Recuse a manipulação. Busque sua identidade.

Ainda que a manipulação seja sutil, ela nos desconfigura; distorcendo quem somos e enfraquecendo nossa identidade.

A manipulação está presente em nossa vida desde a infância. Aprendemos a manipular de forma sutil e instintiva e, igualmente, somos manipulados. Esse é um dos mecanismos presentes em nossa psique, no qual nos apoiamos para conquistar o que queremos. No entanto, toda conquista baseada em manipulação não é legítima. Infelizmente, nascemos originais e morremos como cópias, devido às distorções que acumulamos ao longo da vida. A definição de manipulação no dicionário é: falsificação da realidade, objetivando induzir alguém a pensar de determinada forma. Pode ser entendida também como qualquer manobra que visa, oculta e suspeitadamente, alterar a realidade; falsificando-a. 

Portanto, a manipulação tem sua origem em uma mentira. Por isso, nada que esteja fundamentado em mentira pode ser legítimo. Certamente, muitos não são intencionais ao manipular. Provavelmente estão tão familiarizados com a dinâmica, que são incapazes de identificá-la. Inegavelmente, o primeiro passo para mudança de um mau hábito é reconhecê-lo. Nossa sociedade está contaminada com formas sutis e agressivas de manipulação. Desde os comerciais que pretendem vender felicidade com produtos que oferecem; até o choro, aparentemente inofensivo, da criança que deseja que seu desejo seja atendido. Viramos marionetes nas mãos de uma sociedade consumista e desajustada. Que, por óbvio, também está sendo manipulada. Trata-se de um círculo vicioso que se alterna, onde ora somos vítimas, ora agentes.

A verdade é que a manipulação só cessa quando nos apropriamos de nossa identidade. Ignoramos a gravidade de nos submeter a este jogo, até que saibamos quem somos de fato. Antes disso, absorvemos naturalmente conceitos à respeito do que devemos comer, como nos vestir e assim por diante. À primeira vista tudo parece inofensivo. Mas, com o tempo, as manipulações a que nos sujeitamos, tem poder de aguar nosso ser, deixando-o insosso. Porque, qualquer dose de distorção passivamente aceita, compromete o resultado final. As respostas que buscamos, que ajudem a desvendar nossa essência, não são encontradas nestes ambientes. Precisamos ter coragem de abolir a manipulação de nossas relações, para que possamos respirar oxigênio e amadurecer.

“A parcialidade é a arma de quem não tem argumento e castra a informação com a única intenção de manipular.” Antonio Carlos V O Motta

Buscando a verdade

A verdade só é encontrada por pessoas verdadeiras. Porque a verdade não convive com a mentira de forma passiva. Portanto, a tal meia-verdade; não existe. Já que, qualquer dose de mentira contamina toda a verdade. Quando nos utilizamos de manipulação em nossos relacionamentos, estamos vendendo uma auto imagem, que não nos representa. Ao passo que, quando alguém nos manipula, está extraindo de nós algo, que não escolhemos dar voluntariamente. Por isso, a pessoa em questão, se utiliza deste artifício. Em alguns casos, talvez até fosse esta nossa escolha. Mas, a manipulação contamina a decisão, deixando-nos confusos. A descoberta de que fomos ou estamos sendo manipulados nos frustra. E manipular nos empobrece e insulta a originalidade de nosso semelhante.

Manipulamos e nos deixamos manipular, porque somos fracos. Ao contrário do que alguns pensam, a manipulação não é sinal de força e sim de fraqueza. Uma identidade nublada e confusa torna-se um alvo fácil para as manipulações. E cada episódio de manipulação a que nos submetemos, nos conduz para bem longe de nossa essência. Temos que ter coragem de lidar com quem somos de fato. Dando nome aos nossos medos e não tentando imitar quem quer que seja. Assumir nossa identidade, lutando por ela, é o antídoto mais eficiente contra qualquer forma de manipulação. A maior dádiva que temos é nossa vida. Por isso, temos que ter coragem de vivê-la. Ninguém deve ser autorizado a fazer escolhas em nosso lugar.

Quando nos escondemos atrás de máscaras, ou mendigamos aceitação, estamos distorcendo nossa imagem. Por mais que pareça desafiador para alguns se perceber desta forma; existe beleza dentro de cada um de nós. Encontrar o caminho que nos conduza na direção correta exigirá humildade, porque não conseguiremos sozinhos. Não fomos desenhados para trilhar este caminho de forma solitária. Alguns que buscam este nível de isolamento esbarram na depressão, o que pode, inclusive, levar ao suicídio. No entanto, viver rodeado de pessoas não resolve ou minimiza o desafio. Precisamos nos cercar de pessoas certas, não de qualquer pessoa.

