O palco da vida.

Assumir o protagonismo de nossa história no palco da vida, é saber ser aplaudido e vaiado sem desviar o olhar do que é importante. Nascemos com um propósito e buscamos aprovação de um único par de olhos.

Imaginar-se em um palco, atuando como protagonista de uma peça, pode ser uma boa alegoria da vida real. Contudo, a grande diferença é que o ator de uma peça teatral, representa um papel, cujo roteiro não foi escrito por ele. Na vida, somos os roteiristas e temos liberdade de mudar os rumos dos acontecimentos. Outra importante diferença é que, embora tenhamos coadjuvantes atuando conosco, eles são também protagonistas de suas próprias peças. Os papéis se cruzam e estabelecem as nuances que, ao longo dos dias, vão dando forma à trama. Podemos misturar gêneros e estilos, já que o drama, comédia e a aventura coabitam harmoniosamente em uma mesma cena. Assim como o suspense com a ficção e até o romance.

“Uma cena que muitas vezes vem à minha mente, dormindo e acordado; é a de que estou de pé nos bastidores de um teatro, esperando por minha deixa para entrar no palco. Enquanto estou ali, vejo a peça prosseguindo, e de repente me ocorre que as falas que decorei não são daquela peça; mas, pertencem a uma bem diferente. O pânico toma conta de mim. Questiono-me freneticamente sobre o que devo fazer.

Então recebo minha deixa. Tropeçando, caindo sobre o cenário desconhecido, vou para o palco e procuro orientação do operador, cuja cabeça vejo saindo através do piso. Infelizmente, ele apenas sinaliza impotente e percebo, é claro, que o roteiro dele é diferente do meu. Começo a recitar minhas falas, mas elas são incompreensíveis para os outros atores e abomináveis para o público, que começam a sibilar e gritar: “Saia do palco!”, “Deixe a peça continuar!”, “Você está interrompendo!” Malcolm Muggeridge

Assumindo a direção

Malcolm Muggeridge foi um jornalista e brilhante escritor, que pensava sobre a vida e propôs inúmeras reflexões. Dentre elas a de imaginar-se em um palco, recitando falas de uma peça da qual não fazemos parte. O extrato do texto, citado acima, revela parte da agonia de perceber-se atuando em algo sem conexão alguma. Talvez seja esse nosso grande desafio, o de conectar-se adequadamente com os atores que fazem parte de nossa história. Igualmente desafiador, é subir no palco objetivando extrair aplausos de uma platéia que não está interessada minimamente no que temos a dizer. Infelizmente é como se sentem algumas pessoas que embarcaram em um roteiro que não lhes representa.

Ou seja, estão literalmente representando papéis em peças erradas, com roteiros escritos por pessoas que nunca admitirão seu protagonismo. Nossa peça é uma biografia, ela é única, pessoal e só termina quando nossa missão aqui acaba. Nas biografias não é permitido escolher o final, a não ser que sejam redigidas por alguém que a transforme em ficção; depois do último ato. No entanto, podemos direcionar as escolhas para que preferencialmente seja um final feliz. Os imprevistos exigirão adaptações, mudanças de roteiro, mas tudo imprimirá beleza, despertando curiosidade de quem atentamente nos assiste. A platéia pode ser amistosa, como poderá oferecer algum antagonismo. A vaia e o aplauso se misturam e podem nos confundir. O antídoto contra estes vilões chamados fama e fracasso é tratá-los com a mesma indiferença. Já que são dois lados de uma mesma moeda. Assim como é decisivo não se deixar influenciar por nenhum deles a ponto de perder a noção de nossa fragilidade e insignificância.

Interagindo com outros atores

Ao subirmos no palco da vida, outros atores esperam por nós. Eles chegaram antes, sua peça já está em andamento e fomos gentilmente inseridos nela. Há os que serão agregados ao roteiro e à trama no futuro. A arte de atuar, sem ultrapassar os limites de nosso protagonismo é o que separa os grandes autores e atores dos medíocres. Já que somos autores e atores de nossa história, temos que ser generosos tanto com o primeiro grupo, quanto com o segundo. Com os que nos antecedem temos que ter inteligência de aprender observando-os e imitando o que agregou conquista à sua carreira. Já com os que nos sucedem temos o dever moral e quem sabe até obrigação de estender-lhes a mão, oferecendo empatia diante dos tropeços.

É interessante perceber como uma mesma cena pode ser interpretada com doses de alegria ou tristeza. O nível de otimismo e pessimismo presente nas escolhas também fica evidente, mesmo aos olhos menos atentos. Porque nossa ótica do que nos acontece passa por filtros internos que foram programados muito antes de termos consciência de que fazíamos escolhas. Isto não significa dizer que não somos responsáveis por reprogramá-los ou substituí-los por outros que nos ajudem a obter uma visão mais exata do que está proposto. Esta tarefa, além de ser importante, não pode ser terceirizada. Já que esta análise honesta fornecerá alguns padrões que podem bem nos catapultar para o topo de nossos mais ousados sonhos.

Visão de longo alcance

O sonhador é aquele que sempre traça metas maiores do que ele. Sabe instintivamente que sem sonhos perecemos. Porém, a arte de transformar sonhos em realidade é dominada por aqueles com capacidade de pavimentar o caminho com projetos menores. Ou seja, dos que entendem seu papel e o desempenham com perseverança e porções abundantes de diligência. Contudo, o que realmente imprime significado a cada um destes objetivos é saber que quando as cortinas se fecharem definitivamente, a verdadeira história começa. Porque, esta vivida e protagonizada aqui no palco terreno, é um grande treinamento e o alicerce sobre o qual o motivo de nossa existência desvenda-se.

