Envelhecer é revolucionário

Envelhecer é privilégio de quem vive muito, mas, infelizmente, não é sinônimo de viver bem. Vive bem quem colhe nesta fase as escolhas sábias que fez.

Envelhecer pode ser um tabu e um desafio para muitas pessoas, mas é a coisa mais natural da vida. Como diz a letra da música de Arnaldo Antunes: envelhecer é a coisa mais moderna que existe nesta vida. Pois, cada fase de nossa existência possui sua beleza e deve ser vivida com intensidade. É bem verdade que o discernimento e a maturidade que os anos acrescentam são adquiridos sem atalhos. Ou seja, não existe nenhuma maneira de driblar o inevitável impacto que os anos causam em nosso corpo. Contudo, o ser humano é espírito, tem uma alma e habita em um corpo. Por isso, ainda que não consigamos proteger o invólucro, temos que zelar pelo que permanece e é eterno. O verdadeiro cuidado, portanto, origina-se no interior e afeta o exterior.

O mundo globalizado e a era da tecnologia possibilitaram acesso à informação de forma simples e eficiente. Nunca antes como agora, ouviu-se falar tanto sobre a importância do exercício físico, da boa alimentação e da vida livre de excessos. Contudo, a população mundial continua sem dar a importância devida aos cuidados que permitem um envelhecimento saudável. Aliás, cuidar apenas do corpo, esquecendo-se de lidar com a alma e o espírito não é suficiente e nem eficaz. A velhice é a fase em que os abusos cometidos cobram a conta e, infelizmente, nem sempre é possível revertê-los. Fazer escolhas erradas faz parte de todo processo de aprendizado, já que, só não erra quem desistiu de aprender com a vida. Contudo, precisamos assimilar este aprendizado, evitando a perpetuação dos erros e de suas consequências.

“Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo.” Charles Saint-Beuve

A infância e a velhice

A infância é a fase da vida onde deveríamos usufruir de maior liberdade. Não a liberdade que o adolescente reivindica, nem aquela dos movimentos revolucionários. Mas, aquela atrelada ao fato que podemos sonhar, brincar e acreditar em um futuro brilhante. Na proteção de lares estruturados as crianças deveriam crescer e fundamentar sua personalidade e caráter no amor e na aceitação. Sabemos que na prática não é essa a experiência da maioria da população. Inevitavelmente esse mundo de conto de fadas só existe na ficção. A vida real apresenta um quadro bem mais complexo e desafiador do que este. E é exatamente nesta fase que as sementes da velhice começam a ser plantadas.

Não é a toa que as últimas memórias que somem de nossa mente são aquelas experienciadas na infância. Negligenciar os cuidados desta fase pode bem impactar negativamente a vida adulta e a velhice. Uma criança segura e que recebeu amor transforma-se no adulto equilibrado que envelhecerá com menos conflitos. Contudo, podemos recuperar as perdas da infância na fase adulta e também na velhice se encararmos os desafios como oportunidades de aprendizado e não tivermos receio de nos reinventar. O desaprender e o reaprender não deveriam ser privilégio da criança, o adulto sábio é aquele que encara este processo com naturalidade.

“Ao envelhecer, parei de escutar o que as pessoas dizem. Agora só presto atenção ao que elas fazem.” Andrew Carnegie

Sem medo de envelhecer

Quem teme o envelhecimento não aprendeu o suficiente com a vida. É provável que o temor esteja associado a alguma lacuna que não foi corretamente preenchida. Ou ainda, pode bem ser resultado de uma nostalgia exagerada. A velhice é a fase da vida em que os cabelos brancos coroam uma trajetória de erros e acertos, e que também revelam nossa capacidade de não se levar tão a sério. Aquilo que no passado assumiria proporções gigantescas é capturado por um olhar mais gentil e menos ansioso. E toda circunstância que exige adequação e conserto é resolvida com menos esforço físico e mais inteligência. A vida assume um rítmo menos frenético, não só pela limitação imposta pelo corpo, mas especialmente pela sabedoria absorvida.

A geração atual de idosos sobreviveu sem o auxílio do celular e do computador. Ela aprendeu a aguardar pacientemente pela chegada de uma carta, assim como pelo tempo necessário para revelar-se uma fotografia. Este é um dos motivos que a capacita a valorizar gestos simples, sofrendo menos com questões que sabe que o próprio tempo se encarrega de ajustar. A tecnologia encurtou distâncias mas também imprimiu um ritmo desumano ao cotidiano de algumas pessoas. Certamente os desafios de envelhecer da nova geração serão diferentes, mas não menos significativos. A verdade é uma só, todos os que vivem suficiente para envelhecer têm oportunidade de usufruir desta fase com mais ou menos sabedoria. Isto é, a velhice é a fase em que a soma das escolhas feitas é denunciada.