“Não tenha vergonha de tomar partido, tenha vergonha de ser manipulado por aqueles pensam que podem pensar por você.” Guimarães Júnior

Entendendo nossa gênese

Nossa estrutura frágil e complexa tem sua origem no pó, e é precisamente assim que nossa jornada termina. Qualquer um que tenha estado em um velório, sabe que dentro de poucos dias o corpo daquela pessoa querida se desfará, e voltará para o pó. No entanto, não temos só corpo. Possuímos uma alma, que é onde os conflitos se instalam. É através de nossa alma que nos relacionamos com nosso semelhante. Ela é responsável por abrigar nossa “ótica” de nós mesmos e da vida. Assim como o corpo pode adoecer e se ferir, de maneira idêntica, adoece nossa alma. São suas dores, que nos levam a buscar resposta em mecanismos de defesa, dentre eles a manipulação. A manipulação é um subterfúgio e um pretenso esconderijo para o que não gostamos de expor. 

A motivação que está por trás de determinadas escolhas nem sempre é louvável. Quando isso acontece, em algum grau, nos sentimos culpados. O analgésico para a culpa é a manipulação. Já que ela nos permite apresentar uma versão dos fatos capaz de convencer, inclusive, a nós mesmos. Os resultados deste tipo de comportamento danificam tanto o agente como o sujeito que sofre a manipulação. Jamais seremos percebidos de forma correta se nos utilizamos deste tipo de dinâmica. Nada do que conquistamos, especialmente os relacionamentos, serão sólidos. Porque este é um alicerce sobre o qual não conseguiremos construir nada que seja verdadeiro e duradouro.

Os que buscam coerência entre o que falam e vivem, precisarão diagnosticar a presença da manipulação nos seus relacionamentos. A baixa autoestima e os traumas a que fomos expostos, assim como o orgulho, alimentam este monstro. A mentira que nutrimos, ao concordar com este tipo de postura, causa rupturas em nossa personalidade. São estas pequenas rachaduras no muro de nossa alma, que o deixam vulnerável, com risco de desabar sem aviso prévio. O resultado final é que nos perdemos em nós mesmos; impedindo que as pessoas nos conheçam de fato. No entanto, a autenticidade é um atributo que embeleza nossas fragilidades. Podemos não ser talentosos, ricos, famosos, etc. Mas, ao sermos autênticos, cativamos as pessoas. O mundo carece de autenticidade.

“Quem acata opinião de quem só sabe um lado da história não é bem informado, é apenas mais um manipulado.”   Mayke Franz

Assumindo nossa identidade

Além do corpo e da alma, temos um espírito. É precisamente neste lugar adormecido, dentro de cada um de nós, que encontra-se a chave que devemos acionar. Deus nos desenhou com um lugar específico onde Ele pode habitar. Esse é o único lugar de onde Ele poderá nos instruir, ajudando-nos a lidar com os conflitos de nossa alma. No entanto, Ele precisa de um convite e de nossa permissão para assumir Seu espaço em nossa existência. Engana-se quem pensa que Ele invadiria este lugar. Porque isso contraria completamente Seu caráter. Deus não manipula e não se deixa manipular. Por isso, só nos encontra quando é convidado, porque nos criou livres. Sua atuação, a partir deste lugar, é a única fonte confiável de respostas que necessitamos.

Da mesma maneira que nossos sentidos naturais traduzem o que nos rodeia, nossos sentidos espirituais traduzirão Sua orientação. Temos capacidade de ouvir Sua voz, de sentir Sua presença, de vê-lO em nossas circunstâncias. A voz dEle é como a de um pastor que conhece nossa necessidade e nos conduz para pastos verdejantes. Ele não nos dará alimento que não seja saudável. Ele não permitirá que sejamos enganados, e nos alertará para situações em que estejamos enveredando por caminhos tortuosos. A presença dEle em nossas vidas não nos transforma em pessoas infalíveis nem perfeitas. Mas, ela é responsável por nos transformar em pessoas ajustadas, que não se utilizam de subterfúgios. Sem a ajuda dEle não somos suficientemente corajosos para lidar com alguns desafios.