Não seria lógico nem coerente imaginar uma peça que terminasse no auge das descobertas. Pois, quanto mais próximos estamos do final, mais sabedoria acumulamos; exercendo, consequentemente, escolhas mais assertivas. O fracasso também assume proporções diferentes da que tinha no início da jornada. A vitalidade pode estar diminuída e o físico nos prega peças, contudo o que falta no corpo, sobra na alma. E essa é eterna, como são todas as sementes que plantamos e que continuarão germinando pela eternidade. A eternidade parece combinar com a vida finita que se apaga lentamente como uma vela, que para brilhar, é consumida.

“Todo acontecimento, grande ou pequeno, é uma parábola por meio da qual Deus conversa conosco. E a arte da vida é entender a mensagem.” Malcolm Muggeridge

O bis é a melhor parte

Se a gente soubesse de algumas coisas, talvez tivéssemos começado pelo bis. Sim por aquela parte que repetimos e que é aplaudida de pé no final de cada grande espetáculo. Mas o bis não existe sem o início e sem o meio, ele só tem sentido mesmo depois que a peça encerra. Porque, o aplauso que mais importa é o dAquele que idealizou toda trama. Não só a nossa, mas a do outro; a de todos. Aquele que criou o palco, este grande universo onde atuamos e deixamos nossa marca. Pequena, é verdade, mas ainda assim uma marca. Ele sabia o que estava fazendo desde o princípio. Sabia que precisávamos nascer livres, fazendo escolhas que poderiam nos levar para perto dEle ou nos afastar definitivamente dEle.

Contudo, não deixa de nos amar quando escolhemos nos distanciar. Porque a essência do amor exige que seja livre. Pois, podemos escolher ou não contar com Sua ajuda. Certamente é desejo Seu ser incluído em nossa história. Mas somos nós que determinamos qual será Seu protagonismo no que vivemos. Ele que soprou nas narinas do primeiro ser criado, recolherá o sopro em algum momento. Poderemos ser surpreendidos ao ser recebidos por Ele, recebendo o único aplauso e aprovação que realmente importam. O palco terreno da vida é pequeno e pode ser cruel. Inegavelmente, é nele que aprendemos as lições que nos posicionarão diante dAquele que nos formou no ventre e que criou-nos com um propósito. O bis acontece diante de um único par de olhos. É Sua aprovação e aplauso que buscamos, porque o resto é o resto.

“A primeira coisa que me lembro do mundo – e rezo para que seja a última – é que eu era um estranho nele. O único desastre final que pode acontecer conosco, eu percebi, é nos sentirmos em casa aqui na terra.” Malcolm Muggeridge

Sinais – A importância de codifica-los corretamente.

Os sinais emitidos e recebidos cumprem um propósito. A compreensão deles, depende da familiaridade que temos com os códigos usados.

Sinais existem para orientar-nos, nas diversas áreas da vida. Eles são usados no trânsito, nos ambientes públicos e privados. Os limites de velocidade, as placas com nomes de rua, as demarcações das cidades; cada código tem um papel específico. Originalmente um sinal é criado para facilitar nossa localização e promover segurança. Contudo, quando os sinais não estão claros ou não são adequados, corremos risco de sofrer algum prejuízo. No entanto, decodificar corretamente um sinal não exige apenas que ele seja claro. Mas, também que conheçamos seu significado. Uma mensagem é bem transmitida quando o emissor e o receptor usam códigos familiares.

A vida emite muitos sinais ao longo de nossa jornada. Saber interpretá-los é decisivo para que nossa integridade seja preservada. Nosso corpo é um grande emissor de sinais. Quando ignoramos o cansaço, a dor ou algum sintoma persistente, corremos risco de desenvolver alguma patologia mais grave. Igualmente, nossa mente sinaliza constantemente aspectos de nossa alma que precisam ser corretamente codificados. Cada um de nós possui capacidade de aprender a lidar com os sinais emitidos pelo corpo e pela alma. Este autoconhecimento é decisivo quando se pretende ser saudável e viver com intensidade o que a vida nos oferece.

No entanto, ignorar sinais não soluciona o problema; agrava-o. No trânsito, quando infringimos alguma regra, somos multados. Mas, quando a infração é cometida, sem ser percebida pelo agente de trânsito, a multa não é aplicada. Contudo, isso não diminui a gravidade do ato. Colocamos nossa vida e dos demais em risco quando indiscriminadamente desobedecemos normas. As multas aplicadas nas infrações cometidas contra nosso corpo ou alma, nem sempre são aplicadas imediatamente. Porém, isso não anula os efeitos que se acumulam ao longo dos anos. A tendência de ignorar os sinais gera prejuízos crescentes e por vezes irreversíveis.

“Às vezes os problemas são sinais de que chegou a hora do guerreiro iniciar uma nova batalha.” Roberto Shinyashiki

Decifrando códigos

Existem sinais universais que, como o próprio nome já diz, servem como base para todos que deles se utilizam. As letras do alfabeto são um exemplo disso. Pois, embora alguns idiomas possuam um alfabeto próprio, eles são a minoria. Mas, mesmo quando utilizamos sinais universais, a composição deles pode não ser conhecida por todos. Ou seja, as mesmas letras podem formar palavras em idiomas que desconhecemos. De maneira idêntica, nosso próprio idioma possui palavras cujo significado ignoramos. A comunicação fica comprometida quando os sinais utilizados não são conhecidos por quem os recebe. Por isso, a leitura e interpretação correta de um sinal depende do conhecimento que emissor e receptor possuem da linguagem utilizada.

