Respeito e tolerância são diferentes.

Respeito e tolerância não significam a mesma coisa. Respeito é oferecido para pessoa por ser quem é. Tolerância é concedida quando se pretende manter convívio, onde o respeito não existe.

Respeito e tolerância podem manifestar-se de forma semelhante, mas não são a mesma coisa. Pois, quando respeitamos a posição de uma pessoa, ela não precisa necessariamente ser igual a nossa. O respeito está relacionado ao valor da pessoa e permite divergir, desde que o valor da individualidade seja mantido. Ou seja, o que está sendo discutido é a ideia ou ponto de vista e não o valor de quem pensa diferente. Contudo, no caso da tolerância, o que entra na análise é o valor da pessoa, junto com sua ideia. Portanto, a intolerância viola o direito do outro e o desqualifica por pensar diferente. A linha pode ser tênue em alguns casos, contudo, o resultado é muito diferente quando um e outro são oferecidos.

Nos dias atuais, com este ambiente polarizado, precisamos exercitar respeito e não apenas tolerância. Pois, ao desrespeitarmos as escolhas e diferentes opiniões estamos atingindo o ser humano que está por trás da ideia, manifestando-se legitimamente. Não temos obrigação de concordar ou de imitar posturas que consideramos inadequadas. Contudo, revidar com intolerância é a pior resposta que podemos dar. Sabe-se que quanto mais dividido e polarizado um grupo está, mais frágil se torna. De maneira idêntica, quanto mais unido e coeso estiver, tanto mais força possui. Os objetivos que temos são muito semelhantes quando conseguimos separá-los dos métodos que adotamos para conquistá-los.

Por isso, o que temos que oferecer para o que pensa diferente, são nossos ouvidos, não nossa indiferença ou agressividade. Soma confusão a um contexto confuso aquele que se utiliza da desumanização como argumento. Pois, a empatia é o melhor antídoto contra os julgamentos. Já que, quanto mais distantes estamos dela, tanto menos sucesso temos na análise equilibrada dos fatos. Porque, ao nos colocarmos no lugar do outro, podemos avaliar sob sua perspectiva as reações e escolhas que faz. Certamente, este é um exercício nem sempre fácil de se fazer. Contudo, a chave que decodifica e soluciona o enigma é fundamentada em respeito, não em mera tolerância.

Apenas tolerância não resolve

Podemos equivocadamente pensar que nossa tolerância em relação a um pensamento antagônico é o bastante. Mas, quem apenas tolera se sente superior ao outro em alguma medida. Porque, analisa os fatos com um olhar de superioridade de quem não tem nada a aprender com o outro. O que tolera é aquele que ouve por educação apenas; quando ouve. Por vezes, nem isso é capaz de fazer. A intolerância em qualquer esfera é o combustível das guerras e de toda destruição que o homem causa a si mesmo e ao seu semelhante. Pois, quer gostemos ou não, estamos inseridos em uma cadeia onde nossos atos repercutem. Portanto, não podemos agir impensadamente e imaginar que quem está à nossa volta não sofrerá algum tipo de dano.

A interação que acontece entre cada um de nós pode bem ser subliminar, mas ela não é invisível ou inexistente. Ainda que custemos a avaliar corretamente a extensão de nossas ações, elas existem. E, quanto mais influência temos, maiores são os danos que podemos causar com as escolhas que fazemos. Grandes homens, ao longo da história, contribuíram positivamente com suas descobertas e provocações. De maneira idêntica, alguns destruíram nações inteiras com seu orgulho e tirania. Ideias erradas implementadas e disseminadas contaminam gerações e podem alimentar o ódio e a intolerância.

“Não existe outra via para a solidariedade humana senão a procura e o respeito da dignidade individual.” Pierre Nouy

Respeitando o semelhante

O ciclo de vida de uma pessoa não inclui apenas avanços. Os retrocessos e os erros também estão presentes em nossa jornada. Mesmo que sejamos bem sucedidos e alcancemos nossos sonhos, nossa passagem aqui é curta. Conquistar posições, pisando em cima de quem quer que seja, não é uma estratégia inteligente. Pois, todos os bens materiais e contribuições que possamos dar para a humanidade não nos acompanham quando nossa vida aqui acaba. O que levamos conosco é o bem que fazemos, e o amor que semeamos. Os rastros de indiferença, ódio e desavença estarão sempre depondo contra nós e contaminarão nossa biografia e vitórias. Porque, um pouco de sujeira contamina toda água do copo, não apenas uma parte dela. De maneira idêntica, nossa postura equivocada compromete muito dos objetivos alcançados, não apenas parte deles.

