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O palco da vida.

Assumir o protagonismo de nossa história no palco da vida, é saber ser aplaudido e vaiado sem desviar o olhar do que é importante. Nascemos com um propósito e buscamos aprovação de um único par de olhos.

Imaginar-se em um palco, atuando como protagonista de uma peça, pode ser uma boa alegoria da vida real. Contudo, a grande diferença é que o ator de uma peça teatral, representa um papel, cujo roteiro não foi escrito por ele. Na vida, somos os roteiristas e temos liberdade de mudar os rumos dos acontecimentos. Outra importante diferença é que, embora tenhamos coadjuvantes atuando conosco, eles são também protagonistas de suas próprias peças. Os papéis se cruzam e estabelecem as nuances que, ao longo dos dias, vão dando forma à trama. Podemos misturar gêneros e estilos, já que o drama, comédia e a aventura coabitam harmoniosamente em uma mesma cena. Assim como o suspense com a ficção e até o romance.

“Uma cena que muitas vezes vem à minha mente, dormindo e acordado; é a de que estou de pé nos bastidores de um teatro, esperando por minha deixa para entrar no palco. Enquanto estou ali, vejo a peça prosseguindo, e de repente me ocorre que as falas que decorei não são daquela peça; mas, pertencem a uma bem diferente. O pânico toma conta de mim. Questiono-me freneticamente sobre o que devo fazer.

Então recebo minha deixa. Tropeçando, caindo sobre o cenário desconhecido, vou para o palco e procuro orientação do operador, cuja cabeça vejo saindo através do piso. Infelizmente, ele apenas sinaliza impotente e percebo, é claro, que o roteiro dele é diferente do meu. Começo a recitar minhas falas, mas elas são incompreensíveis para os outros atores e abomináveis para o público, que começam a sibilar e gritar: “Saia do palco!”, “Deixe a peça continuar!”, “Você está interrompendo!” Malcolm Muggeridge

Assumindo a direção

Malcolm Muggeridge foi um jornalista e brilhante escritor, que pensava sobre a vida e propôs inúmeras reflexões. Dentre elas a de imaginar-se em um palco, recitando falas de uma peça da qual não fazemos parte. O extrato do texto, citado acima, revela parte da agonia de perceber-se atuando em algo sem conexão alguma. Talvez seja esse nosso grande desafio, o de conectar-se adequadamente com os atores que fazem parte de nossa história. Igualmente desafiador, é subir no palco objetivando extrair aplausos de uma platéia que não está interessada minimamente no que temos a dizer. Infelizmente é como se sentem algumas pessoas que embarcaram em um roteiro que não lhes representa.

Ou seja, estão literalmente representando papéis em peças erradas, com roteiros escritos por pessoas que nunca admitirão seu protagonismo. Nossa peça é uma biografia, ela é única, pessoal e só termina quando nossa missão aqui acaba. Nas biografias não é permitido escolher o final, a não ser que sejam redigidas por alguém que a transforme em ficção; depois do último ato. No entanto, podemos direcionar as escolhas para que preferencialmente seja um final feliz. Os imprevistos exigirão adaptações, mudanças de roteiro, mas tudo imprimirá beleza, despertando curiosidade de quem atentamente nos assiste. A platéia pode ser amistosa, como poderá oferecer algum antagonismo. A vaia e o aplauso se misturam e podem nos confundir. O antídoto contra estes vilões chamados fama e fracasso é tratá-los com a mesma indiferença. Já que são dois lados de uma mesma moeda. Assim como é decisivo não se deixar influenciar por nenhum deles a ponto de perder a noção de nossa fragilidade e insignificância.

Interagindo com outros atores

Ao subirmos no palco da vida, outros atores esperam por nós. Eles chegaram antes, sua peça já está em andamento e fomos gentilmente inseridos nela. Há os que serão agregados ao roteiro e à trama no futuro. A arte de atuar, sem ultrapassar os limites de nosso protagonismo é o que separa os grandes autores e atores dos medíocres. Já que somos autores e atores de nossa história, temos que ser generosos tanto com o primeiro grupo, quanto com o segundo. Com os que nos antecedem temos que ter inteligência de aprender observando-os e imitando o que agregou conquista à sua carreira. Já com os que nos sucedem temos o dever moral e quem sabe até obrigação de estender-lhes a mão, oferecendo empatia diante dos tropeços.

É interessante perceber como uma mesma cena pode ser interpretada com doses de alegria ou tristeza. O nível de otimismo e pessimismo presente nas escolhas também fica evidente, mesmo aos olhos menos atentos. Porque nossa ótica do que nos acontece passa por filtros internos que foram programados muito antes de termos consciência de que fazíamos escolhas. Isto não significa dizer que não somos responsáveis por reprogramá-los ou substituí-los por outros que nos ajudem a obter uma visão mais exata do que está proposto. Esta tarefa, além de ser importante, não pode ser terceirizada. Já que esta análise honesta fornecerá alguns padrões que podem bem nos catapultar para o topo de nossos mais ousados sonhos.

Visão de longo alcance

O sonhador é aquele que sempre traça metas maiores do que ele. Sabe instintivamente que sem sonhos perecemos. Porém, a arte de transformar sonhos em realidade é dominada por aqueles com capacidade de pavimentar o caminho com projetos menores. Ou seja, dos que entendem seu papel e o desempenham com perseverança e porções abundantes de diligência. Contudo, o que realmente imprime significado a cada um destes objetivos é saber que quando as cortinas se fecharem definitivamente, a verdadeira história começa. Porque, esta vivida e protagonizada aqui no palco terreno, é um grande treinamento e o alicerce sobre o qual o motivo de nossa existência desvenda-se.