“Se o tempo envelhecer o seu corpo, mas não envelhecer a sua emoção, você será sempre feliz.” Augusto Cury

As mudanças e trocas

As mudanças que acontecem são mais evidentes no corpo do que em qualquer outra parte de nosso ser. Mas o invisível aos olhos é o que tem capacidade de sustentar as limitações apresentadas pelo corpo. As rugas são uma mudança e não precisam ser cobertas com maquiagem, elas são revestidas de serenidade e clareza. A visão física limitada é complementada com a ótica de um coração generoso e grato que enxerga coisas que os olhos não capturam. Os cabelos brancos não são mais cobertos com tinta, mas revelam a postura correta que estreita laços e desfaz conflitos, adquirida ao longo dos anos. A audição pode estar falhando mas oferece o ouvido atento de quem se importa.

As mudanças nada mais são do que trocas feitas e oferecidas. Trocou-se o que era passageiro e frágil pelo que tem valor eterno. Troca-se o que era urgente pelo que é importante. De maneira idêntica, troca-se com facilidade o sorriso e o abraço pela necessidade de estar certo. Usar o vigor da juventude para construir o alicerce da velhice é a coisa mais sábia que podemos fazer com nosso tempo. Por outro lado não é comum pensar nisso quando se tem uma vida inteira pela frente. Envelhecer não é nosso alvo, mas é nosso destino. No entanto, chegar neste destino com sabedoria deveria ser nosso alvo.

“Qualquer idiota consegue ser jovem. (…) É preciso muito talento pra envelhecer.” Millôr Fernandes

As diversas maneiras de saber

O saber é o resultado de conhecimento aliado à experiência. A sabedoria não ensoberbece, mas aumenta a certeza que jamais sabemos tudo.

O saber pode se expressar de maneiras distintas. Por isso, eleger corretamente o método utilizado para expressar o que conhecemos, exige sabedoria. Ou seja, o conhecimento avulso e desprovido de sabedoria nem sempre é identificado como saber. Pois, a pessoa sábia é aquela que se percebe como um eterno aprendiz e que essencialmente aprendeu a ouvir. Porque, toda sabedoria alicerçada em auto suficiência e orgulho é apenas informação. Ainda que seja um conhecimento profundo, será apenas teoria, se não tiver sido testado.

Curiosidade aliada à certa dose de disciplina e tenacidade nos conduz por caminhos que aumentam consideravelmente nossa capacidade de absorver conhecimento. Já que o verdadeiro aprendizado é absorvido através de nossos cinco sentidos de forma intuitiva. Uma boa leitura, por exemplo, pode provocar questionamentos que nos transformam. Assim como o que ouvimos nos afeta, podendo nos instruir ou confundir. O olfato, paladar e tato, inegavelmente, estão captando nuances que complementam o que vemos e ouvimos. Ou seja, nosso corpo foi estrategicamente desenhado para sorver o que nos rodeia. No entanto, cada um processa e utiliza estas informações de forma distinta.

Existem pessoas que escolhem não aprender com as circunstâncias, pois repetem erros cometidos. É fato que não somos à prova de fracassos, mas, cada vez que o novo nos desafiar e escolhermos errado; temos que corrigir o erro. No entanto, a repetição de um padrão que gerou resultados negativos, denuncia incapacidade de aprender. A linguagem não verbal e as circunstâncias precisam ser codificadas corretamente. Porque são fonte abundante de conhecimento e de respostas. Certamente não são apenas as nossas circunstâncias que nos ensinam. Inegavelmente, quando se deseja conhecer algo, a experiência do outro pode ser um bom ponto de partida.

“Só sei que nada sei.” Sócrates

Descobrindo como convém saber

Ainda que o aprendizado adquirido como fruto de observação seja legítimo, o conhecimento que mais nos afeta e influencia é o oriundo de uma experiência pessoal. Certamente é com base no que experimentamos que nossa alma recebe impressões poderosas que a modificam. Contudo, nem sempre estas impressões são positivas. Muitos possuem tatuados em sua psiqué fatos e traumas, que distorcem sua percepção. Ou seja, o processamento da informação é afetado por gravações antigas e doloridas que funcionam como filtros. Por isso, uma mesma situação vivida por pessoas diferentes pode produzir resultados muito diferentes.