Por isso, não é incomum nossa alma e corpo emitirem sinais que não são codificados corretamente por nós. Por vezes nem quem está a nossa volta consegue nos ajudar a desvendar o significado do sinal que recebemos. Os profissionais da saúde física e mental esforçam-se no estudo de determinadas doenças classificadas como incuráveis e psicossomáticas. Contudo, a complexidade de nosso organismo e mente perpetua a tarefa. Pois, mesmo as descobertas mais recentes não esgotam o campo de pesquisa. Sempre há algo novo a ser considerado e avaliado.

Quando agregamos a isso o fato de que somos únicos, aumenta ainda mais a complexidade de decodificar a origem de algumas reações e dos sinais que recebemos. Além dos sinais emitidos por nosso corpo e mente, existem os sinais externos. Ou seja, as circunstâncias e as reações externas de quem convive conosco sinalizam importantes mensagens. Nossos cinco sentidos captam mensagens a todo instante. Somos influenciados pela temperatura do ambiente em que estamos, pela fome que sentimos ou pela noite mal dormida. Pois, cada um destes fatores isolados ou somados contribuem para que nossas reações sejam positivas ou negativas.

“Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.” Martha Medeiros

O decodificador universal

Seria bom se o mercado tivesse desenvolvido um decodificador universal. No entanto, o produto não está à venda, pelo simples fato de que não pode ser fabricado. Ainda que tal produto não exista, podemos acessar o Criador que conhece o objeto criado. Nossa relação com Deus afeta nossa capacidade de decodificar alguns sinais que recebemos ou emitimos. Ou seja, potencializa nossa capacidade de fazer escolhas sábias que não infrinjam regras e não comprometam nossa integridade e dos demais. Por isso, cada um precisa transitar por um caminho único de busca e aprendizado. Sem dúvida alguma, não fomos criados por acaso, e não existe sinal sem significado.

Nosso olhar precisa ser treinado, assim como nossos ouvidos e cada um dos demais sentidos naturais. Mas, não fomos dotados apenas de sentidos naturais, temos sentidos espirituais. São eles os responsáveis por decodificarem a linguagem do espírito. Por isso, nossa relação com Deus é imperativa. Porque o mesmo arquiteto que projetou nosso corpo e mente, criou um lugar dentro de nós onde Ele pode habitar. É deste lugar que Ele nos ajuda a decodificar as mensagens que nosso corpo e nossa alma emitem. Inegavelmente estas são as mensagens mais difíceis de interpretar. 

Mas, não são as únicas que nos afetam. Quando escolhemos dar espaço para que o relacionamento com nosso Criador se desenvolva, tanto maior será nossa capacidade de interpretar nossas reações e de quem nos cerca. O desenho que Ele estabeleceu, quando nos criou, previa este relacionamento. Portanto, qualquer um que tente desvendar os sinais que recebe e emite sozinho, tem mais dificuldade de vencer alguns desafios. O fato de reconhecermos nossa necessidade de interação com um Pai que nos ama e nos criou, alivia tensões. A decisão é individual e jamais será imposta. Mas, temos diante de nós a possibilidade de acessar uma fonte inesgotável de respostas.

“Se o escultor despreza a argila, terá de modelar o vento. Se o teu amor despreza os sinais do amor a pretexto de atingir a essência, o teu amor não passa de palavreado.” Antoine de Saint-Exupéry

Usufruindo do relacionamento com o Criador

Inegavelmente, a decisão de permitir que o Criador faça parte de nossa vida não isenta-nos de conflitos. Mas, certamente, abrevia e ameniza os impactos deles. Compreender o funcionamento de nossos mecanismos internos e externos através do olhar de quem nos criou é a chave mestra, que abre portas. Pois, nunca foi desejo de Deus que vivêssemos isolados de um relacionamento com Ele. Quando Jesus morreu na cruz, nos incluiu em uma família de filhos. A relação havia sido rompida, quando o primeiro homem criado escolheu a independência.

Por isso, a cruz foi necessária. Ela nos devolveu este acesso. Contudo, o acesso não acontece de forma automática. Temos que optar por ele, permitindo que Deus se comunique conosco. Contrariando algumas opiniões, cada um de nós possui capacidade de ouvir Deus e de se comunicar com Ele. A linguagem neste caso precisa ser aprendida. Contudo, ela é eficiente e preenche o vazio que somente Ele pode preencher. Mais importante que reconhecer a existência de um Criador é o fato de nos relacionarmos com Ele. O resultado desta escolha e posicionamento, é a aquisição de um olhar e de uma percepção que transcendem o mundo visível.

Alguns chamam isso de intuição. Mas, no fundo o ser humano só é completo quando codifica corretamente os sinais enviados pelo Criador. Nossa vida tem sentido e cada um nasceu para cumprir um propósito. Nenhum ser humano nascido está neste mundo por acaso. O verdadeiro sentido que damos a nossa existência só pode ser estabelecido quando esta parceria está funcionando. Por isso, conhecer os sinais emitidos e ser capaz de emiti-los é um desafio que nos acompanhará sempre. Temos que ter humildade de admitir que não conseguimos desvendá-los sozinhos.

“É o olhar característico do amor que torna a pessoa sensível e atenta para perceber os sinais e demonstrações de afeto, por mais pequenos que sejam ou que aparentemente assim o sejam, que fazem nascer no coração um fundamental sentido de reconhecimento em relação a vida, aos outros, a Deus.” Santo Agostinho

A profundidade dos oceanos esconde beleza.

As águas profundas dos oceanos estão carregadas de beleza e diversidade. Esta realidade, também se aplica à nossa vida.