Não seria lógico nem coerente imaginar uma peça que terminasse no auge das descobertas. Pois, quanto mais próximos estamos do final, mais sabedoria acumulamos; exercendo, consequentemente, escolhas mais assertivas. O fracasso também assume proporções diferentes da que tinha no início da jornada. A vitalidade pode estar diminuída e o físico nos prega peças, contudo o que falta no corpo, sobra na alma. E essa é eterna, como são todas as sementes que plantamos e que continuarão germinando pela eternidade. A eternidade parece combinar com a vida finita que se apaga lentamente como uma vela, que para brilhar, é consumida.

“Todo acontecimento, grande ou pequeno, é uma parábola por meio da qual Deus conversa conosco. E a arte da vida é entender a mensagem.” Malcolm Muggeridge

O bis é a melhor parte

Se a gente soubesse de algumas coisas, talvez tivéssemos começado pelo bis. Sim por aquela parte que repetimos e que é aplaudida de pé no final de cada grande espetáculo. Mas o bis não existe sem o início e sem o meio, ele só tem sentido mesmo depois que a peça encerra. Porque, o aplauso que mais importa é o dAquele que idealizou toda trama. Não só a nossa, mas a do outro; a de todos. Aquele que criou o palco, este grande universo onde atuamos e deixamos nossa marca. Pequena, é verdade, mas ainda assim uma marca. Ele sabia o que estava fazendo desde o princípio. Sabia que precisávamos nascer livres, fazendo escolhas que poderiam nos levar para perto dEle ou nos afastar definitivamente dEle.

Contudo, não deixa de nos amar quando escolhemos nos distanciar. Porque a essência do amor exige que seja livre. Pois, podemos escolher ou não contar com Sua ajuda. Certamente é desejo Seu ser incluído em nossa história. Mas somos nós que determinamos qual será Seu protagonismo no que vivemos. Ele que soprou nas narinas do primeiro ser criado, recolherá o sopro em algum momento. Poderemos ser surpreendidos ao ser recebidos por Ele, recebendo o único aplauso e aprovação que realmente importam. O palco terreno da vida é pequeno e pode ser cruel. Inegavelmente, é nele que aprendemos as lições que nos posicionarão diante dAquele que nos formou no ventre e que criou-nos com um propósito. O bis acontece diante de um único par de olhos. É Sua aprovação e aplauso que buscamos, porque o resto é o resto.

“A primeira coisa que me lembro do mundo – e rezo para que seja a última – é que eu era um estranho nele. O único desastre final que pode acontecer conosco, eu percebi, é nos sentirmos em casa aqui na terra.” Malcolm Muggeridge

Menos armadura, mais aprendizado.

Usar armadura no momento certo nos protege. Mantê-la por muito tempo pode nos prejudicar e roubar nossa liberdade.

Usar uma armadura nem sempre é negativo. Inegavelmente em caso de uma guerra ou de algum ataque inesperado, possuir uma armadura e estar vestindo-a nos protege. No entanto, existem armaduras que pretensamente utilizamos e que nos isolam. Nem sempre elas são perceptíveis. Já que podem bem ter sido tecidas ao longo dos anos por circunstâncias diversas. Certamente o ser humano tem um instinto de preservação muito aprimorado. Pois, ao menor sinal de perigo temos a tendência de nos proteger e reagir.

No corpo humano temos um sistema imunológico que detecta e reage ao que considera ameaça. No entanto, assim como na vida, quando nosso sistema imunológico está enfermo, acaba confundindo o inimigo. Ou seja, destrói o que nem sempre precisa ser eliminado. Podendo assim, atacar a si próprio, gerando o que conhecemos como doenças autoimunes. Dentre elas temos a diabetes, lúpus, esclerose múltipla, para citar as mais comuns. O estrago causado por estes ataques é gigantesco, assim como pode ser o uso de uma armadura desnecessária.

As dores e traumas que vivemos tendem a contribuir para o surgimento de uma armadura. Inicialmente ela parece ser benéfica e até imprescindível. Mas, precisamos revisitar sua importância, porque nem sempre o problema permanece. Pois, por vezes, temos a sensação de que ela se faz necessária quando, efetivamente, o risco já desapareceu. Carregar uma armadura pesa e nos separa do que pode nos libertar. Ela bloqueia o acesso do que talvez nos cure, como também promove ataques desnecessários.

Removendo a armadura

Livrar-se da armadura desnecessária é um ato da vontade, já que ninguém pode fazer isso por nós. Nos armamos porque imaginamos que o perigo existe, ou que o ataque é iminente. O descarte de conceitos errados e de premissas mal fundamentadas exigirá humildade. Pode parecer que a coragem seja o ingrediente imprescindível. No entanto, o corajoso é humilde em sua essência. Pois, um ato de coragem exige exposição e, em geral, admite o erro como consequência do risco. Ou seja, se abrir para algo novo que nos faça refletir é um ato corajoso e humilde.

O aprendizado que a vida propõe envolve risco. Seja o risco de perder alguma batalha ou de estar equivocado. A vulnerabilidade é um componente que acompanha a valentia de quem não teme o progresso. Uma cultura fechada em seus conceitos jamais será uma cultura adequada. Uma vez que o progresso acontece diariamente, oferecendo-nos novas perspectivas para um mesmo tema. Isto não significa, no entanto, negociar valores. E sim, avaliá-los constantemente à luz de um contraponto. Esta análise honesta, servirá para fortalecer os conceitos sólidos e descartar os que são temporários.