De maneira idêntica, uma mesma palavra dita por alguém que passou ou viveu algo tem peso maior do que a que é simplesmente repetida ou citada. Certamente o que nos atrai e tem poder de chamar nossa atenção nem sempre é tangível. Capturamos nuances no tom da voz, na doçura da escolha das palavras e dos gestos que embelezam o saber. Assim como fica evidente a falta de controle, o nervosismo e a insegurança no discurso dos amadores. Por isso, o saber é um todo, envolve elegância, gentileza e empatia. Porque o sábio aprendeu a ocasião oportuna de falar e calar. Sua abordagem é honesta e firme, mas também é doce e gentil.

Portanto, a pureza da inteligência é testada nos momentos mais inesperados e conflitantes. A maturidade do julgamento e a retidão da vontade geram a discrição necessária; típica de quem sabe como saber. Nascemos com a necessidade de aprender e construir uma trajetória crescente de sucesso. Esta trajetória, no entanto, nem sempre é linear. Teremos momentos de aparentes retrocessos e quem sabe até de apatia. Contudo, mesmo a partir destes momentos, estamos sendo transformados. O movimento em busca do aprendizado produz avanços, já que inutiliza o ponto de partida. Ou seja, nosso andar elimina possibilidades e destrói algumas pontes que nos conectam a zonas de conforto.

“O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute.” Sabedoria oriental

Lidando com a incerteza

Por isso, o ponto de partida nunca é o mesmo, ainda que aparentemente pareça ser. Pois, o processo de aprendizado transforma nossa estrutura emocional. Não raro, temos sentimento de perda e sentimos saudades de um lugar que não existe mais. Portanto, os que antipatizam com a incerteza e possuem tendência perfeccionista terão mais dificuldade de contabilizar progressos. Já que sua percepção é afetada por um padrão que não corresponde à realidade. Eles também terão dificuldade de celebrar vitórias alheias; pois não as reconhecerão facilmente. O aprendizado neste caso estará vinculado à disposição de lidar com estes filtros, eliminando-os.

O saber, portanto, pode ser a simples descoberta de que existe liberdade disponível. Liberdade para criar, errar e viver o hoje. Sucumbir ao medo ou à insegurança limita consideravelmente nossa capacidade de evoluir. O desaprender para reaprender é parte integrante da jornada rumo ao saber. Pois, os sábios não necessitam aplausos ou aprovação de quem os rodeia. Porque, sabem que não são perfeitos e nem pretendem ser. Reconhecem suas fragilidades e são generosos com erros cometidos por seus semelhantes. Levam-se menos a sério e, por isso, usufruem mais do hoje; preocupando-se menos com o futuro.

Quando sabemos que está fora de nosso alcance consertar os erros do passado; lidamos com as consequências destas escolhas com maturidade e honestidade. Já que, absorver as lições aprendidas;  abrindo-se para os novos desafios, sem perder o entusiasmo e o otimismo é o que se espera de todos que desejam aprender. Pois, a vida é resultado destas escolhas, e nos conduz por caminhos diversos que nos moldam e embelezam. O saber, portanto, não é conhecimento puro e simples. É uma ótica curiosa e destemida que adquirimos quando deciframos corretamente nossa estrutura. A estagnação e o fatalismo são substituídos por um posicionamento consciente e ativo.

“O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes.” Cora Coralina

Vencendo limites

Os limites são considerados, contudo, não constituem barreira para o progresso daqueles que estão determinados em superá-los. Desculpas e justificativas não fazem parte da linguagem de quem valoriza a possibilidade de aprender. Os mestres serão tudo e todos, já que existe um pouco de sabedoria escondida em cada oportunidade e circunstância. O verdadeiro saber não ensoberbece. Porque faz parte do saber se perceber como finito dentro de um universo infinito.

A sabedoria, portanto, é adquirida por aqueles que descobriram que não existe limites para o saber. Por isso, eles também não se deixam limitar, nem mesmo por suas fragilidades. Pois, quanto mais avançam, tanto mais certos estão de que nada é permanente e que estamos sempre nos transformando. A plasticidade do cérebro precisa ser explorada e nela começam as decisões rumo ao desconhecido. Desbravar territórios não conquistados em nós e fora de nós é o que nos faz sábios.

“Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.” William Shakespeare

Amadurecendo sem envelhecer

Amadurecer não é sinônimo de velhice ou senilidade. Envelhecemos quando desistimos de nós mesmos e não usufruímos da sabedoria acumulada, a nosso favor.