Sabemos muito pouco a respeito dos oceanos. Especialmente no que diz respeito às criaturas que lá vivem. Pois, a alta pressão exercida pela água e a ausência de oxigênio, inviabilizam a permanência humana em regiões profundas. O ser humano em terra sofre pressão de uma atmosfera (um quilo por centímetro quadrado do corpo). No entanto, debaixo d’água, o mundo fica mais pesado. Porque, a cada dez metros na direção do fundo do mar, a pressão aumenta em uma atmosfera. As cavidades de nosso corpo recheadas de ar, pulmões e ouvidos, são apertadas pelas águas. Por isso, os danos em alguns casos podem ser irreversíveis.

O Monte Everest é o ponto mais alto do mundo, com impressionantes 8.848 metros de altitude. E a Fossa das Marianas é o local mais profundo do oceano que o homem foi capaz de explorar, com 11.034 metros de profundidade. O que se sabe, no entanto, é suficiente para afirmar que as criaturas que habitam águas profundas, são dotadas de características únicas. Estudá-las, desvendando seus hábitos, é como entrar em um mundo paralelo. Cada uma delas, desde a mais minúscula até a gigantesca, são espécimes que possuem características indispensáveis, que lhes possibilitam sobreviver neste ambiente. A diversidade de formas e tamanhos é impressionante, assim como seu colorido ou a ausência dele.

Este maravilhoso festival de formatos possui beleza. Os oceanos são lugares espetaculares não só para os estudiosos, mas para todos que apreciam diversidade. Tudo possui uma razão de ser, uma função, um porquê. Estes lugares escondidos da vista humana são carregados de mistério e desafiam as mentes mais brilhantes. Certamente, as profundezas dos oceanos não são os únicos locais inexplorados de nosso planeta. Contudo, são um bom parâmetro para estabelecermos uma relação com nossa limitação. A imensidão das águas, observadas da superfície ou em sua profundidade, denunciam a existência de um Criador. Até os mais céticos são capazes de admirar-se diante da maestria com que cada detalhe foi orquestrado.

A vida é como o oceano. É preciso mergulhar de cabeça para sentir a sua profundidade.” George Jung

Valorizando a grandeza que nos rodeia

Nosso pequeno planeta é cercado de beleza e mistério. O olhar mais atento captura estas nuances com facilidade. O problema é que andamos distraídos ao extremo. Sabemos que o ritmo frenético de nossa rotina nos rouba constantemente a capacidade de contemplação. Raramente gastamos tempo, ou temos oportunidade de interagir adequadamente com o que nos cerca. O barulho de nossas urgências é ensurdecedor e sufoca as outras vozes, que também estão falando. Temos capacidade de aprender com o que vemos e ouvimos, assim como com o que praticamos. No entanto, quando nossos sentidos estão embotados, necessitamos de doses maciças de uma espécie de desintoxicante.

Nem sempre as tão esperadas férias são usadas com o tipo de lazer que nos desintoxica adequadamente. E sejamos honestos, nenhum período de trinta dias de descanso é suficiente para  reordenar o que se acumulou por meses. Por isso, o ideal seria separar tempo intencional ao longo de nossos dias, semanas e meses, para uma reciclagem. O sábado existe em nossa semana com esta função. No entanto, geralmente não é observado como deveria. Este tipo de sugestão não é uma apologia ao ócio. É o oposto disto, já que visa extrair o melhor de cada um de nós. É comum executarmos tarefas de forma mecânica e facilmente incorporá-las a nossa rotina. Uma vez estabelecidas, elas podem nos sufocar.

Assim como a pressão exercida pelas águas inviabiliza a permanência humana em determinados locais, não fomos desenhados para sofrer pressão constante. Esta pressão se intensifica sempre que ultrapassamos limites saudáveis de convívio e de trabalho. À semelhança das criaturas que vivem nas profundezas, o ser humano possui características que o conectam, adequadamente, ao seu ambiente. Precisamos doses adequadas de descanso, de lazer, de aceitação, de propósito, de amor, etc. A ausência destes ingredientes gera exposição de nosso frágil ser, a pressões superiores às existentes nas águas profundas dos oceanos. Talvez alguns de nossos órgãos já tenham sido danificados por conta desta exposição.

“Superfícies apenas mascaram a verdadeira profundidade. Somos o que não vemos.”  Tumblr

Diagnosticando a questão

A natureza toda funciona em harmonia e só perde sua capacidade de se reciclar quando o homem interfere em seus ciclos. Infelizmente não aprendemos ainda como nos relacionar corretamente com o que nos cerca. Não são apenas os oceanos que nós poluímos, mas nossas próprias vidas, com a quantidade excessiva de lixo absorvido. Colecionamos conceitos a respeito de nós mesmos que contaminam nossas entranhas. Eles possuem sua gênese nos primórdios de nossa infância. Adiamos lidar com a origem de alguns deles, imaginando erroneamente que se decomporão. No entanto, esta postura frequentemente agrava os efeitos maléficos que causam em nossa abordagem da vida.

Comprovadamente, um diagnóstico precoce aumenta consideravelmente as chances de cura, em relação àquele recebido tardiamente. Por isso, quanto mais cedo buscarmos compreender as dinâmicas que elegemos para fundamentar nossas escolhas, tanto melhor. O melhor psiquiatra e médico é aquele que nos desenhou, o Deus Criador. Ele fez os peixes e cada uma das criaturas que povoam os oceanos, com características únicas que permiti-lhes sobreviver. De maneira idêntica, fomos desenhados cuidadosa e detalhadamente para transpor os desafios que enfrentamos. Pois, em alguma medida, cada um de nós sente-se desafiado por questões existenciais.