Por exemplo, existem medos e inseguranças próprias da infância. São tolerados e admitidos com certa naturalidade nesta fase. Contudo, quando invadem a fase adulta e se perpetuam pelas gerações sem ser questionados, são nocivos. Denunciam uma apatia e um conformismo que mais nos escraviza do que protege. Algumas armaduras são manufaturadas com este tipo de material. Tendem, portanto, a agregar prisões no que nasceu para ser livre.

“Repartir a verdade com quem não busca genuinamente a verdade é fornecer múltiplas razões para interpretações erradas a respeito dela.” George Macdonald

Conhecendo a verdade

A verdade como conceito absoluto existe. Embora o tema seja controverso e com muitos aspectos que devem ser considerados. Se ela não existisse não teríamos um padrão ético e moral que regesse a civilização. Não seria lógico permitir que pessoas façam o que consideram certo e errado, sem um padrão moral regendo e punindo as contravenções. Onde não há ordem a anarquia se instala. Por anarquia entendemos todo e qualquer estado de coisas que não preserve minimamente os direitos básicos do cidadão. A vida em sociedade exige regulamentações e políticas que preservem estes direitos.

Obviamente os tipos de governo e cultura implementam o que consideram correto. Algumas vezes de forma mais arbitrária, outras vezes mais democrática. Mas, inegavelmente, os povos são regidos por um código de conduta. Quando nossa fonte de moral não é a mesma, poderemos divergir, sem ultrapassar os limites da decência e do respeito. Ou seja, os que admitem a existência de um Deus, agem ou pelo menos deveriam agir, de acordo com os conceitos por ele estabelecidos. Os que se classificam como ateus, embora não admitam, possuem seu próprio conjunto de regras e padrão moral que seguem. 

Por isso, tanto os que admitem um Ser como sendo fonte de moral, como os que recusam-se a vincular-se com esta ideia, todos possuem uma lista de princípios que os rege. O criador da bomba atômica, no final de sua vida admitiu que achava que a bomba inventada por ele, era a força mais poderosa da terra. Contudo, descobriu que o conhecimento da verdade tinha mais poder do que ela. Quando admitimos a existência de uma verdade absoluta, seremos tolos se não perseguirmos conhecê-la de maneira incessante. Isso, certamente, envolverá disposição de lidar com as mentiras e armaduras que carregamos.

“A verdade é muito poderosa, mas vive cercada de guardiões da mentira.” Winston Churchill 

Simplesmente, margarida!

Receber uma margarida é um gesto carinhoso; assim como outros que podemos ter. Está em nossas mãos reforçar o valor dos que nos cercam.

Uma margarida, assim como qualquer flor, possui delicadeza e evoca sensibilidade e perfeição. Cada pétala, folha e suas cores perfeitamente combinadas, transmitem pureza e simplicidade. Contudo, seja uma margarida, rosa ou orquídea, as flores com seus perfume característicos, formatos e cores suaves ou extravagantes, são instrumentos poderosos de afeto. Elas, isoladamente ou acompanhadas, são veículos de mensagens subliminares. Mas, podemos agregar significado a cada uma delas. Ou seja, serão apenas flores até que um olhar mais atento elege-as como símbolo do que deseja expressar.

Por isso, seja qual for o momento, receber e dar flores é um gesto delicado e de muito bom gosto. Elas raramente são indesejadas. O carinho, a paixão, o desejo de reconciliação, a saudade ou qualquer outro sentimento pode ser ainda mais intenso quando acompanhado de flores. A margarida, em especial, possui uma simplicidade que encanta. A natureza nos presenteou com beleza através de plantas e de uma variedade de flores que podem reforçar o que desejamos comunicar. Contudo, ela será simplesmente uma margarida até que seja colhida e direcionada a alguém. O que a torna especial, portanto, é ter sido escolhida e endereçada a quem desejamos agradar ou homenagear.

Gestos simples como dar flores, dizer obrigada e sorrir podem transformar o dia de quem convive conosco. Porque, nossa interação com quem está à nossa volta pode representar um bom momento de sua vida. Ou quem sabe ser aquele olhar que a fará enxergar um momento difícil com mais leveza. Saber que alguém lembra de nós, que se importa ou que está disposto a estar ao nosso lado, nos deixa mais fortes. Pois, precisamos da interação com nosso semelhante. Ter nosso valor reforçado por estes gestos, em certas ocasiões, é tão importante quanto respirar.

“Leve os jovens a enxergar os singelos momentos, a força que surge nas perdas, a segurança que brota no caos, a grandeza que emana dos pequenos gestos!” Augusto Cury

Acrescentando leveza

A vida é dura demais, e propõe desafios em níveis que nem sempre estamos preparados para enfrentar. Ela, também, é curta e oferece janelas de oportunidade que se fecham. Portanto, mesmo que soe como um chavão, temos que aproveitar os segundos que temos, fazendo escolhas sábias. Pois, o agora já se transformou em passado. Mas, o tempo bem usado, pode ser nosso grande aliado. Não temos opção de retroceder em alguns casos; já que, nem sempre o conserto de uma escolha errada é factível. Assim como, nem sempre temos consciência do valor do outro, até que deixe de conviver conosco. Porque, o valor que cada ser humano tem para nós, está intrinsecamente atrelado ao nosso olhar.

Portanto, temos poder de transformar alguns minutos, ou quem sabe horas da vida de alguém. Certamente a mudança pode ser benéfica ou maléfica. Ou seja, o tom de voz, a escolha das palavras ou do momento certo de expressar, é o que separa a comunicação eficiente da desastrosa. Por isso, cada componente do que comunicamos transforma a mensagem em algo fácil ou difícil de digerir. Já que, somos capazes de gerar esperança ou desânimo e, inegavelmente; temos capacidade de expressar empatia com pequenos movimentos na direção de quem conta conosco. O egoísmo, no entanto, nos isola e limita. Certamente, perdemos muito mais quando escolhemos reter do que quando nos doamos.