Será que é possível amadurecer sem envelhecer? Acredito que sim. Amadurecimento é algo saudável, que nos acontece sempre que agregamos conhecimento a respeito de algo. Uma pessoa madura é aquela que aprende com as circunstâncias. É alguém que permite que a vida lhe ensine e que o tempo lhe molde. Maduro é aquele que não ignora o aprendizado por trás de cada circunstância cotidiana. Porque busca compreender o que nem sempre está explícito.

“A maioria das pessoas não cresce. A maioria envelhece. Elas encontram lugares de estacionamento, honram os seus cartões de crédito, casam, têm filhos, e chamam isso de maturidade. Isso é o envelhecimento.” Maya Angelou

O envelhecimento em geral reflete o oposto. Envelhecer é sinônimo de perda de vigor, de ausência de expectativa, pode significar abandono e solidão. Obviamente nosso corpo envelhece, e contra isso não podemos lutar, mas o envelhecimento precoce da mente é mais assustador do que o do corpo.  Quando temos uma mente ativa, menos nosso corpo sofrerá. Pois é a mente quem determina quanto do processo do envelhecimento do corpo nos limitará.

Lutando contra o envelhecimento da mente

Sabemos que nossa mente comanda nosso corpo. É dela que partem as orientações e coordenadas sobre as quais nosso corpo se molda. Existem estudos que comprovam que a recuperação de pessoas otimistas é mais rápida e eficiente do que a de pessoas pessimistas. Nosso cérebro tem plasticidade, isto é, tem capacidade de se reprogramar. Os que usufruem desta faculdade do cérebro, são os que amadurecem sem envelhecer.

A renovação ou reprogramação de nossa mente é determinante para que envelheçamos de forma equilibrada. Embora as limitações do corpo sejam reais e possam ditar alguma regra nova de comportamento, cabe à mente adequá-las. Gostar de si mesmo e se perceber de forma correta é essencial. Pessoas que não amam a si mesmas são incapazes de amar os outros. Portanto, o vigor e paixão pela vida não estão vinculados ao corpo e sim à nossa disposição mental.

Certamente os que se amam, cuidam melhor de seu corpo como consequência. Mas a recíproca não é verdadeira, já que comumente as pessoas fazem o inverso. Isto é, cuidam do corpo na expectativa de aumentar sua baixa-autoestima, mas os resultados não são duradouros. A ordem desta equação é começar de dentro para fora. Resolvemos nossos problemas internos e os externos são solucionados. Toda tentativa que ataque o exterior objetivando mudar o interior será frustrada.

“Ao envelhecer, parei de escutar o que as pessoas dizem. Agora só presto atenção ao que elas fazem.” Andrew Carnegie

Os que envelhecem sem amadurecer

Corremos o risco de envelhecer sem nunca amadurecer. O envelhecimento precoce da mente reflete diretamente no envelhecimento do corpo. Os que ocupam suas mentes com julgamentos e críticas, são os que não focam no que realmente importa. Aquilo de que nos alimentamos passa a fazer parte de quem somos. Essa é uma regra que se aplica à nossa saúde física, mental e emocional. Por isso, é importante vigiar em relação ao que permitimos que nossos cinco sentidos acessem. Já que, o pior envelhecimento é o da mente e contra este devemos lutar diariamente. 

Todos travamos batalhas com nossa mente, mas a derrota fatal acontece quando nos envergonhamos de quem somos. Quando atingimos este estágio de desânimo, nos transformamos em nosso pior inimigo. Em última análise envelhecemos quando nos cansamos de nós mesmos. Assim como acontece com as doenças auto-imunes, em que o organismo ataca a si mesmo, podemos estar nos auto-sabotando. Pensando em estar combatendo uma ameaça, podemos estar atacando a nós mesmos. 

A vergonha corrói aquela parte de nós que acredita que somos capazes de mudar. A capacidade de mudar é um fato. Portanto, não importa quão longe tenhamos ido na direção oposta, há possibilidade de recalcular a rota. Nosso GPS interno precisa ser recalibrado para que isso ocorra. Por isso, alimentar nossa mente com o que é saudável propicia o recálculo do trajeto, a partir do ponto do desvio. 

Deixando nossa marca nas pessoas

Os mais velhos deveriam ser fonte de sabedoria e orientação para a geração que os sucede. Infelizmente isso não é uma regra. Existem nações que honram os cabelos brancos de seus anciãos e os respeitam por questões culturais. Embora esta prática seja louvável e adequada, muito mais significado teria se fosse fruto de reconhecimento espontâneo. 