Portanto, a mesma beleza que encontramos na profundidade dos oceanos, existe nas profundezas de nosso ser. É lá que se instalam nossos conflitos e é de lá, também, que exalamos perfume. O grande desafio que temos é lidar com a pressão exercida quando tentamos acessar estes lugares. As mãos do mais habilidoso cirurgião não são capazes de extrair de dentro de nós o que nos perturba. Contudo, quando recorremos a única fonte confiável de resposta, que é o Deus Criador, somos desvendados. Mais do que um diagnóstico correto, Ele tem capacidade de nos curar e ajustar.

“Ninguém experimenta a profundidade do rio com os dois pés.”  Provérbio Africano

Perdendo a terra de vista

“O homem só pode descobrir novos oceanos se tiver coragem de perder a terra de vista.”  André Gide

O primeiro passo para aprofundar nossa análise a respeito do que nos limita, é a disposição de arriscar. A resolução de sair de nossa zona de conforto, desbravando territórios não conquistados, é determinante. Algumas descobertas só são feitas quando nos dispomos a lidar com o que permanece escondido. Pois, alguns aspectos de quem somos não estão expostos. A superfície poderá denunciar o que a profundidade esconde, contudo, nem sempre temos consciência de tudo que influencia nossa dinâmica. Porque, cada um de nós é um universo, e precisa ser compreendido como tal.

As camadas que se formam ao redor de algumas feridas e desapontamentos, podem muito bem estar retardando sua cura. Portanto, à medida que são removidas, oferecem a possibilidade de uma análise mais realista. Nossos medos nos aprisionam e cada um deles é um vilão que precisamos derrotar. Ninguém fará isso em nosso lugar. Mas, temos a opção de contar com a ajuda do Espírito Santo. Nas profundezas de nosso ser existe um espírito. Por isso, somente o Espírito Santo é capaz de acessar estes lugares. Ele é Deus na terra hoje e Seu principal papel é revelar-nos o coração de Deus a nosso respeito.

Ele carrega respostas que aliviam o fardo pesado que carregamos, e também o oxigênio que necessitamos para acessar a profundidade de nosso ser. Quando insistimos em acessar estes lugares sozinhos, nos falta o ar e a pressão nos desmonta. Ele conhece a capacidade individual que possuímos, e qual a velocidade adequada para avançar. Contar com Sua ajuda não é privilégio de alguns. Ele está disponível para todo aquele que se percebe como finito e impotente. Ele é cavalheiro, portanto, espera por um convite nosso para nos conduzir em um mergulho profundo pelo oceano de nossa existência.

Montando o quebra-cabeças da vida.

Somos peças de um gigantesco quebra-cabeças. Por isso, absolutamente tudo que vivemos molda-nos; para que o encaixe seja perfeito.

Nem todos gostam de quebra-cabeças. Pois, são jogos que exigem paciência e que, em geral, nos desafiam. Por vezes, representam um grande enigma e, certamente, teremos mais facilidade de montá-los quando conhecemos o desenho final. Porque, qualquer um que tente montar algo que desconhece, fará um número maior de tentativas e corre o risco de desistir no meio do processo. Nossa existência poderia muito bem ser comparada a um gigantesco quebra-cabeças que somos desafiados a montar. Há os que se realizam ao montá-los, sentindo-se estimulados à decifrá-los.

Pois, existem pessoas que divertem-se enquanto encaixam as peças e contemplam a imagem sendo formada. Mas, mesmo para pessoas que abordam a vida como uma grande aventura, existem momentos desafiadores. Inegavelmente existem “peças” que podem ter sido encaixadas no lugar errado, ou que foram perdidas e precisam ser resgatadas. Na vida de todos nós existem vales, que são as formações entre duas montanhas. Portanto, os picos mais altos de nossas conquistas, são precedidos ou antecedidos por vales. Porque ninguém permanece de forma definitiva em posição de destaque. Todos experimentamos, em alguma medida, fracassos e decepções.

No entanto, montar este quebra-cabeças é extremamente desafiador para os mais resistentes, que não admitem a ideia de que devem ao menos tentar. Para estes o desenho talvez esteja indefinido demais, ou quem sabe falta-lhes determinação ou paciência. Seja lá como for, o jogo inclui muitas peças e exigirá interação. A ausência de algumas peças, que não estão conosco, podem também aumentar a dificuldade de se chegar ao final. Por isso, é indicado que não se deixe de montar o quebra-cabeças, pela ausência de alguma peça. Pois, definitivamente, este é um jogo que iniciamos sem ter todas as peças. Algumas delas existiam previamente e outras são adquiridas ou resgatadas ao longo da jornada.

“A vida é como um quebra-cabeça. O importante não é ter todas as peças, é coloca-las no lugar certo.” Jô Soares

Buscando as peças que faltam

É importante entender que nenhum de nós começa a montagem de seu quebra-cabeças do zero. Isto é, todos herdamos algumas peças que já foram colocadas por nossos antepassados. Mesmo os que não são experts na arte de montar quebra-cabeças, sabem que o ideal é iniciar a montagem pelos cantos. Porque existe uma espécie de moldura que define o contorno da figura que estamos formando. Inegavelmente esta é uma referência importante, e por vezes decisiva que não devemos ignorar. Os que simplesmente encaixam as peças de maneira aleatória, desconsiderando, portanto, o que já existia, potencializam as chances de fracasso. Já que, o caminho do sucesso não é desconstruir simplesmente. 

