Nossas narrativas internas.

Geramos constantemente versões internas de acontecimentos que vivenciamos. Algumas destas narrativas não são reais, baseiam-se em suposições e são alimentadas por mecanismos contaminados. Por isso, precisam ser confrontadas.

Todos nós produzimos narrativas internas conscientes ou inconscientes. São elas que buscam explicar ou dar sentido aos fatos e circunstâncias que vivemos. As narrativas nada mais são do que nossa versão do que nos acontece e a lógica que aplicamos para codificar tais episódios. Certamente nossa ótica é formada e influenciada por experiências vividas, questões culturais, eventos traumáticos, nossa constituição física e emocional, além de outros fatores.

Por isso, quando dependemos muito de narrativas auto protetoras, usualmente, elas se tornam um padrão. Ou seja, teremos tendência de assumir a retaguarda e culpar outros pelo que nos acontece. No entanto, ao lidarmos honestamente com narrativas não editadas, potencializamos as chances de corrigir os rumos de alguns acontecimentos. Pois, ninguém mente mais do que a vergonha. Portanto, quando ela assume o comando, furta e distorce histórias que criamos.

Mas, a coragem de reconhecer as verdadeiras emoções, desvenda o que alimenta nossas narrativas. Porque o estabelecimento de um caminho novo e corajoso; exigirá vulnerabilidade. Já que, a estrada que leva à vida plena é pavimentada por nossa essência e pelos mecanismos que regem nossas escolhas. Porque quando não assumimos o controle e a responsabilidade de nossa vida, somos arrastados pela correnteza das circunstâncias. 

“O caráter – a disposição de aceitar a responsabilidade pela própria vida – é a fonte de onde brota o amor próprio.” Joan Didion

Buscando pertencer, não ser aceito

A busca por aceitação extrai de nós uma concordância relutante; que transforma-se facilmente em ressentimento. Já que, generosidade jamais pode representar permissão para que se aproveitem de nós. Quando somos maltratados e nossos limites são desrespeitados propositadamente, é nosso dever delimitar este espaço. Ou seja, somente com nosso consentimento, pessoas ultrapassam estes limites.

Porque quando nos percebemos de forma correta, saberemos defender nosso território. Reconheceremos facilmente os gatilhos que estão sendo acionados e poderemos desarmá-los. Ao passo que alguém com narrativas internas confusas, facilmente será levada a agir buscando aceitação. Pertencer é diferente de ser aceito.

O pertencimento acontece a partir de uma identidade sólida e estabelecida. Portanto, um posicionamento está vinculado ao outro. Pois, narrativas internas confusas, induzem a uma interpretação distorcida das circunstâncias. Certamente sobre este alicerce não é possível construir nada sólido. Facilmente, nestes casos, substituímos pertencimento por aceitação e violentamos nossa identidade.

Conhecendo o necessário sobre nós

Será mais fácil agir, se tivermos conhecimento necessário de quem somos de fato. As pessoas aprendem como devem nos tratar com base na maneira como tratamos a nós mesmos. Ou seja, quando nosso conhecimento dos mecanismos que nos regem são superficiais, não somos capazes de assumir o protagonismo de nossas escolhas.

Temos capacidade de escolher certo, minimizando desconforto quando conhecemos o que nos limita e oprime. Sejam sentimentos de inferioridade, baixa autoestima, medo, vergonha ou insegurança, eles precisam ser desmascarados. Portanto, a análise honesta e corajosa do que nos rege produzirá argumentos reais que nos definirão.

Não seremos curados se não suportarmos lidar com tristeza. Assim como não somos capazes de perdoar se não resistirmos ao processo de luto. Porque a sinceridade com que lidamos com o que sentimos desvenda nossas motivações. Isto é chave para processarmos corretamente nossas emoções e nosso modus operandi. No entanto, quando a origem de nossas reações estão mascaradas, retardamos nosso avanço.

“Nunca me disseram que o luto era tão parecido com o medo.” C S Lewis

Livres de julgamento

Portanto, todos que desejam superar limitações e viver com liberdade de escolha, precisarão de autoconhecimento. Não basta culpar circunstâncias, assumir papel de vítima ou se esconder atrás de argumentos mentirosos. Porque nada nos derruba mais do que nossa auto sabotagem. Quando resolvemos questões internas, encontramos forças para lutar com o que é externo e nos desafia.

Mas, quando nossa luta interna consome nossas energias, nossa capacidade de superação reduz consideravelmente. Pois um dos segredos dos vitoriosos é o autocontrole, disciplina e foco. Quando estamos bem conosco, não nos comparamos com os outros. Isto é, procuramos neles o que há de bom e nos relacionamos com eles nestas bases. Porque pessoas bem resolvidas sabem que falham.