“É insaciável o desejo de doar-se a quem mora em nosso pensamento.” Daniel Bueno

Fazendo declarações

“Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram.” Machado de Assis

Nosso ser comunica mensagens o tempo todo. Por isso, podemos iluminar o ambiente em que estamos ou torná-lo denso. No entanto, não se trata de buscar um tipo de equilíbrio que nunca nos abale. Ou seja, que cobre de nós um tipo de imunidade que certamente não somos capazes de sustentar. Trata-se apenas de se permitir ser visto; apoiando-se na vulnerabilidade para declarar que sabemos como o outro se sente. É, também, escolher parar e prestar atenção, desviando o olhar de nosso próprio umbigo. Pois, há poucos metros, ou quem sabe centímetros, pode haver alguém precisando de doses de quem somos.

Contudo, quando a distância dificulta o contato; um telefonema, um bilhete, um recado, podem ser excelentes opções. Já que, tem valor qualquer iniciativa que demonstre o quanto nos importamos e sentimos falta, de quem nem sempre pode estar presente. A vida nos conduz por caminhos distintos; separando amigos e familiares por diversos motivos. Portanto, por mais legítima que sejam as motivações que respaldam cada escolha feita, nada substitui o papel de algumas pessoas em nossa vida. Por isso, precisamos despertar nossa sensibilidade. Uma margarida pode deixar de ser simplesmente margarida, se a entregarmos a alguém. Assim como uma pessoa deixará de ser mais uma na fila, quando nos dirigimos a ela com respeito e consideração.

Lutar em amor.

Lutar por uma causa é legítimo e imprescindível. Mas, precisamos promover aproximação e não distanciamento; aprendendo a lutar em amor.

Lutar pela defesa de um território ou posicionamento é legítimo. Já que, muito pior que uma derrota em qualquer campo de batalha, é a apatia que nos mantém estagnados. Nascemos com a necessidade de conquista e com o anseio de avançar. Inegavelmente, o principal combustível desta guerra são nossos sonhos e ideais. De maneira idêntica, nossa ótica da vida e a maneira como nos percebemos são determinantes no papel que exercemos. Alguns percebem-se conclamados a lutar incansavelmente por suas causas. Consequentemente são movidos pelas metas que estabelecem e não temem qualquer nível de confronto.

Outros, no entanto, podem assumir posicionamentos menos ofensivos, quase neutros, porque não convivem bem com o enfrentamento. Seja qual for o perfil que tenhamos, é fato que temos um conjunto de valores que rege nossas escolhas. Por consequência, quer gostemos ou não, ao longo de nossa existência, esbarramos em pessoas que pensam diferente de nós. Nem mesmo dentro de uma mesma família existe consenso. Pois, teoricamente, pessoas expostas a uma mesma criação ou ambiente, deveriam ter reações semelhantes. Nada mais se distancia da verdade do que supor que são apenas estes os fatores que formam quem somos.

Certamente nossa criação, o lugar onde vivemos, nossa classe social, nacionalidade e muitos outros fatores influenciam a composição de quem somos. No entanto, cada ser humano é único e possui capacidade de fazer escolhas que podem muito bem contrariar a parcela da sociedade em que está inserido. Considerando que fomos criados para viver em comunidade e que o convívio com nosso semelhante nos enriquece, urgentemente, precisamos encontrar o equilíbrio entre a expressão de nossa identidade e a ofensa e o desrespeito. Obviamente não gostamos da ideia de ter qualquer direito à liberdade de expressão tolido. Mas, a máxima que diz que minha liberdade acaba quando começa a do outro, é muito verdadeira.

“O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.” Albert Einstein

Unidade na diversidade

Buscar unidade em tudo que vivemos nem sempre é possível. Mas a vida em sociedade exige que se busque soluções civilizadas de convívio. Outro fator importante a ser considerado é o fato de que a unidade só é promovida onde existe diversidade. Não teria sentido buscar unidade em algo que, por natureza, já é similar. Já que, onde as semelhanças já foram estabelecidas, não há necessidade de construir unidade. Pois, ela é intrínseca. O desafio nasce, portanto, quando pensamentos antagônicos e opostos são apresentados. Neste momento temos que escolher não desumanizar quem pensa diferente de nós. Porque, a guerra que travamos, seja defendendo um território ou tentando avançar na direção de um alvo; não deve ser ganha a qualquer custo.

Lutar usando armas que destruam o direito e espaço do outro; em benefício próprio, nunca será a melhor estratégia. É sabido que toda e qualquer guerra pressupõe baixas. Ou seja, na batalha as perdas acontecem, e os que estão na linha de frente são os mais afetados. Inevitavelmente as grandes conquistas da humanidade e os avanços civilizatórios foram gerados em meio ao posicionamento de uns poucos que não temeram oposição. Pois, quanto maior a causa e a mudança que desejamos promover, tanto maior deve ser nossa determinação de viver e morrer por ela.

“Quem não tem uma causa pela qual morrer não tem motivo para viver.” Martin Luther King

Lutando em amor

Jesus foi um grande revolucionário. Ele nasceu sabendo que Sua morte era o principal destino de Sua vida. Pois, sabia que através dela reconciliaria a criatura com o Criador. Ele nunca enganou os que desejavam segui-lo, antes alertou-os para a importância de imitarem Seus passos. Ou seja, os que quisessem Segui-lo, deveriam tomar sua cruz, rumando para o lugar de morte. Ele não incentivou a guerra com lanças e flechas. Antes, sofreu como uma ovelha muda diante de Seus tosquiadores. No entanto, tinha uma causa pela qual estava disposto a morrer. Seus ensinos demonstraram que a verdadeira batalha é ganha no lugar de rendição.