Portanto, precisamos de alvos bem definidos e doses importantes de honra devem ser somadas nesta equação. Honrar significa reconhecer as heranças positivas e se perceber como receptor de dádivas não conquistadas. Quando voluntariamente optamos por ignorar o histórico das gerações que nos antecederam, perdemos capacidade de enxergar o todo. Consequentemente, esta falta de perspectiva da imagem maior, subtrai nossa aptidão de discernir nosso lugar no desenho. No entanto, isto não é sinônimo de conformismo ou de saudosismo barato. É antes a capacidade de se relacionar corretamente com os erros e acertos existentes, corrigindo-os ou reforçando-os sempre que necessário.

Obviamente a parte do desenho que nos cabe montar, com nossa vida e escolhas, contribuirá significativamente para formar a imagem da qual somos parte. No entanto, é importante entender que nem sempre visualizaremos a gravura completa em nossa geração. Nossa vida tem um encaixe e pode ser a peça decisiva que desencadeará o progresso. Pois, tão importante quanto enxergar o todo, é o entendimento de que nossa responsabilidade individual não pode ser negligenciada. Ainda que alguns de nós tenhamos que remover algumas peças que foram colocadas no lugar errado, como parte de nossa missão, isto jamais será sinônimo de anular nossa identidade.

“Um quebra-cabeças não é montado com peças iguais. Assim somos, diferentes uns dos outros e ao mesmo tempo formadores uns dos outros.” Rosicleide David

Assumindo nosso lugar

Quando se pensa na existência humana como um imenso quebra-cabeça, e cada um de nós como parte de uma engrenagem gigantesca, chega ser assustador. Certamente, esta é a ótica de quem contempla o desenho de cima. Na verdade, apenas o Criador de todas as coisas possui esta perspectiva. No entanto, criou-nos com a capacidade de influenciar a formação deste grande desenho. Concedeu-nos, também, o privilégio de interagir com Ele em busca de clareza.

Por isso, esta talvez seja a chave mais importante para decifrarmos o enigma da vida. Isto é, nossa abordagem será pouco eficiente se insistirmos em viver isolados de quem fez o desenho. Portanto, cedo ou tarde se conclui que não fomos projetados para viver desconectados do Criador. Pois, assim como as peças de um quebra-cabeças, quando encaixadas de maneira equivocada, dificultam o entendimento do desenho; nossa vida deslocada inviabiliza a continuidade.

Quer gostemos ou não, somos parte de um todo. Não nascemos para viver isolados e não nos foi dada a opção de prosperar sem lidar com os encaixes que nos circundam. Portanto, é indicado que cessem tentativas de encaixe em posições para as quais não fomos desenhados. O formato de nossa vida só cabe no lugar específico para o qual foi projetada. Os intentos fracassados danificam nosso formato e distorcem o desenho original. A boa notícia é que, ao interagirmos com o “Criador do quebra-cabeça”, temos chance de ser refeitos.

“Sou peça de um quebra cabeça que ainda não foi feito…nem visto…apenas sonhado.” Adilson Salles Bueno

Entendendo o desenho

Cada um de nós, quando encaixado corretamente no lugar para o qual foi projetado, será útil. Quando isto acontece cessa a tensão e o desgaste e a fluidez é parte integrante do que realizamos. Seja na vida pessoal, profissional ou em qualquer aspecto de nossa existência, nascemos com um formato único e insubstituível. Este entendimento, por si só, descarta a necessidade de encaixes provisórios e, portanto, frustrados. Por isso, o menor indício de desconforto ou inadequação deveria sugerir análise e mudança de estratégia. Se estivermos no lugar certo, certamente floresceremos e embelezaremos nosso entorno.

Nenhuma dose de descontentamento desprovido de ação nos remove de uma posição equivocada. Todo desconforto ou inquietação deveria ser percebido como um convite à reciclagem. Já que, devemos assumir nosso protagonismo em nossa história. Certamente não é do outro a responsabilidade de promover nosso ajuste. Nem podemos responsabilizar quem quer que seja pelas escolhas que fazemos. Fomos projetados com perfeição e temos um encaixe cirúrgico e estratégico no grande quebra-cabeças da vida. Os centímetros que nos faltam ou sobram e que, por isso, dificultam o encaixe, podem e devem ser corrigidos.

Quando o desenho estiver completamente formado, entenderemos algumas partes do processo de forma plena. Nesta vida nossa ótica é limitada e parcial. O mais importante é saber que somos parte de uma grande engrenagem, que não iniciou e nem termina com nossa passagem pela terra. No entanto, nossa participação é esperada e tem poder de afetar nossa geração. Somente Deus poderia juntar pó com Sua essência divina e formar o homem. Somos esta mistura de fragilidade com eternidade que tem potencial para influenciar ou não, os que nos rodeiam.

“O quebra-cabeças de Deus não tem falhas. Somos nós que insistimos em colocar as peças no lugar errado.” Desconhecido

Criados para amar e ser amados

Não somos capazes de amar, nem tão pouco de receber amor, quando não nos amamos. Nada externo pode mudar essa realidade, a não ser nossa decisão voluntária de acreditar que temos valor.

Definir amor e o que significa amar não é tarefa simples. Alguns expressam amor através de gestos práticos, como por exemplo: ajudar nas tarefas da casa. Outros não valorizam tanto este tipo de atitude e sentem-se amados quando são alvo de alguma ação inesperada, do tipo que nos arrebata de nossa rotina. Talvez um pouco das duas coisas ou nenhuma delas, mas o fato é que nascemos para ser amados e para amar. E o amor precisa se expressar de forma palpável, visível. Já que, amar pressupõe ação.

Se usássemos a analogia de um equipamento eletrônico, poderíamos dizer que os componentes do ser humano foram desenhados para funcionar através do amor. Amor é sinônimo de aceitação, de valor, de significado. Por isso, a ausência de amor, inevitavelmente gera sofrimento. A maioria das pessoas instintivamente busca respostas para esta lacuna, e por vezes se apoia em recursos errados. Pois, toda solução externa que garanta conforto e gere valor não tem potencial de mudar, de fato, a maneira como nos sentimos.