Porque o que nos leva a manipular são nossas inseguranças e medos. Assim como o que nos impulsiona a nos movimentar debaixo de manipulação é a ausência de convicções à respeito de nosso valor. Uma pessoa que se percebe como impotente e frágil, está posicionada como alvo perfeito para um manipulador. No entanto, nenhum de nós é tão frágil que não possa resistir a quem pretensamente deseja escolher por nós. O homem sem Deus busca esconderijos para sua dor. Mas, nenhum deles é eficiente. Todos somos feitos da mesma matéria-prima. Embora sejamos únicos, nossas necessidades básicas são idênticas. Desejamos ser amados, aceitos, respeitados e precisamos de um propósito para acordar todo dia pela manhã. Passar por esta vida sem reconhecer-se é um desperdício. Por isso, ao recusarmos rotular e receber rótulos; estamos nos aproximando de nossa essência.

“Não deixe ninguém te transformar naquilo que você não é. Perder a própria identidade, é perder-se de si mesmo.” Day Anne

O que se esconde atrás da inveja?

Invejar é gastar energia e foco no alvo errado. O que impede nossas conquistas não é o espaço que outro ocupa, e sim o fato de nos percebermos de maneira errada.

Quando a palavra inveja é mencionada, somos unânimes em afirmar que desprezamos o convívio com invejosos. Sem dúvida alguma, a inveja é nociva; destruindo quem a possui e afetando os que dela são alvo. A inveja instala-se de forma sutil em nosso interior quando insegurança, em qualquer nível, está presente. Às vezes pode disfarçar-se de cuidado, preocupação e até mesmo de justiça, mas suas raízes são tóxicas. Existem muitas ocasiões propícias para que ela se manifeste em nosso cotidiano.

O dicionário define inveja como: desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia. Pode ser também um desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem. Inegavelmente é um sentimento fundamentado em profunda inferioridade, que é simplesmente desmascarada diante da conquista de quem nos rodeia. Nem sempre temos facilidade de identificar sua presença, mas certamente a baixa autoestima é sua companheira. Porque a pessoa segura de sua identidade tem menos motivos para invejar. Contudo, ninguém está imune às investidas desta inimiga traiçoeira.

Pois, ela ataca diretamente nossa identidade. Por isso, são as crianças que mais facilmente demonstram traços de sua presença. Já que sua identidade e personalidade estão em fase de formação. Desejar os brinquedos e a atenção recebida pelo colega de escola ou vizinho, é o primeiro teste. É precisamente nesta fase que pais e educadores têm a chance de cortar o mal pela raiz. Pois é seu papel orientá-las, desvinculando o valor da pessoa da coisa desejada. Para alguns pode passar despercebido, ou até ser classificado como inofensivo. Mas, futuramente as consequências surgem, e nem sempre são facilmente revertidas.

“Você não pode ser invejoso e feliz ao mesmo tempo.” Frank Tyger

O adulto é a criança de ontem

Certamente muitos de nós já convivemos com adultos bem sucedidos com traços de inveja em sua personalidade. Nada justificaria algumas atitudes e escolhas que fazem, mas não conseguem evitar, por mais que se esforcem. São pessoas que sentem que precisam provar constantemente para si mesmas e para os outros seu valor. Sentem-se facilmente diminuídas, pois, atrelam à conquista e ao sucesso seu valor de ser humano. Enxergam os outros e a si mesmo através de lentes distorcidas.

Temos valor intrínseco, independente de quantos bens possuímos, do grau de escolaridade que temos ou de nossa aparência. Por isso, mensurar nosso valor através de métricas distorcidas, acrescenta pressão demasiada e nos leva a perseguir alvos irreais. Somos seres únicos, porque o que nos define é um conjunto de circunstâncias e combinações genéticas e sociais que não se pode replicar. Quando o conceito correto for o fundamento de nosso valor, não cairemos mais nas armadilhas da inveja.

Pois, a sensação de inferioridade que nos leva a invejar, é a pior mentira em que acreditamos. Esta premissa falsa é o que mantem as portas de nossa prisão lacradas. Enquanto ela persiste, permanecemos escravos não só da inveja, como de outros tantos sentimentos letais. O principal trunfo da inveja é permanecer encoberta, pois quando a identificamos, ela tem menos chances de sobreviver. Porque ninguém em sã consciência abriga a inveja, sabendo que ela tem potencial de nos destruir.