Porém ninguém que está nu, pode oferecer-nos vestimenta. Existe uma nudez explícita que precisa ser combatida, porque precisamos estar vestidos para poder ajudar outros. Igualmente importante  é perseguir com determinação nossa saúde emocional e física. Não sabemos tudo e temos o dever de fazer o melhor com o que sabemos. Quando amadurecemos em algum aspecto temos mais a oferecer e certamente menos a exigir.

Lidar com sensatez e equilíbrio com as mudanças hormonais e limitações de nosso organismo depende muito do que aceitamos como verdade. Temos capacidade de influenciar nossa geração com o que somos e com os sonhos que temos. Deveríamos nos sentir responsáveis por viver uma vida que deixasse marcas e que influenciasse a geração seguinte.

Os que envelhecem com sabedoria

Lamentavelmente muitos não se relacionam com a vida desta forma. O teto dos pais e avós deveria ser o alicerce dos filhos e netos. Aquilo que eles conquistaram de conhecimento e patrimônio deveria ser o ponto de partida de seus sucessores. Este é o curso correto de construção de nossa trajetória. Ninguém deveria partir do zero, todos deveriam ter uma base sobre a qual pudessem construir sua existência. Isto é obedecer o princípio da honra.

Por isso, a geração que entende isso deixa um legado e não será lembrada pelo que não conquistou e sim pelo aprendizado e modelo em que se transformou. Pessoas nem sempre lembram exatamente o que fazemos, ou dizemos, mas sempre lembram de como as fizemos sentir. O importante não é conhecer todas as respostas, ou ser alguém que está em destaque o tempo todo.

A maturidade agrega conhecimentos que repartimos de forma inconsciente. São discursos sem palavras que atraem a atenção dos olhares atentos que buscam sabedoria. Os que compreendem isso amadurecem e são eternos aprendizes, por isso, não envelhecem. Os jovens de mente jamais envelhecem, ainda que amadureçam. Mas os velhos de mente talvez nunca amadureçam, porque ignoram sua identidade e valor.

“Se o tempo envelhecer o seu corpo mas não envelhecer a sua emoção, você será sempre feliz.” Augusto Cury

Diga-me e esqueço. Ensina-me e lembro. Envolva-me e aprendo.

O verdadeiro aprendizado se dá através de envolvimento. O ônus de temer a vulnerabilidade dos relacionamentos é a ignorância.

“Diga-me e eu esqueço. Ensina-me e eu me lembro. Envolva-me e eu aprendo.” Benjamin Franklin

Não é novidade que nossas atitudes e ações falam mais alto do que nossas palavras. A conhecida frase de Ralph W Emerson, que diz: “o que você faz fala tão alto, que não consigo ouvir o que você diz”, é muito verdadeira.

Nossa vida e nossas escolhas falam. Assim como nossos gestos e olhares falam. Enfim, o que comunicamos não está associado unicamente às palavras. Comunicar está associado com partilhar, tornar-se parte de algo e tornar comum. Quando nos dispomos a comunicar alguma verdade ela precisa ser resultado de quem somos.

Existem muitas vozes atualmente buscando espaço e competindo no mundo virtual e físico. A humanidade carece de heróis, de referências e modelos. No entanto, alguns apontam na direção de um caminho que deve ser evitado, já que seu fim é trágico. Os grandes mitos e exemplos da humanidade foram pessoas que superaram desafios e aprenderam com eles.

A difícil arte do aprendizado

Aprendemos de forma intuitiva desde pequenos. Quando estamos rodeados de bons exemplos e de equilíbrio, absorvemos facilmente estas características. São elas que solidificam-se ao longo dos anos e nos tornam pessoas seguras. Quando isso acontece, nossa identidade é clara e nosso senso de propósito é aguçado.

No entanto, absorvemos também tudo que é negativo e destrutivo do que nos cerca. Nossa família e o meio em que vivemos pode ser um ambiente tóxico, que nos aleija e macula. Por isso, substituir estes ensinos por lições que nos levem para nosso destino não é tarefa simples e imediata.

Desaprender, reaprender e se permitir moldar é uma chave importante e eficaz que nos aproxima do alvo. O grande segredo é alimentar nossa mente com informações que cheguem até nós no formato de relacionamentos. Cercar-se de pessoas que ensinem o caminho com seu exemplo é decisivo. É também um atalho que evita a ignorância.