Pois, é quando oferecemos a face ao que nos bate, que provamos acreditar no valor do que proferimos. De maneira idêntica, ao perdoarmos quem nos ofende, direcionamos nosso foco para o que tem valor eterno. A compreensão da fragilidade de nossa existência, à luz da eternidade; bem como da importância de nossa vida; certamente, é o equilibra a batalha. Porque, nascemos para deixar nossa marca. Já que, ninguém pode fazer ou substituir nosso papel na história da humanidade. No entanto, nossa vida se esvai muito rapidamente e o orgulho e a altivez não são bons mestres.

Por isso, ao assumirmos o protagonismo de nossa vida temos que, essencialmente, permitir que o outro assuma seu protagonismo, também. Portanto, lutar por nossos ideais é legítimo e imprescindível. Mas, a verdadeira motivação da luta deve ser a promoção do amor. Qualquer causa que não objetive diminuir a distância entre os seres humanos é, no mínimo, vazia de significado. Aprender a lutar em amor é abrir mão de ter razão em alguns momentos. É também saber ouvir e oferecer empatia ao que discorda de nosso ponto de vista. O verdadeiro grito é aquele que damos ao morrermos pelo outro, e por aquilo que ele não compreende ou valoriza no momento.

“Ser grande, é abraçar uma grande causa.” William Shakespeare

Esquecer é tão importante quanto lembrar.

Tanto esquecer das coisas ruins, quanto lembrar das conquistas, são chaves que nos catapultam na direção de nossos sonhos.

Esquecer de algumas coisas, permitindo-se virar a página, é tão importante quanto lembrar do que de bom nos acontece. A dosagem adequada do esquecimento dependerá sempre do quanto a lembrança nos atormenta e limita. Pois, embora nosso cérebro absorva e registre os eventos traumáticos de forma automática, temos opção de enfraquecê-los. Ou seja, revisitá-los com frequência fará com que o gosto amargo volte ao nosso paladar emocional. Ao passo que substituí-los por memórias recentes e resignificá-los é o caminho de quem busca superação.

Sabe-se que os registros de eventos positivos e negativos constituem nossa estrutura emocional e de pensamento. Por isso, temos que parametrizar nosso filtro interno para que ele descarte com mais rapidez aquilo que não nos beneficia. Ou seja, ao contrário do que pensam alguns, temos capacidade de estimular estes registros ou enfraquecê-los. Fazemos isso de forma instintiva, mas temos que ser intencionais em algumas circunstâncias. Ao nutrir o bem que recebemos ou nossos acertos, sendo gratos, estamos fortalecendo memórias positivas. De maneira idêntica, se não valorizarmos o que de mau nos acontece e os erros cometidos, eles desvanecem.

Esta regra da natureza vale para qualquer planta que desejemos cultivar. Isto é, aquela que for adubada, aguada e estiver sendo exposta ao sol na medida certa, será a que mais facilmente se desenvolverá. Nossas memórias reagem da mesma forma, já que podem ser fertilizadas com a atenção que damos a elas. Não se trata, no entanto, de pensar positivo apenas. Isto seria muito simplista e ignoraria a complexidade de cada ser humano. No entanto, sabe-se que os níveis de otimismo e pessimismo com que encaramos os desafios determinam nosso avanço e a superação almejada.

Aprendendo a desapegar

Apego é uma vinculação obsessiva a uma pessoa, a um objeto ou a ideias. Quando temos dificuldade em desapegar, sofremos mais com relação a qualquer necessidade de mudança. Ou seja, a obsessão vinculada a uma ideia ou circunstância nos conecta em níveis exagerados e maléficos ao que pensamos que nos define. O desapego acontece quando percebemos que não somos definidos por um objeto, circunstância ou pessoa. Temos uma capacidade muito grande de nos reinventar e poucos exploram este potencial. O medo do desconhecido e as muletas nas quais nos apoiamos constituem um reforço a tudo de negativo que abrigamos.

O desafio pode assumir proporções gigantescas quando adiamos a decisão de lidar com o que nos oprime. Procrastinar esta investigação ou simplesmente ignorar a existência destes focos de dor e desajuste nos aprisionam. A autopiedade e o isolamento também podem ser sutis e contribuem significativamente para o aumento do desconforto. Portanto, quando deixamos que as pessoas vejam quem somos e assumimos nosso protagonismo em relação ao que abrigamos, rumamos na direção da liberdade. Por isso, podemos e devemos exercer controle do que acolhemos como verdade, sem temer descartar e desapegar daquilo que nos limita. Ao julgarmos menos os outros seremos menos rígidos conosco.

“Cada vez que você faz uma opção está transformando sua essência em alguma coisa um pouco diferente do que era antes.”  C S Lewis

Tendo coragem para prosseguir

Coragem não é ir sem medo, é ir apesar do medo. Qualquer situação que pareça maior do que nós tende a nos intimidar. O tamanho de cada circunstância é determinado pelo valor que atribuímos a ela. Ou seja, podemos corajosamente decidir amplificar nossas conquistas, consequentemente, reduziremos a influência do medo. Já que, não se pode alimentar simultaneamente pensamentos tão antagônicos, um deles fatalmente desvanece. A ousadia de se perceber com potencial de superação e capacidade de recomeçar é inerente ao ser humano. No entanto, nem todos escolhem explorar seu potencial, contentando-se em viver na média.