Se a humanidade pudesse ser dividida em dois grandes grupos, eles seriam o das pessoas que possuem senso profundo de valor e aceitação e das que lutam para conquistar isso. Nesta hipótese, possivelmente apenas uma variável separaria estes dois grupos. Os que amam e vivenciam a aceitação, são os que consideram-se dignos disso, o outro grupo ignora este fato. Os que desconhecem esta realidade perseguem o amor de forma equivocada. Por isso, o primeiro passo que nos introduz no caminho correto é reconhecer que merecemos o amor.

É um amor pobre aquele que se pode medir.” William Shakespeare

Reconhecendo nosso valor

O simples reconhecimento de que precisamos e merecemos ser amados, não torna a vida melhor ou mais fácil, e não nos imuniza de traumas, falências ou separações. Mas, estas fatalidades nos afetam em medida diferente. Porque, sempre que analisamos as circunstâncias a partir da ótica correta, elas assumem proporções adequadas. Isto é, nenhum fator desagradável externo nos derrota quando temos consciência de nossa capacidade de nos reerguer e reinventar.

Quando nosso valor está alicerçado na base sólida do amor, isto é, quando não se apoia em nada passageiro ou transitório, adquirimos mais resistência para lidar com os desafios. Isto também aniquila a mentalidade de que estamos incompletos, ou de que algo que não temos pode ser a chave do sucesso que perseguimos. Porém, isso não significa que estaremos acomodados ou que sejamos alienados. Pelo contrário, ao conquistarmos coisas a partir deste lugar, tais conquistas não definirão quem somos.

Por isso, se eventualmente as perdermos, nossa estrutura não sofre rachaduras. Quando Deus criou o homem, partiu do princípio que Ele seria a fonte de amor e aceitação capaz de nos conduzir. Infelizmente o homem rompeu esta conexão, e, por isso, anda buscando respostas em outras fontes. Porém, as incertezas se dissipam, e não tememos a exposição e os riscos emocionais, quando somos definidos pelo amor que Deus tem por nós. Esta é a única Fonte legítima e confiável de amor.

“Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” 1 João 4:16

Derrubando os muros

A insegurança em geral nos atrela ao medo. Quando tememos, temos mais dificuldade de arriscar, pensamos erroneamente que existem meios seguros de nos proteger. Por isso, a busca instintiva do amor, quando frustrada, nos leva a edificar muros. São estes mesmos muros que levantamos para nossa proteção, que nos escravizam e isolam. Portanto, longe de ser um escudo eficaz, a ilusão deste tipo de atitude desencoraja a reação que teria fornecido a proteção genuína que perseguimos.

Por isso, a simples escolha da exposição voluntária nos aproxima bem mais de quem somos de fato, do que a fuga. Não se trata da exposição pela exposição, já que isso seria um suicídio emocional. Mas, da consciência de nossa identidade e valor que nos capacita a lidar com a possibilidade de não ser aceito ou totalmente compreendido. Estes riscos são reais e precisam ser considerados. Porém, é nossa a tarefa de separar quem somos, da crítica que recebemos.

Pois, amar envolve correr riscos. Qualquer um que ama sabe disso. Não existe vacina que nos imunize, nem atalhos que nos poupem deste componente do percurso. Todos os que amam já foram feridos e já feriram. Existem cicatrizes que denunciam alguns desses momentos mais doloridos. As marcas que o amor produz nos transformam. Elas também possuem certa beleza, que só é discernida pelos que amam.

“A medida do amor é amar sem medida.” Santo Agostinho

Aprendendo a se amar

Inegavelmente uma pessoa que não ama a si mesma não tem o que oferecer para o outro. Já que não podemos repartir ou doar algo que não temos. A ausência de amor próprio nos faz exigir do outro atitudes que jamais nos suprirão de fato. Porque, nada externo, nem mesmo gestos genuínos e autênticos de amor, são eficientes para destruir esta mentira. Se perceber como alguém sem importância, é não ser capaz de decifrar sua essência.

Por isso, nestes casos, a ótica do outro, não é suficiente para nos remover desta posição. Só nós podemos decidir quando sairemos deste lugar. Certamente existem fatores que podem contribuir tanto para reduzir esta sensação de ausência de significado, como para potencializar este pensamento. No entanto, nem mesmo uma justificativa plausível, constitui álibi para este tipo de posicionamento. É imprescindível descobrir que perdemos tempo quando permitimos que outros nos definam.

Inegavelmente, é perigoso vincular quem somos às reações de outros ou a qualquer coisa que façamos ou tenhamos. Pois, nada disso é inabalável. Nossa auto-estima é imediatamente sequestrada quando vinculamos nosso valor a algo externo ou à opinião de quem quer que seja. Podemos gostar da sensação do aplauso e reconhecimento nos momentos de sucesso. Mas, na presença dos fracassos, que são inevitáveis, naufragamos com eles.

“Quem se apaixona por si mesmo não tem rivais.” Benjamin Franklin

Sendo capazes de amar

Portanto, ao autorizarmos que nos definam, isto é, que nosso valor esteja vinculado ao que fazemos, o fracasso torna-se nossa sepultura. No entanto, quando este componente é excluído da equação, temos mais facilidade de arriscar. Consequentemente construímos uma identidade mais sólida. De maneira idêntica, ao recebermos amor a partir de uma ótica ajustada e equilibrada, somos capazes de dar amor.

