Escolha sua guerra.

A escolha correta da guerra que decidimos travar é decisiva. Nem sempre a guerra urgente é a mais importante. Por isso, a vitória está atrelada à nossa capacidade de discernir onde está nosso foco.

Nossa vida pode bem ser comparada à uma guerra que travamos, que nos posiciona diante de nossos ideais e sonhos. Ou seja, a conquista de novos territórios passa por conflitos e adaptações de origens variadas. Certamente, cada um dos obstáculos pode ser comparado a um inimigo que deve ser derrotado. Esta analogia se presta para análise da importância de escolher, com sabedoria, nossa guerra. Já que, não é incomum que guerras se acumulem, competindo entre si e contribuindo para que distrações esvaziem nossa eficácia. Pois, quanto mais focados estivermos no que importa, tanto maior será a chance real de sermos bem sucedidos.

Portanto, quando estes conflitos se acumulam, interagindo entre si, é a hora exata de escolhermos nossa guerra. Ou seja, elas se apresentam como um emaranhado de fios que se entrelaçam e que exigirão paciência e muita destreza para que o movimento não aumente o nível do conflito. Já que, se puxarmos o fio errado, podemos maximizar o problema ao invés de encontrar uma solução. As questões de ordem emocional, por exemplo, devem ser tratadas com cautela. Estes assuntos podem ter uma origem muito antiga e de difícil identificação. Talvez exijam a ação do tempo, que promoverá o adequado distanciamento do episódio traumático. Só assim podemos remover raízes e resignificar algumas experiências.

Esta é uma guerra difícil de ser adequadamente diagnosticada e ganha. Porque está intimamente ligada a quem somos e aos traumas que carregamos. No entanto, alguns conflitos são meros convites ao amadurecimento. Podem bem ser superados com investimento em pesquisa ou em reciclagem. Contudo, nem sempre o primeiro olhar nos capacita identificar o que nos atrapalha e paralisa. O conhecimento e a prática de uma nova atividade ou de um novo jeito de fazer, pode agregar muito. Não só contribui para que novos horizontes sejam explorados, como amplia nossa visão de mundo. As diversas culturas existentes são a maior prova de que pessoas vivem de formas diferentes. Podemos e devemos aprender com estas diferenças.

Quando abandonar uma guerra

Escolher com sabedoria a guerra que queremos travar significa abandonar aquela que está perdida. De maneira idêntica, consiste em separar adequadamente aquilo que é factível do que não depende de nós. Pois, tudo que depende de nós merece nossa atenção e esforço. Contudo, a ansiedade gerada por aquilo que ultrapassa nossa esfera de ação deve ser desprezada. Já que, pode ser um fator que estará sugando nossa energia e ocupando nossa mente. Esse desperdício de tempo e quem sabe até de dinheiro, pode bem ser catalisado e otimizado na direção do que importa.

Os grandes estrategistas conseguem fazer a leitura do cenário completo para saber em que peça desejam mexer e quais precisarão ser sacrificadas. Assim como no jogo de xadrez, sacrificamos os peões pelo cavalo ou pela rainha. É precisamente essa noção daquilo que podemos e devemos sacrificar que define nosso avanço. De maneira idêntica, temos que avaliar cautelosamente o custo benefício de nossas ações. Muitos estão estagnados em algum ponto da jornada, porque temem as perdas. Inegavelmente ninguém gosta de perder, seja lá o que for. Mas, algumas perdas abrem espaço para que algo novo ocupe seu lugar.

A maioria dos objetos e coisas que adquirimos, possuem uma vida útil. Esta vida útil pode ser maior ou menor, dependendo do objeto. Assim são, também, nossas circunstâncias. A vida é feita de muitos momentos passageiros. Alguns ficam eternizados em nossa lembrança porque registram fatos agradáveis e que nos marcaram e transformaram. Tais lembranças possuem poder de nos motivar e inspirar. Contudo, alguns destes registros foram incrustados em nossa mente pela dor ou pelo mal que nos causaram. São precisamente estas marcas que temos que sacrificar, aniquilando-as, quando desejamos prosseguir.

A diferença de eficiência e eficácia

O simples fato de conseguir separar o que é de ordem emocional daquilo que exige uma solução pontual nos capacita a ser eficazes, não apenas eficientes. Ser eficiente é produzir o efeito esperado. Ao passo que ser eficaz é possuir uma virtude de tornar efetivo ou real. A eficiência é o ato de “fazer certo alguma coisa”, enquanto a eficácia consiste em “fazer a coisa certa”. Ou seja, a eficiência seria o comportamento de alguém que age com perfeição na realização de um determinado trabalho. Já a eficácia não se limita apenas ao cumprimento de uma tarefa, mas, apresenta a resolução total da situação.