“Se você estiver sempre tentando ser normal, você nunca vai saber o quão incrível você pode ser.” Maya Angelou

A decisão de abandonar, esquecer ou deletar os estilhaços de alguma batalha perdida, inicia no exato momento que identificamos o rombo que eles abriram em nosso interior. Fechar estas portas e curar estas feridas é a chave que abre janelas de oportunidades. Pessoas com biografias bem traumáticas se destacam na multidão quando usam sua dor com empatia. Pois, em níveis diferentes, cada um de nós já foi ferido e perdeu alguma guerra. Os vencedores e grandes heróis são os que, portanto, percebem-se de forma correta e não se deixam intimidar pelo tamanho do inimigo que enfrentam. 

Somos merecedores

Só acolhemos aquilo que achamos que merecemos. Portanto, denunciamos possuir baixa autoestima, quando abrigamos críticas e rótulos de pessoas que nos desprezam, conformando-nos com eles. Pois, sempre que nosso valor sofre revezes com o que é externo, nossa estrutura interna é testada. Ao nos abalarmos em demasia diante dos conflitos, abrimos oportunidade para que o desânimo e a derrota se instalem. Os presentes que a vida nos oferece nem sempre possuem uma embalagem adequada. Por isso, temos que ter coragem de desembrulhá-los e, se necessário, customizá-los. Desta capacidade depende o avanço de nossos sonhos e projetos.

“Não havia sentido em oferecer a uma criatura, por mais inteligente ou amável que fosse, um presente que essa criatura seja, por natureza, incapaz de desejar ou receber.” C S Lewis

Devemos almejar o que é saudável e não o que nos contamina e envenena. Abrigar sentimentos negativos e amargura em relação aos que falharam conosco é um tiro em nosso pé. Já que lesiona muito mais nosso interior do que a pessoa que é alvo de nosso rancor ou ressentimento. Existem sentimentos tóxicos que devemos banir de nossa mente. Portanto, quando sorrateiramente quiserem ocupar o palco de nossas emoções precisam ser dispensados com rapidez. Existem sentimentos nobres que habitam nossa alma, como alegria, contentamento, gratidão e otimismo. Ao regarmos estas árvores, suas raízes desalojarão as ervas daninhas que nos afetam.

O suave voa mais alto.

O que é suave carrega características de sabedoria e segurança. Quem se vale da agressividade ou silencia, abandona seu lugar de influência.

Tudo que é suave, voa mais alto. E o que é suave não cai; pousa. Seja uma palavra ou gesto de desaprovação; tudo, absolutamente tudo que expressamos com suavidade, tende a ser melhor aceito. Porque a suavidade é um tipo de tempero que equilibra e inibe o argumento ferino. É também aquele ingrediente que acrescenta ternura e empatia ao que verbalizamos. O carinho sempre une; enquanto a agressividade tende a separar. Os ruídos em nossa comunicação são fundamentados basicamente em alicerces débeis de nossa alma. Ou seja, denunciam fragilidades de nosso caráter e feridas que hospedamos.

A dor que abrigamos no íntimo, é aquela que expressamos quando alguns gatilhos são acionados. Nem sempre são as palavras que a denunciam. Por vezes é no silêncio que ela se aloja. Portanto, defender um ponto de vista com agressividade ou se calar completamente, são dois lados da mesma moeda. Já que, aquele que fundamenta sua coerência na agressão, pensa com isso intimidar quem o ouve. Já o que cala simplesmente, como se superior fosse, oferece indiferença a quem com ele não concorda. Diz-se que o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. Portanto, o desrespeito oferecido através do silêncio ou do discurso agressivo revelam orgulho e ausência de empatia.

Escolher a suavidade como árbitro das diferenças é sinal de inteligência emocional. É, também, demonstração de valorização do outro. Pois, cada um de nós é único e merece ter espaço para manifestar opiniões e fazer escolhas. Por isso, qualquer comportamento que iniba nosso livre arbítrio ou limite nossa expressão constitui uma violação de nossa identidade. Porque, quanto mais opressiva for a cultura de uma nação, instituição ou família, tanto maior será o dano causado sobre quem somos. Em contrapartida, quanto mais liberdade tivermos para expressar nossa essência, tanto maior será o amadurecimento de nossa relação com nosso próximo.

A escola da vida

A vida passa depressa e não podemos arriscar perder esta carona. O passado nem sempre pode ser ajustado, mas temos o presente para viver. Por isso, temos obrigação de fazer diferente, quando almejamos resultados distintos. Pois, se continuarmos lidando com os desafios e diferenças com a mesma postura, colheremos resultados idênticos aos que desejamos evitar. Mesmo quando temos uma trajetória linear e de sucesso no que se refere aos relacionamentos, temos espaço para crescer. Ou seja, nunca sabemos tudo ou esgotamos as possibilidades de estreitar a relação com os que nos rodeiam. Especialmente com aqueles que divergem, oferecendo contraponto à nossa ótica.

Portanto, oferecer ao outro a oportunidade de ser quem é; é antes de tudo, uma demonstração de respeito. Os culpados espalham culpas; já os que amam espalham amor. Só vamos achar amor de verdade, quando o ódio virar saudade. E a saudade tem fronteiras, daqui para frente já é saudade. Por isso, desperdiçar oportunidades de expressar afeto, nunca é sábio. Devemos antes escolher suavizar os momentos desafiadores com um olhar carinhoso e otimista. É disto que a vida é feita. Pois, cada um de nós possui desafios pessoais que podem ser amenizados no convívio com quem se dispõe a andar do nosso lado de forma coerente.