Porque, a máxima de que é dando que se recebe, se aplica muito bem neste cenário. Já que precisamos nos amar e repartir este amor com outros, para que ele se multiplique em nós. Dar amor de forma incondicional e livre alimenta nossa fonte de amor. Isto é, a lei do amor é regida pela necessidade de ser alvo e fonte de amor simultaneamente.

Pode ser confuso para mente, mas não é para o coração. Os que amam não têm dificuldade de decifrar este enigma. Já os que não amam, não entenderão por mais eloquente que seja a linguagem usada que pretenda explicar. Precisamos do outro, para repartir o que temos e para receber o que nos falta. No entanto, a única fonte de amor infalível e inesgotável é o Criador. Ele nos criou com capacidade de amar e de receber amor. Por isso, só somos completos quando recebemos e repartimos amor.

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” 1 João 4:8

Viu Deus o que tinha feito. E era muito bom!

Nossa ótica da vida e do que nos rodeia, nos permite descobrir o que há de bom em nós e em nossas circunstâncias.

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.” Gn. 1.31

A origem do homem, segundo a ótica cristã, aponta para um Deus criador, que tem prazer em Sua criação. Pressupõe também que o Criador espera e almeja ter comunhão com a criatura.

A partir desta premissa a vida e os relacionamentos assumem nuances peculiares. Na criação, o convite ao relacionamento é estabelecido. Igualmente, fica claro que se Deus viu beleza em sua criação, Ele espera que nós a encontremos em nossas vidas.

Achar algo bom é identificar-se com suas características e natureza. Em nossa gênese isso foi estabelecido, embora muitas vezes não seja percebido adequadamente. Buscamos este lugar instintivamente. Tateamos perseguindo o que é bom.

Temos oportunidade de explorar essa verdade em nosso cotidiano, mas raramente o fazemos. A busca da satisfação e do prazer no que fazemos deveria ser a bússola que norteia nossas escolhas.

Não me refiro ao prazer desconectado de doses de desafio e da necessidade de superação. Refiro-me ao prazer e a satisfação que encontramos, quando nos envolvemos com o que fomos criados para fazer.

“Ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom no que faz.”            Santo Agostinho

O encaixe de cada um de nós nessa engrenagem gigantesca, que é o mundo, depende disso. Saber fazer não basta. Temos que fazer aquilo que nos desafia a crescer, a ser melhores. Influenciar os que estão à nossa volta é consequência inevitável de estarmos no lugar correto.

Todos nós temos um lugar específico a ocupar. O sentido de nossa vida está intimamente ligado a essa descoberta. Quando entendemos que Deus nos deu capacidade criativa e espera que a usemos, somos capazes de identificar beleza no que nos rodeia.

Fotografar a vida com estas lentes, registrando os momentos simples sob esta ótica é imprescindível. Nosso olhar precisa capturar o que Deus classificou como bom.

Quando analisamos nossas circunstâncias e nossa vida, o que encontramos de bom? Existe gratidão e consciência do quanto de bom existe em nós?

Precisamos refletir nestas perguntas e ajustar nosso foco. Comece com pequenas coisas. Busque sentido em seu dia, naquilo com o que você se ocupa. A maneira como usamos nosso tempo diz muito a nosso respeito.

Descubra o bom a sua volta e celebre as pequenas conquistas diárias. Sua vida tem valor, especialmente quando você fizer o que foi criado para fazer.

O habilidoso Oleiro e o barro

“…Ó Senhor, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos.” Is. 64.8

Quando pensamos na realidade de que somos pó, e que um dia voltaremos a ser, a figura do Oleiro e do barro são próprias para descrever os processos de Deus conosco. Criador dando forma à criatura ao longo do caminho.

À semelhança do barro, necessitamos ser amolecidos suficientemente para que a forma possa ser dada ao objeto. Se eventualmente o barro estiver muito seco, poderá comprometer o resultado. Cabe ao oleiro acrescentar água e amolecer sua matéria-prima, para concluir sua obra.

A habilidade do oleiro garantirá que o objeto seja único e específico para seu propósito. Ninguém melhor do que nosso Criador para conferir forma à nossa vida, o desenho com o qual sonhou quando nos criou.

Entendendo o trajeto

Podemos questionar alguns trajetos do percurso, mas quando, voluntariamente, escolhemos entregar-Lhe o controle de nossa existência, descansamos em Sua competência de concluir o processo com excelência.

Grande parte de nossos conflitos estão relacionados com nossa dificuldade de entregar-Lhe o controle absoluto e completo de nossas escolhas e futuro. No entanto, nos enganamos quando pensamos que Ele deseja marionetes.

Ele nos criou com livre arbítrio. A essência de Seu amor por nós, nos deixará livres para escolher se confiamos nEle suficientemente. Sentados no banco do carona, deixando que Ele escolha o trajeto que nos conduzirá para nosso destino, temos oportunidade de apreciar a paisagem.

Escolhendo diariamente

É uma escolha diária e precisa ser intencional. Ele sempre pedirá licença antes de abrir as gavetas fechadas e os quartos escuros de nossos cômodos. Sua abordagem sempre será amorosa e fundamentada em liberdade.

Não existe lugar mais sábio para ocuparmos do que o centro de Sua vontade. Nossa estrutura não suporta o peso e a responsabilidade de gerenciar nossas vidas de forma solitária e independente dEle.

Nossa essência é pó. Nascemos com a necessidade de depender dEle. Usufrua de seu lugar de filho e escolha depender do cuidado, instrução e sabedoria de Seu Pai e Criador. Não existe nenhum vaso que Ele não possa restaurar e fazer de novo. 

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e tudo mais Ele fará.” Sl. 37.5