Pessoas que ensinam

O maior legado que deixamos é o que aprendemos. O material é destruído com o tempo, mas o conteúdo intelectual é eterno. Tudo que foi aprendido incorpora-se a quem somos. Por isso, são os relacionamentos que nos dão oportunidade de repartir esse aprendizado.

Não precisamos ser professores para ensinar. Os verdadeiros mestres ensinam com suas vidas, sem palavras. Todos os que amam o conhecimento, admiram e gostam da companhia de pessoas que são referência em sua área de atuação. É a vida de cada um a principal fonte de aprendizado.

Perseguir este conhecimento nos enriquece e completa. Porém, engana-se quem pensa que os livros são capazes de conter a totalidade deste conteúdo. Às vezes, as lições mais preciosas estão escritas na vida de pessoas que estão próximas. Pessoas que nem sempre alardeiam o que carregam, o que, de fato, torna o conhecimento ainda mais valioso.

“E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.” 1 Coríntios 8:2

Comprando a verdade

“Compra a verdade, e não a vendas; e também a sabedoria, a instrução e o entendimento.” Provérbios 23:23

Comprar a verdade significa pagar um preço para adquirir sabedoria. Muitos concordam em pagar um preço pelo conhecimento adquirido nas universidades. Mas, sabem muito pouco sobre adquirir sabedoria. Porém, sem sabedoria, não saberemos aplicar o conhecimento adquirido.

O verdadeiro aprendizado acontece regado por envolvimento. Sem relacionamentos nosso conhecimento não pode ser aplicado. Os relacionamentos testam o conhecimento, já que são eles que oportunizam praticá-lo.

Uma lição ensinada desacompanhada do exemplo é vazia de significado. No entanto, as lições que possuem poder de nos transformar são aquelas que vemos incorporadas na vida do outro. O que grita em nossa direção é o que está solidificado, não o discurso bem elaborado e eloquente.

A fotossíntese do aprendizado

A fotossíntese do aprendizado é permitir que o conhecimento seja transformado em aprendizado. O canal desse processo são as relações humanas. Os que desejam adquirir sabedoria, terão que abraçar a vulnerabilidade. Pois, é ela que lapida e incorpora o aprendizado em nossa corrente sanguínea.

Por isso, a decisão de ser um canal de aprendizado inclui mais do que repartir conteúdo. No final de nossa jornada o que prevalece é a marca que deixamos e que outros deixaram em nós. Nenhum conhecimento que não foi testado pode ser considerado aprendizado. Em geral os que se matriculam nesta escola, são alunos que descobriram que aprendem quando são envolvidos e se deixam envolver.

Nossa relação com o tempo. Aliado? Ou inimigo?

Fazer do tempo um aliado é uma arte que precisamos aprender. Sem isto, a vida fica dura e sem brilho.

O tempo é muito lento para os que esperam

Muito rápido para os que têm medo

Muito longo para os que lamentam

Muito curto para os que festejam

Mas, para os que amam, o tempo é eterno.”

Henry Van Dyke

É próprio das crianças achar que o tempo não passa e dos mais velhos achar que ele voa. À medida que o tempo passa, adquirimos convicção de que perdemos algumas chances de fazer diferente. Desperdiçamos oportunidades que não voltam mais. Por isso, mais do que nunca, é imperativo valorizar o hoje.

Saber contar os nossos dias e vivê-los com sabedoria é característica de quem aborda a vida de maneira correta. Nem o desejo de absorvê-la rapidamente, ansiando pelo futuro, nem a apatia em relação ao presente, nos aproximam do verdadeiro sentido que ela possui.

Quando aprendemos a apreciar o trajeto, enquanto nos direcionamos para o destino, a jornada fica prazerosa e chegamos mais rápido. O peso sobre nossos ombros diminui, à medida que usufruímos das belezas do agora.

Nossa ansiedade não consegue acrescentar qualquer benefício ao que não aconteceu como gostaríamos. Dosar corretamente nossas expectativas, ajustando-as aos nossos recursos, nos aproxima de uma vida sábia e coerente. Existem coisas que simplesmente fogem de nosso controle e alcance. E contra elas não é sábio lutar.

A sabedoria dos anos

Os anos acrescentam sabedoria e leveza a nossa abordagem da vida. Todos os que já começaram a desacelerar o ritmo, aprenderam que não é só o corpo que sinaliza nesta direção, mas a experiência demonstra que a agitação e ansiedade não nos levam mais longe ou mais rápido.