O dedo que acusa, o grito, ou qualquer forma de manifestação violenta não agrega. Seja qual for a circunstância, nada justifica ou valida o descontrole emocional. Porque tanto com palavras, como com gestos e escolhas, ferimos facilmente os que nos rodeiam. Nossa negligência e omissão também representam uma pancada, nos que almejam parceria. No jogo da vida, não temos opção de escolher o anonimato, já que nossa marca é deixada quando agimos e quando nos esquivamos. O retraimento é uma escolha. E quem escolhe se omitir, está revelando suas prioridades e um pouco de seu caráter inseguro e egoísta.

Só temos o hoje

Não podemos adiar a vida. Porque, só temos o hoje. Por isso, deixemos o amanhã para amanhã. E o amanhã no controle de Deus. Vivamos o hoje com toda intensidade que pudermos, sem negligenciar as oportunidades de aprender com cada circunstância. De maneira idêntica, não é sábio ignorar quem está ao nosso redor, como se não fizesse parte de nosso desenho. Cada pessoa tem algo a nos ensinar e precisa de um pouco de quem somos. Nenhum de nós sentiria solidão ou abandono se escolhesse se relacionar de maneira correta. Ou seja, temos inúmeras oportunidades de repartir quem somos e absorver um pouco de nosso semelhante.

O hoje nos oferece a oportunidade do erro e do acerto. E, mesmo quando erramos, estamos avançando, porque existe aprendizado disponível. Ao aprendermos de forma dura com nossa falha, a maturidade toma forma e nosso coração é sensibilizado. Portanto a humildade de reconhecer o erro é o que nos capacita a perdoar e estender a mão com empatia a quem sofre. A superficialidade dos relacionamentos não acrescenta nada à nossa trajetória. Mas a interação e o atrito gerado através deles nos molda e aperfeiçoa. Por isso, os que desistem facilmente de lutar por seus sonhos, afastam-se dos que podem ser peça fundamental na construção deles.

A suavidade está presente nas pequenas criaturas criadas e na natureza de forma geral. A perfeição de uma pétala ou de um floco de neve revelam um Criador detalhista e que nos criou à Sua imagem e semelhança. Deus ama o belo e somos atraídos por aquilo que expressa beleza e suavidade. Portanto, podemos escolher ser canais de aceitação e de beleza. Porque cada um de nós tem potencial de amar e expressar o que tem poder de transformar o ambiente em que estamos. Somos agentes da mudança que desejamos e ela não será alcançada de forma imposta. Pois toda mudança começa de dentro para fora. Por isso, começa em nós para atingir aos que estão perto.

“O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos.” G. K. Chesterton

Dentro do não, existe um sim

As aparentes negativas, recebidas ao longo da jornada, são oportunidades de mudança. Pois, cada não carrega dentro dele um sim que precisamos explorar.

Dentro de cada não recebido, existe, pelo menos, um sim. Pois, cada porta que se fecha ou oportunidade adiada, contém uma enormidade de possibilidades. Já que, são muitos os caminhos que podemos explorar para chegar aos objetivos que temos. Inegavelmente nem sempre é fácil se desvencilhar da maneira engessada de pensar. Mas é exatamente isto que temos que fazer quando as circunstâncias nos encurralam em direção diferente da desejada. Os grandes inventores sempre foram pessoas curiosas, questionadoras e observadoras. Muitos não se classificam como pessoas criativas, contudo todos temos parcelas de criatividade que podemos explorar.

Certamente o primeiro passo é não classificar as negativas que recebemos como derrota. Quando acrescentamos um olhar otimista ao nosso cotidiano, somos capazes de enxergar o copo meio cheio. Pois, o que enxerga o copo meio vazio está olhando para o mesmo lugar, porém, transfere seu pessimismo para o que pode ser uma oportunidade. Ninguém que desanima facilmente diante dos desafios e desvios da jornada, consegue tocar nos alvos estabelecidos. Ou seja, todo objetivo traçado ou planejamento feito sofrerá reveses. Já que as digitais de nossa humanidade permeiam tudo o que fazemos. Nossas falhas e as de quem nos cerca inevitavelmente imprimirão algum nível de instabilidade e incerteza ao nosso dia a dia.

Por isso, é muito importante entender que o não carrega um sim dentro dele também. Talvez o sim esteja apontando em uma direção inversa e exigirá de nós algum giro de 180° de nosso olhar. Contudo, não basta girar o olhar se nossos pés permanecem fixos na posição inicial. O desconforto ocorre quando não desistimos de algumas coisas para poder enxergar outras. É impossível compatibilizar alguns destinos com escolhas previamente feitas, que demonstraram não ser inteligentes. Temos que aprender com os erros e admitir honestamente nossos fracassos, sabendo que são parte do processo. O aprendizado é a soma do que aprendemos e incorporamos a quem somos.

Ousando abandonar

O aparente abandono de uma estratégia, pode bem representar a capacidade de criar um caminho não explorado. O principal inimigo a ser derrotado neste caso é o medo. O medo do julgamento, da falha, do risco ou do fracasso nos limita. Seja qual for a circunstância, quando eliminamos o limite imposto pelo medo, somos capazes de olhar mais longe. Embora nosso medo seja legítimo em algumas circunstâncias, ele não deve nos paralisar. O novo assusta em alguma medida, mas quando percebemos que temos capacidades não exploradas, lidamos com os desafios como oportunidade de crescimento.