Por isso, resolver estas questões limita o espaço afetivo e emocional, ocupado pela raiva e o julgamento. Já que, alimentar tais emoções, promove desrespeito e posturas nocivas, que contaminam nossa cultura. Se achar melhor do que os outros é o lado oposto da moeda de não ser bom o bastante. Parecem aparentemente reações antagônicas, mas sua origem é uma distorção de nosso valor. São, portanto, dois lados da mesma moeda.

Aniquilando a soberba

A soberba nada mais é do que a armadura que pretende proteger-nos da autodepreciação. Mas nenhuma tentativa de encontrar valor fundamentada neste alicerce é sólida. Nosso verdadeiro valor se estabelece quando encaramos nossas fragilidades com honestidade. É esta verdade que nos capacita a oferecer generosidade aos que erram conosco.

A decepção nada mais é do que expectativas exageradas não atendidas. Pois, quanto mais significativas são as expectativas, tanto maior é a decepção. Depositaremos menos expectativas no outro quando lidarmos mais honestamente com nossa própria condição. Em última análise, isto nos deixa livres para dar e receber. Ou seja, nenhuma decepção pode ser tão poderosa que subtraia nossa capacidade de se doar.

De maneira idêntica, decepções não podem nos roubar a espontaneidade de pedir ajuda. As relações se estabelecem sobre este fundamento. Porque ninguém é tão perfeito ou completo que não precise do outro. E cada queda representa uma oportunidade de nos reerguer. Consequentemente, nosso senso de plenitude se aprofunda. Somos resultado destes altos e baixos. Os acertos e os erros nos moldam e geram heróis e vitoriosos.

“Expectativas são ressentimentos esperando para acontecer.” Anne Lamott

O que se esconde atrás da inveja?

Invejar é gastar energia e foco no alvo errado. O que impede nossas conquistas não é o espaço que outro ocupa, e sim o fato de nos percebermos de maneira errada.

Quando a palavra inveja é mencionada, somos unânimes em afirmar que desprezamos o convívio com invejosos. Sem dúvida alguma, a inveja é nociva; destruindo quem a possui e afetando os que dela são alvo. A inveja instala-se de forma sutil em nosso interior quando insegurança, em qualquer nível, está presente. Às vezes pode disfarçar-se de cuidado, preocupação e até mesmo de justiça, mas suas raízes são tóxicas. Existem muitas ocasiões propícias para que ela se manifeste em nosso cotidiano.

O dicionário define inveja como: desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia. Pode ser também um desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem. Inegavelmente é um sentimento fundamentado em profunda inferioridade, que é simplesmente desmascarada diante da conquista de quem nos rodeia. Nem sempre temos facilidade de identificar sua presença, mas certamente a baixa autoestima é sua companheira. Porque a pessoa segura de sua identidade tem menos motivos para invejar. Contudo, ninguém está imune às investidas desta inimiga traiçoeira.

Pois, ela ataca diretamente nossa identidade. Por isso, são as crianças que mais facilmente demonstram traços de sua presença. Já que sua identidade e personalidade estão em fase de formação. Desejar os brinquedos e a atenção recebida pelo colega de escola ou vizinho, é o primeiro teste. É precisamente nesta fase que pais e educadores têm a chance de cortar o mal pela raiz. Pois é seu papel orientá-las, desvinculando o valor da pessoa da coisa desejada. Para alguns pode passar despercebido, ou até ser classificado como inofensivo. Mas, futuramente as consequências surgem, e nem sempre são facilmente revertidas.

“Você não pode ser invejoso e feliz ao mesmo tempo.” Frank Tyger

O adulto é a criança de ontem

Certamente muitos de nós já convivemos com adultos bem sucedidos com traços de inveja em sua personalidade. Nada justificaria algumas atitudes e escolhas que fazem, mas não conseguem evitar, por mais que se esforcem. São pessoas que sentem que precisam provar constantemente para si mesmas e para os outros seu valor. Sentem-se facilmente diminuídas, pois, atrelam à conquista e ao sucesso seu valor de ser humano. Enxergam os outros e a si mesmo através de lentes distorcidas.

Temos valor intrínseco, independente de quantos bens possuímos, do grau de escolaridade que temos ou de nossa aparência. Por isso, mensurar nosso valor através de métricas distorcidas, acrescenta pressão demasiada e nos leva a perseguir alvos irreais. Somos seres únicos, porque o que nos define é um conjunto de circunstâncias e combinações genéticas e sociais que não se pode replicar. Quando o conceito correto for o fundamento de nosso valor, não cairemos mais nas armadilhas da inveja.