Lentamente começamos o processo de descarte de tudo que torna a vida complicada. Aprendemos a difícil lição de viver um dia de cada vez. Não se levar tão a sério também é um ingrediente importante desta receita. Cada vez que erramos ou nos arrependemos de alguma escolha feita, existe sempre a chance de recomeçar.

Aprender, reaprender, desaprender… este é um ciclo muitas vezes repetido e não se esgota. Não sabemos tudo e nem precisamos saber. Somos eternos aprendizes e devemos ter curiosidade para perseguir a novidade escondida em cada amanhecer.

As marcas do tempo

Imaginar que o tempo não deixará marcas externas e internas é ignorar as características deste companheiro de jornada. Reconhecer as marcas positivas e as negativas, que denunciam a ação dos anos em nosso corpo e mente, é indicado. O valor que atribuímos a estas marcas deve ser proporcional ao aprendizado que elas carregam.

A visão pode não ser tão boa e precisa, mas é certamente, mais profunda e ampla. A pele pode não estar tão viçosa e lisa, mas suporta com mais facilidade os arranhões e hematomas da alma. Os pés podem já não ser tão ágeis, mas são certeiros e conhecem alguns atalhos que só o tempo ensina.

Conviver com o tempo, percebendo-o como aliado, é uma arte que poucos dominam. Ele escorre de nossas mãos com uma rapidez peculiar de tudo que é raro e valioso. Definitivamente, os que deixam sua marca, em sua breve passagem por este mundo, são os que reconhecem no tempo seu eterno aliado.

“Eu vou envelhecer, mas nunca perderei o gosto pela vida, porque a última curva da estrada será a melhor.” Henry Van Dyke

Maturidade tem mais a ver com o tipo de experiência que você teve na vida, do que com quantas velas você apagou.” William Shakespeare

 

Ensinar e aprender. A arte de transitar entre os dois papéis

Nem o que ensina sabe tudo, nem o que aprende ignora por completo. Ensinar e aprender são papéis que se alternam.

Estou sempre disposto a aprender, mas nem sempre gosto que me ensinem.” 

Winston Churchill

Essa frase de Churchill, aparentemente contraditória, revela um aspecto interessante do ser humano. O aprendizado envolve observação e humildade. Nem sempre possuímos ambos, mas eles são componentes da mesma equação.

Não gostamos que nos ensinem, quando julgamos estar certos em nossas convicções e argumentos. Outras vezes não é nenhuma certeza que temos que nos impede de ouvir o que o outro tem a dizer, mas nosso orgulho.

O verdadeiro aprendizado se dá quando observamos o que fazem e como vivem outros e nos permitimos moldar. A arte de aprender envolve humildade, que admite a ignorância, e voluntariamente se posiciona.

Nem todo aprendizado se dá pelo estudo de algum tema específico. As maiores lições são absorvidas pelo exemplo. Os verdadeiros líderes e mestres possuem seguidores que reconhecem-nos como modelo.

A verdadeira liderança não é imposta. Ela precisa ser voluntária em sua essência. Todo aquele que deseja ensinar com maestria precisa ser um eterno aprendiz. A simples conclusão de que se sabe tudo, denuncia a ignorância.

“Se alguém julga saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.” 1 Co. 8.2

Ensinando a aprender

Ensinar igualmente não é tarefa fácil. O que ensina precisa mais que domínio de conteúdo, precisa saber como comunicar o que sabe. Muitos carregam profundos conhecimentos a respeito de algo específico e não são capazes de repartir o que sabem.

Os seres humanos não são completos em si mesmos. Propositadamente não somos bons em tudo que fazemos. A necessidade de que o outro nos complete gera a unidade que devemos perseguir.

Eu, a sabedoria, habito com a prudência, e acho o conhecimento dos conselhos.” Pv. 8:12

“Ouve o conselho, e recebe a correção, para que no fim sejas sábio.” Pv. 19:20

O fundamento da verdadeira sabedoria está na admissão da dependência que devemos ter uns dos outros. Não uma dependência infantil e manipuladora, mas aquela que enxerga no outro o que lhe falta.

A ignorância não deve ser temida. A negação dela é mais temível que sua admissão. Tanto o que ensina, como o que aprende não sabem tudo e nunca saberão. Devemos intercalar os papéis com maestria, sendo eternos aprendizes e mestres.

Os que dominam esta arte, são aqueles que não pensam de si mesmos além do que convém. São os que não se levam tão a sério, porque não precisam estar sempre certos. São os que verdadeiramente entenderam o sentido da vida.