Este conceito da administração, pode bem ser aplicado quando conseguimos nos situar em relação aos conflitos que enfrentamos. Temos que avaliar com honestidade e isenção o que pretendemos superar. Sabendo que podemos esbarrar em aspectos que não dependem de nós. Estes, exigirão não só interação como também boa articulação com os atores envolvidos. Já que, nossa habilidade política será testada. Não se trata, no entanto, da política que explora ou converte em benefício próprio algo que desejamos. Mas, do aspecto politizado das relações humanas que é o que nos permite lidar com diferenças de maneira civilizada e democrática, preferencialmente.

A arte da guerra

A arte da guerra, portanto, consiste em uma junção de vários fatores. Podemos destacar como chaves o equilíbrio emocional, o distanciamento que nos permite olhar a situação em perspectiva correta e a busca da eficácia. Nenhum destes aspectos é facilmente adquirido e talvez percamos muitas guerras até que sejamos suficientemente treinados na arte de guerrear. Uma guerra não assume conotação negativa quando os inimigos são o medo, a apatia, a procrastinação, a vergonha e outros tantos inimigos que precisamos derrotar. Nossa guerra não é contra alguém, ela se trava primordialmente dentro de nós. É uma luta interna que se materializa na capacidade de escolher e decidir de forma sábia.

Nenhum de nós levanta pela manhã querendo confronto de qualquer espécie. Ele acontece naturalmente à medida que começamos a nos posicionar diante daquilo que nos limita. Mesmo quando esbarramos em alguma pessoa que personifica um inimigo, nosso objetivo não deve ser o de aniquilar o oponente, e sim, de aprender como lidar com ele. A ira acumulada nos cega e impede que avancemos. Por isso, não é sábio abrigar ira e ressentimento. Estas emoções possuem poder muito destrutivo e afetam muito mais aquele que as hospeda do que quem é alvo delas. Enquanto vivemos, tropeçamos em inimigos que precisam ser derrotados.

“Só os mortos conhecem o fim da guerra.” Douglas MacArthur

As crônicas de Nárnia

C S Lewis, autor de Crônicas de Nárnia, escreveu vários livros e promoveu a reflexão de aspectos fundamentais de nossa existência. Vem dele a inspiração que transformou em uma fábula encantadora a trajetória de crianças com um espírito aventureiro. A narrativa não se presta apenas para entreter os amantes de histórias infantis, mas a todo aquele que tem curiosidade de descobrir a essência do que vive. O bem e o mal e o certo e o errado nos rodeiam. Não temos opção de ignorar sua existência ou nos eximir de fazer escolhas. A guerra é travada, diariamente, em nossa esfera de ação e dentro de nós. Temos que aprender a vencê-la. Disto depende nossa sobrevivência.

“Nem tudo está perdido como parece… sabe, coisas extraordinárias só acontecem a pessoas extraordinárias, vai ver é um sinal que você tem um destino extraordinário, algum destino maior do que você pode ter imaginado.”

“Acho que, se a gente pudesse correr sem nunca se cansar, nunca mais iria querer parar. Mas às vezes existem razões muito especiais para se parar.”

“Sabemos o que acontece quando uma pessoa tem esperança de obter uma coisa desesperadamente desejada; parece bom demais para ser verdade.” C S Lewis – As Crônicas de Nárnia

A vergonha é assim

A vergonha é um inimigo dissimulado e poderoso. Ela nos mutila e pode nos paralisar, impedindo que lutemos por nossos sonhos.

“É assim a vergonha da mulher cujas mãos ocultam o sorriso, pois os dentes são ruins, não o grandioso ódio a si mesma que leva alguns a lâminas ou comprimidos ou a um mergulho do alto de belas pontes por mais trágico que seja.

É assim a vergonha de ser ver, de ter vergonha de onde você mora e daquilo que o contracheque de seu pai permite que se coma e se vista.

É assim a vergonha dos gordos e dos carecas, o insuportável rubor da acne, a vergonha de não ter dinheiro para a refeição e de fingir que não se tem fome.

É assim a vergonha da doença oculta – doenças caras demais para se arcar, que oferecem apenas uma passagem gélida de ida.