Pois, a sensação de inferioridade que nos leva a invejar, é a pior mentira em que acreditamos. Esta premissa falsa é o que mantem as portas de nossa prisão lacradas. Enquanto ela persiste, permanecemos escravos não só da inveja, como de outros tantos sentimentos letais. O principal trunfo da inveja é permanecer encoberta, pois quando a identificamos, ela tem menos chances de sobreviver. Porque ninguém em sã consciência abriga a inveja, sabendo que ela tem potencial de nos destruir.

“Você não é o pior para que possa ter inveja e nem o melhor para que possa ter orgulho.” Heliglécio

Os dois lados da moeda

Diz-se do orgulho que ele é como o mau hálito, só quem tem não sabe que tem. Já que para os demais ele é muito evidente. De maneira idêntica a inveja é percebida facilmente por quem convive conosco. Podemos tentar disfarçar nossa verdadeira motivação ao fazer determinado comentário ou replicar alguma informação maldosa. Mas, o que alimenta este tipo de atitude é um sentimento de inferioridade, que busca compensação quando o outro está pior do que nós.

Uma situação típica onde a inveja se manifesta é no ambiente corporativo, no meio profissional. As injustiças nestes ambientes são cometidas deliberadamente ou por vezes inconscientemente. No entanto, independentemente da motivação, o fato é que as promoções são concedidas, muitas vezes, de forma subjetiva. Por isso, nosso senso de justiça própria é instigado e provocado. O fato nem precisa nos envolver diretamente, pois, quando acontece com algum amigo ou alguém a quem admiramos, rapidamente escolhemos quem é nosso aliado.

Inegavelmente, quando este tipo de situação surge, dois lados opostos se estabelecem. Eles não coexistem, já que estão fundamentados em pontos de vista antagônicos. No entanto, nem sempre esta versão dos fatos representa a realidade. Muitas vezes a verdade pura e simples é que nenhuma das versões é completamente verdadeira ou completamente falsa. Porque os motivos para que alguém seja reconhecido e promovido, ainda que sejam subjetivos, são legítimos. Assim como podem ser legítimas as razões de quem se sente preterido.

“O espírito da inveja pode destruir; nunca construir.” Margaret Thatcher

Fugindo da armadilha

A principal armadilha da inveja é nos fazer arrazoar sobre as justificativas que temos para nos sentir ignorados ou desprezados. Esta linha de pensamento nos leva para bem longe da solução e potencializa a inveja. A mistura fatal é quando temos um fato, que é analisado através de um olhar contaminado por autocomiseração. Qualquer dose de baixa autoestima, somada com autopiedade pode nos paralisar por muito tempo. O que não percebemos é que o principal afetado por este tipo de circunstância somos nós mesmos.

Qualquer pessoa que abriga ressentimento e inveja em seu coração é alguém que vive em algum grau de aprisionamento. Essa pessoa não é livre de fato, e jamais alcançará seus objetivos com esse fardo pesado em seus ombros. Na corrida da vida, os vencedores são aqueles que olham para a linha de chegada e não carregam pesos extras. A velocidade com que perseguimos nosso alvo depende da leveza de nossa bagagem. Os fardos extras se acumulam e subtraem nossa capacidade de superação.

“A inveja é a arte de contar as bênçãos do outro em vez das próprias”. Harold Coffin

Expandido nossa ótica

“O amor olha através de um telescópio; a inveja através de um microscópio.” Josh Billings

O antídoto contra qualquer raiz de inveja, que tente se instalar, é uma identidade sólida. Quando descobrimos que somos únicos e que não temos rivais, a inveja perde força. Porque quando nosso olhar é ajustado e analisamos as circunstâncias dentro de um contexto macro, nenhuma conquista alheia nos ameaça. Ninguém é capaz de roubar nosso lugar ao sol, portanto, é incoerente gastar energia invejando. Seremos sempre o produto de como nos percebemos. 

Por isso, se nossa ótica estiver ajustada, conseguiremos colocar em perspectiva correta tanto o fracasso quanto o sucesso. A vida é como um vapor, os anos voam e escorrem por entre os dedos como a areia. Quanto mais tempo desperdiçamos com comparações e abrigando sentimentos nocivos, mais nos distanciamos do que realmente importa. Os velórios são momentos tristes e doloridos, mas carregados de realidade. Porque, a morte é um fato na vida de todo ser humano, independente de suas conquistas. 

Portanto, todos deveriam levar em consideração que, naquele dia, nada levaremos conosco. Não importa se colecionamos fracassos ou conquistas, elas ficam nesta terra. Obviamente isso não é a principal razão pela qual não devemos invejar, mas certamente é uma realidade. Por mais que gastemos energia perseguindo metas e invejando outros, o que fica de nossa trajetória é a pessoa em quem nos transformamos. O invejoso é aquele que foca no ter e esquece do ser. Por isso, para ele, o saldo será sempre negativo, independentemente do quanto tenha conquistado.