bola em que habitamos, flutuando no universo infinito.

“Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece.” Tiago 4:14

O homem e a eternidade

Porque na terra nossa existência é finita, temos a tendência de analisar tudo com um olhar limitado. A eternidade ultrapassa essa ordem de coisas e foi estrategicamente desenhada por um Deus que não conhece princípio de dias e nem fim de existência. Fomos criados à Sua imagem e semelhança, por isso, também somos eternos. Os setenta ou cem anos de existência que nos foram concedidos nesta terra, quando colocados sob esta perspectiva, não admitem vaidades de qualquer espécie. No entanto, lutar contra esta tendência, talvez seja nosso maior desafio.

As escolhas que fazemos, nos transformam em quem somos. Não existe ninguém responsável pelos rumos de nossa vida a não ser nós mesmos. Certamente alguns são mais afortunados do que outros no que se refere às oportunidades. No entanto, não são as oportunidades que definem quem somos, e sim como lidamos com elas. Nenhum desafio, por maior que seja, tem poder de nos destruir se não permitirmos. Assim como, nenhuma conjuntura é suficientemente poderosa para catapultar nosso futuro, se não ousarmos. 

Em última análise, a quantidade de vaidade que abrigamos, é diretamente proporcional à maneira como nos percebemos. Vaidade não é o mesmo que autoestima, enquanto uma corrompe o verdadeiro sentido das coisas, a outra é imprescindível para a compreensão correta de quem somos. Os vaidosos são os que pensam de si mesmos além do que convém, e não atentam para a brevidade de seus dias. Contudo, os que possuem autoestima, são os que entendem seu valor e papel e comportam-se como pessoas finitas, que nasceram para ser eternas.

O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa.” Salmos 144:4

A vida frágil na perspectiva eterna

A fragilidade da vida é comprovada e inquestionável. Uma enfermidade pode colocar em risco muitos de nossos planos. De maneira idêntica, um acidente pode abreviar a vida de forma brutal e prematura. São muitas as circunstâncias que nos afetam e que confirmam que somos como um vapor. Somos pó e voltamos para o pó. No entanto, nestes vasos de barro, que se percebem finitos e limitados, existe um espírito eterno. Os que equilibram essas duas verdades e transitam pelos anos de sua existência com perspectiva eterna, são os que extraem da vida sua essência.

Inegavelmente somos mais do que a comida que comemos, do que a roupa que vestimos ou do que a casa e o carro que possuímos. O alicerce que sustenta o valor de nossa vida, e que dá sentido à nossa existência precisa ser sólido. A solidez que perseguimos está no Ser eterno que nos criou. Nada fora dEle explica ou traduz, de forma eficaz e verdadeira, quem somos e para o que existimos. Portanto, passar por esta vida sem experimentar um relacionamento de intimidade com quem nos modelou, é o maior de todos os desperdícios. No entanto, viver cada segundo de nossa existência, discernindo que tudo não passa de um grande treinamento, acrescenta significado e valor ao que fazemos e somos.

Sendo eternos, ansiamos pela eternidade e temos saudades do que nunca vimos. Portanto, o verdadeiro sentido de nossa existência não se esgota nesta vida. Pois, sem a perspectiva da eternidade a brevidade da vida nos aprisiona, sufoca e confunde. Temos que esperar mais da vida do que aquilo que vivemos e experimentamos nesta ordem de coisas. Já que, o importante é invisível aos olhos. Portanto, por mais contraditório que possa parecer, a consciência de nossa fragilidade deve ser posta em perspectiva eterna. Porque, tratam-se de verdades interdependentes e complementares. Portanto, esse é o principal motivo pelo qual ambas precisam compor nossa visão da vida.

“Se você nunca parou para ver uma vela queimar-se até extinguir-se sua luz, nunca entendeu o sentido da vida.” Argeu Ribeiro