O dom supremo é o amor e nele não existe inveja e ressentimento. Amar é respeitar as diferenças e reconhecer no outro uma pessoa de valor. Porque, independentemente das escolhas que faz, a individualidade do ser humano não pode ser usurpada. Defender esse território é tarefa de cada um e deveria ser compromisso de todos. Quando entendemos definitivamente que não é legítimo eliminar o outro para defender nosso ponto de vista, estamos seguindo na direção correta. Por isso, qualquer caminho que estimule comportamento diferente, deve ser descartado. Pois, nenhuma conquista pode ser validada quando se utiliza de meios que agridem e destituem o semelhante do protagonismo que tem de sua própria vida. Esta é precisamente a linha divisória que jamais pode ser ultrapassada.

“Quando se respeita alguém não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento.” Simone de Beauvoir

Esperando água. Cavando poços no deserto.

Cavar poços no deserto envolve fé. Confiar que Deus poderá enchê-los de água oportuniza uma experiência de parceria entre criatura e Criador.

A água é um dos mais essenciais elementos de nossa sobrevivência. O ser humano não sobrevive sem ela por muitos dias. Facilmente a falta de alimento é substituída ou superada, mas a falta de água não é tolerada por nosso corpo.

O organismo humano é composto de 65% de água. Igualmente, 71% da superfície de nosso planeta é composta de água. Por ser tão vital, a ausência de água subtrai nossa energia e sanidade. Qualquer pessoa desidratada não sobrevive por muitos dias.

Em condições normais a ausência de água é percebida e raramente tolerada. Por isso, as travessias dos desertos são tão desafiadoras e por vezes mortais. Cada um de nós já atravessou desertos com e sem água. Esses lugares áridos, onde o refrigério parece não existir.

São aquelas caminhadas intermináveis que parecem nos levar a lugar algum. Debaixo de um sol escaldante e de noites frias, às vezes temos a sensação de fracasso. Todas as vezes que adentramos em uma estação desértica, o que mais desejamos encontrar é um oásis que sacie nossa sede.

As batalhas do deserto em busca da água

O povo de Israel enfrentou muitas batalhas em sua travessia pelo deserto, uma delas é narrada no capítulo 3 de II Reis: “E partiram o rei de Israel, o rei de Judá e o rei de Edom; e andaram rodeando com uma marcha de sete dias, e não havia água para o exército e nem para o gado que os seguia.” 2 Rs. 3.9

Esses reis mencionados acima, pretendiam guerrear contra os Moabitas, e além de não terem água, estavam cansados e desanimados. Nenhuma vitória seria conquistada nestas condições e diante do desespero eles clamaram por ajuda.

A orientação que receberam foi a de cavar poços. Depois de uma jornada de sete dias, a arte de cavar poços diante de um sol escaldante, não parece lógica ou atrativa. Seria desperdiçar o resto de energia na tarefa de confiar que os poços se encheriam.

E ele disse: Assim diz o Senhor: Fazei neste vale muitos poços. Porque assim diz o Senhor: Não vereis vento, nem vereis chuva; contudo este vale se encherá de água, e bebereis vós, os vossos servos e os vossos animais.” 2 Rs. 3.16,17

Nossos poços no deserto

Ter fé em momentos desafiadores é a real demonstração de que conhecemos o caráter de Deus. Engana-se quem pensa que Deus não se importa com nossa necessidade. Ele importa-se, mas não se move baseado nela. Nossa fé move a mão de Deus, não nossa necessidade.

O ato de cavar poços no deserto, atrai a ação de Deus e o compromisso que Ele tem de mandar chuva para enchê-los. Temos sempre um papel no “milagre” que Deus opera em nós e através de nós.

Deus não faz nossa parte e, pretensiosamente, não é sábio querer fazer a dEle. A fé sem obras é morta (Tg. 2.20). Quando cavamos o poço declaramos de forma prática que confiamos que Ele mandará a água.

Essa parceria entre criatura e Criador precisa ser experimentada individualmente. Nenhuma vitória alheia nos encoraja tanto, como aquela que nós colecionamos. O relacionamento que Deus pretende ter conosco é pessoal e envolve parceria.

Decidindo cavar poços

A decisão de cavar poços, em obediência a uma orientação de Deus, é sábia e decisiva. Muitas vezes precisamos chegar a extremos para finalmente obedecer. Muitas vezes nossa saúde corre riscos, ou as derrotas são iminentes, quando finalmente nosso olhar é direcionado para o lugar de refúgio.

Os seres humanos são independentes em sua essência e ignoram o fato de que não foram criados para viver de forma independente. Nascemos com a necessidade de pertencer. Nenhum relacionamento familiar, de amizade ou parceria se compara ou ocupa o lugar que Deus deve ter em nossa existência.

Ele é o único que pode entrar em parceria conosco e nos preencher completamente. Enquanto cavamos poços, Ele manda a chuva. Nesta parceria a necessidade da criatura se encontra com a provisão do Criador. Mais importante que a provisão em si, nasce a certeza de que Ele se importa e que não estamos sós.

E sucedeu que, pela manhã, oferecendo-se a oferta de alimentos, eis que vinham as águas pelo caminho de Edom; e a terra se encheu de água.” 2 Rs. 3.20