É assim a vergonha de ter vergonha, o nojo diante do vinho barato que foi bebido, da lassitude que faz com que o lixo se acumule, a vergonha que lhe diz que existe outra forma de vida, mas que você é tola demais para encontrá-la.

Assim é a vergonha real, a maldita vergonha, a vergonha chorosa, a vergonha criminosa, a vergonha de saber que palavras como glória não fazem parte do seu vocabulário, embora entulhem as bíblias que você ainda está pagando.

Assim é a vergonha de não saber ler e de fingir que sabe.

Assim é a vergonha que provoca medo de sair de casa, a vergonha dos cupons de desconto no supermercado, quando o vendedor demonstra impaciência enquanto busca o troco.

Assim é a vergonha da roupa de baixo suja, a vergonha de fingir que seu pai trabalha num escritório como Deus pretendia para todos os homens.

Assim é a vergonha de pedir aos amigos que a deixem diante de uma bela casa do bairro e de esperar nas sombras até que partam antes de caminhar até a desolação de seu casebre.

Assim é a vergonha por trás da mania de possuir coisas, a vergonha de não ter calefação no inverno, a vergonha de comer ração para gatos, a vergonha profana de sonhar com uma casa e um carro novos e a vergonha de saber como são mesquinhos tais sonhos.”

Vern Rutsala

Todos sentem vergonha

Embora a vergonha seja um sentimento universal, ela manifesta-se de formas variadas e raramente é catalogada como tal. Ou seja, gostamos de mascarar nossas reações e medos, classificando-os com nomes mais atrativos. Com isso, contribuímos para o anonimato da vergonha, empoderando-a. Ela se beneficia tanto do anonimato, quanto da crença que só nós lidamos com este desafio. Nada poderia estar mais longe da verdade do que esta afirmação.

Porque a vergonha é algo intrínseco em nossa natureza. Por isso, ela pode ser a mola propulsora que nos inquieta e nos faz buscar superação. Mas, pode também, transformar-se em uma emoção paralisante. Pois o constrangimento que ela promove, especialmente se está oculta, só pode ser eliminado quando confrontado. Já que, sua camuflagem preferida é a mentira de que pode ser eliminada com conquistas.

Pois, uma vitória, por mais legítima que seja, quando alicerçada na vergonha, produz orgulho, altivez. Porque, é inevitável que alguém que prospere em suas iniciativas, tentando livrar-se de algum estigma, pense de si mesmo além do que convém. Inegavelmente, toda distorção que o embaraço produz não pode ser corrigida com uma conquista. O vexame associado a qualquer acontecimento passado ou presente, não é acobertado facilmente. Podemos fazer tentativas honestas de maquiá-lo com episódios de superação, mas eles não são suficientes para corrigir estas distorções.

Envergonhando a vergonha

A arma eficiente contra qualquer vestígio deixado pela vergonha é a vulnerabilidade. Pois, quando expomos a maneira como nos vemos ou os rótulos que recebemos e que nos mutilam, desestruturamos o principal alicerce da vergonha. Isto é, não existe estratégia mais apropriada para desmascará-la do que a exposição do que ela insinua. Muitas pessoas cometem verdadeiras atrocidades tentando livrar-se da dor emocional causada pela vergonha. Elas se auto sabotam e assumem identidades que não correspondem a quem são de fato. Um dos piores danos causados por este tipo de postura, é que ela limita e anula nosso potencial.

Porque todo ser humano possui capacidade de desenvolver-se, crescer e conquistar objetivos. Sem uma perspectiva de vida, nosso dia-a-dia fica maçante e insuportável. Certamente a vergonha não é a única vilã, mas ela acoberta nossos temores e a preocupação excessiva que temos com nossa imagem e com a opinião do outro. Pois, o fato de não reconhecermos nosso potencial e capacidade de superação fortalece a apatia. De maneira idêntica potencializa a sensação de impotência diante de fatos corriqueiros.

Portanto, desmascarar a vergonha é decidir enfrentá-la, expondo as correntes que nos mantêm cativos por anos. Muitos não experimentam nenhum nível de liberdade, pois são reféns de traumas e memórias que foram construídas sobre um alicerce mentiroso. Por isso, quando decidimos assumir posição e o protagonismo de nossa vida, um dos inimigos que precisamos derrotar e denunciar são estes segredos que a vergonha nos fez guardar a sete chaves.