“Você não é o pior para que possa ter inveja e nem o melhor para que possa ter orgulho.” Heliglécio

Os dois lados da moeda

Diz-se do orgulho que ele é como o mau hálito, só quem tem não sabe que tem. Já que para os demais ele é muito evidente. De maneira idêntica a inveja é percebida facilmente por quem convive conosco. Podemos tentar disfarçar nossa verdadeira motivação ao fazer determinado comentário ou replicar alguma informação maldosa. Mas, o que alimenta este tipo de atitude é um sentimento de inferioridade, que busca compensação quando o outro está pior do que nós.

Uma situação típica onde a inveja se manifesta é no ambiente corporativo, no meio profissional. As injustiças nestes ambientes são cometidas deliberadamente ou por vezes inconscientemente. No entanto, independentemente da motivação, o fato é que as promoções são concedidas, muitas vezes, de forma subjetiva. Por isso, nosso senso de justiça própria é instigado e provocado. O fato nem precisa nos envolver diretamente, pois, quando acontece com algum amigo ou alguém a quem admiramos, rapidamente escolhemos quem é nosso aliado.

Inegavelmente, quando este tipo de situação surge, dois lados opostos se estabelecem. Eles não coexistem, já que estão fundamentados em pontos de vista antagônicos. No entanto, nem sempre esta versão dos fatos representa a realidade. Muitas vezes a verdade pura e simples é que nenhuma das versões é completamente verdadeira ou completamente falsa. Porque os motivos para que alguém seja reconhecido e promovido, ainda que sejam subjetivos, são legítimos. Assim como podem ser legítimas as razões de quem se sente preterido.

“O espírito da inveja pode destruir; nunca construir.” Margaret Thatcher

Fugindo da armadilha

A principal armadilha da inveja é nos fazer arrazoar sobre as justificativas que temos para nos sentir ignorados ou desprezados. Esta linha de pensamento nos leva para bem longe da solução e potencializa a inveja. A mistura fatal é quando temos um fato, que é analisado através de um olhar contaminado por autocomiseração. Qualquer dose de baixa autoestima, somada com autopiedade pode nos paralisar por muito tempo. O que não percebemos é que o principal afetado por este tipo de circunstância somos nós mesmos.

Qualquer pessoa que abriga ressentimento e inveja em seu coração é alguém que vive em algum grau de aprisionamento. Essa pessoa não é livre de fato, e jamais alcançará seus objetivos com esse fardo pesado em seus ombros. Na corrida da vida, os vencedores são aqueles que olham para a linha de chegada e não carregam pesos extras. A velocidade com que perseguimos nosso alvo depende da leveza de nossa bagagem. Os fardos extras se acumulam e subtraem nossa capacidade de superação.

“A inveja é a arte de contar as bênçãos do outro em vez das próprias”. Harold Coffin

Expandido nossa ótica

“O amor olha através de um telescópio; a inveja através de um microscópio.” Josh Billings

O antídoto contra qualquer raiz de inveja, que tente se instalar, é uma identidade sólida. Quando descobrimos que somos únicos e que não temos rivais, a inveja perde força. Porque quando nosso olhar é ajustado e analisamos as circunstâncias dentro de um contexto macro, nenhuma conquista alheia nos ameaça. Ninguém é capaz de roubar nosso lugar ao sol, portanto, é incoerente gastar energia invejando. Seremos sempre o produto de como nos percebemos. 

Por isso, se nossa ótica estiver ajustada, conseguiremos colocar em perspectiva correta tanto o fracasso quanto o sucesso. A vida é como um vapor, os anos voam e escorrem por entre os dedos como a areia. Quanto mais tempo desperdiçamos com comparações e abrigando sentimentos nocivos, mais nos distanciamos do que realmente importa. Os velórios são momentos tristes e doloridos, mas carregados de realidade. Porque, a morte é um fato na vida de todo ser humano, independente de suas conquistas. 

Portanto, todos deveriam levar em consideração que, naquele dia, nada levaremos conosco. Não importa se colecionamos fracassos ou conquistas, elas ficam nesta terra. Obviamente isso não é a principal razão pela qual não devemos invejar, mas certamente é uma realidade. Por mais que gastemos energia perseguindo metas e invejando outros, o que fica de nossa trajetória é a pessoa em quem nos transformamos. O invejoso é aquele que foca no ter e esquece do ser. Por isso, para ele, o saldo será sempre negativo, independentemente do quanto tenha conquistado.