Aprender a contar os dias, exige sabedoria. Os tolos andam em círculos.

Quanto mais sábios formos ao viver nossos dias, tanto menos arrependimento teremos de tê-los desperdiçado.

Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios.”

Sl. 90.12

Os que desejam extrair o máximo de seus dias, não são necessariamente os que os preenchem com atividades intermináveis. A sabedoria associada à administração correta de nosso tempo, é adquirida.

Adquirimos esta sabedoria quando acessamos a fonte de nossa existência, que é o próprio Deus. NEle reside todo conselho e toda orientação que necessitamos para não desperdiçar nossos dias.

A vida é o conjunto de frações de tempo que somos chamados à administrar. A simples organização coerente deste tempo não é suficiente. Temos que equilibrar nossas energias e focá-las naquilo que agrega significado aos nossos dias.

Adequando nossos dias às estações

Fazer a coisa certa no tempo errado, não é sábio. Por vezes, as atividades com as quais nos envolvemos são legítimas. Porém, elas precisam ser exercidas em outra estação. Temos que ter coragem de avaliar nossas motivações e nos adaptar às estações.

Alguns lamentam o tempo desperdiçado na juventude, ou quem sabe na infância. Em geral nos damos conta de que focamos nas coisas erradas depois que elas passam ou acabam.

Nossa vida tem estações, e todas elas acabam. Cada nova mudança de estação exige adequação. Assim como no natural, as novas estações trazem consigo necessidade de ajuste.

Assim como é inadequado usar um casaco de lã em pleno verão, é igualmente inadequado não discernir as estações que vivemos. Temos que ter olhos para ver o que elas trazem de melhor e pior, e nos adaptar a cada uma delas.

É proibido estacionar nas estações. Isso não seria sábio. Por mais que desejássemos que algumas delas fossem intermináveis, e outras passassem depressa, elas possuem uma velocidade peculiar.

Os dias e o tempo de cada coisa

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”

Eclesiastes 3.1-8

O verdadeiro valor de nossos dias

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”   

Maria Julia Paes de Silva

Somos capazes de conferir intensidade a cada atividade que desenvolvemos. Isso, por si só, conferirá significado ao que estamos vivendo. Preste atenção a quem está a sua volta e às oportunidades que este momento propicia.

A quantidade de horas de nosso dia é igual para todos. Sábios são aqueles que atribuem valor a cada hora de seu dia, a cada dia de sua semana, aos meses e anos de sua existência.

Não desperdice seu tempo. Peça a Deus que lhe conceda sabedoria para contar seus dias. Só alguém que seja eterno, consegue colocar na proporção correta cada segundo de nossa existência.

Ser feliz é não boicotar a si mesmo

Ser feliz é mais do que ter momentos alegres ou tranquilos. A verdadeira felicidade envolve auto conhecimento.

Ser feliz é o que todos querem. Nem sempre detectamos com facilidade os reais motivos que nos distanciam de uma vida feliz. Penso que um dos motivos é o fato de que constantemente boicotamos a nós mesmos.

Isso acontece sempre que nossas decisões e escolhas inibem ou subtraem parte de nossa essência. O acúmulo de culpa e de lacunas em nossa personalidade contribuem para que este auto-boicote aconteça.

Certamente não é algo intencional ou consciente. Cada um de nós se relaciona com o ambiente e com as pessoas motivado por memórias do subconsciente. Nosso cérebro armazena essas memórias e elas nos regem sem percebermos.

Seremos sempre  produto de nossa cultura, educação, personalidade, experiências boas e ruins que se acumularam ao longo dos anos. Somos um universo vasto que precisa ser explorado e desvendado.

Até mesmo nós nos surpreendemos com algumas reações e escolhas que brotam de nosso interior, especialmente em momentos de crise. A retomada do foco por vezes é lenta e dolorida, mas ela é necessária e urgente.

Ser feliz

Gosto da maneira como Augusto Cury explora essa ideia no texto abaixo:

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.”

Augusto Cury

Não podemos perder de vista que nosso maior patrimônio é nossa própria vida. Somos responsáveis por cuidá-la e administrá-la com sabedoria. Reavalie hoje como você gasta seu tempo e como percebe-se a si mesmo.

Convide o Espírito Santo a ajudá-lo nesta busca. Ele nos conhece melhor do que nós mesmos. Ele gentilmente nos guiará de volta para nossa essência, para o lugar que foi desenhado por Deus para ocuparmos.

Senhor, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.” Sl. 139. 1-3