O olhar livre é capaz de observar as coisas sob a perspectiva correta. O conselho de pessoas que não estejam intimamente envolvidas nas circunstâncias pode contribuir. Já que, nossas emoções também influenciam nossa ótica. Uma pessoa que olha de fora às vezes enxerga o que nosso olhar é incapaz de capturar. Reconhecer que precisa de conselho ou de ajuda não é sinal de fracasso ou fraqueza. Perceber-se como alguém limitado é interagir apropriadamente com a dinâmica da vida; que nada mais é do que um percurso dinâmico e inesquecível. Pois, ninguém nasceu para viver isolado ou sozinho. Ainda que para alguns seja mais difícil do que para outros admitir isso, fomos criados para viver em comunidade. Porque o outro carrega um pouco do que nos falta e vice-versa.

Ter coragem de abandonar velhas práticas, abrindo-se para novas oportunidades areja nossa alma. Precisamos de motivação para levantar todos os dias. A mesmice e a falta de perspectiva nos aleijam. Ou seja, alguém que se anula ou desiste de lutar por seus sonhos já é um derrotado. Os rótulos que carregamos são poderosos e temos que ter ousadia de nos distanciar deles. Fazer diferente, desaprender, reaprender e recomeçar são verbos conjugados por pessoas de valor. Somente os verdadeiros guerreiros não se intimidam e lutam contra os inimigos sabendo que possuem chance de vitória. Pois, ficar parado já é uma derrota maior do que qualquer perda eventual de quem se movimenta.

O tempo é um belo juiz

O tempo é um juiz muito sábio. Ele revela os acertos e erros cometidos e acrescenta significado à nossa vida. Ao olharmos para trás, inevitavelmente reconheceremos as consequências de más escolhas, assim como o benefício de boas escolhas. Contudo, não podemos negligenciar o aprendizado que os erros agregaram à nossa caminhada. Porque somos o resultado desta trajetória. Tanto o lugar de nascimento, quanto nossa criação, personalidade e diversos outros fatores combinados, formam quem somos. É desta combinação que nasce nossa peculiaridade e onde está fundamentada nossa identidade única.

Por isso, ao assumirmos o protagonismo de nossa existência, estaremos fortalecendo nossa identidade. Nossa postura de enfrentamento determina o quanto estamos dispostos a brigar por aquilo em que acreditamos. Nossa impressão digital deve estar registrada nos lugares por onde passamos e nas pessoas com quem convivemos. É disto que a vida é feita. Não devemos temer as escolhas e sim o fato de delegarmos algo que nos pertence. Ninguém pode ocupar este lugar em nossa vida sem nos colocar como coadjuvantes de nossa história. Ou seja, o simples fato de temermos escolher, retarda e paralisa a expressão de quem somos.

Cada um de nós será julgado pelo tempo. Ele passa em uma velocidade assustadora e nos confronta. Usufruir da oportunidade de mudar rumos de nossa trajetória é uma dádiva. Não reconhecer estas janelas de oportunidade pode representar uma lacuna importante em nossa biografia, que nem sempre pode ser recuperada. Portanto, olhar para o não como uma das respostas possíveis, sem classificá-lo como derrota, é o início do entendimento que nos leva para algum sim escondido. As negativas recebidas ao longo da vida podem ser os desvios necessários que, quando bem calculados, acrescentam velocidade e significado aos nossos dias.

“A maneira de apreciarmos uma coisa é dizermos a nós próprios que a podemos perder.” G. K. Chesterton

O silêncio fala

Existe um silêncio que extrai de nós as respostas que não são dadas com palavras. A quietude é reveladora.

O silêncio que fala é aquele que extrai de nós aquilo que nos define. Ou seja, aquele que não depende das palavras, pois transcende o que elas são capazes de expressar. Diz-se que a intimidade de duas pessoas pode ser testada pela capacidade que elas possuem de estar em silêncio na companhia da outra. Existem momentos que não temos o que dizer, ou simplesmente escolhemos não verbalizar algo. O verdadeiro silêncio inicia de dentro para fora. Já que o maior ruído que ouvimos não é aquele produzido pelo trânsito ou pelos gritos de alguém. O ruído interno é o mais difícil de ser silenciado.

Ao longo de sua existência, a humanidade já viveu crises e já lidou com epidemias e desafios. Mas, possivelmente nenhuma delas foi tão globalizada e divulgada como a pandemia atual. Não se trata só de um convite ao isolamento social, trata-se de lidar com o silêncio. Pois, não foram só as ruas e o comércio que ficaram silenciosos, nosso interior precisou silenciar. Contrastando drasticamente com nossas casas, que ficaram naturalmente mais habitadas e barulhentas; fomos encurralados pelo silêncio. 

Nos deparamos com o silenciar do consumo, da produção, da pressa e da rotina. Tudo parou de repente, e ficamos no vácuo. Pessoas de culturas tão distintas e únicas se uniram em um silêncio que invadiu o planeta. Nosso dia assumiu uma rotina diferente; pois, tivemos que nos reinventar. Para alguns foi natural e simples aquietar e se deixar moldar. Outros, contudo, se debateram e lidaram com conflitos internos e externos. Todos foram afetados, independente de classe social, crença ou cultura. O vírus infiltrou-se por nossos poros e não selecionou sua vítima por outro critério que não fosse estar viva.

Um inimigo comum

Mesmo os melhores filmes de ficção, não retrataram a realidade dura e inesperada que nos acometeu. O número de mortos aumentando a cada dia, enquanto lutamos contra um inimigo invisível, microscópico e real. Pois, quando o inimigo externo nos obriga a permanecer contidos, temos chance de avaliar com o que ocupamos nossos dias. Inegavelmente, cada um em alguma medida, passou a utilizar suas horas com novas atividades. Algumas muito prazerosas, outras nem tanto.

Mas, o fato inegável é que não nos foi dada opção de não fazer parte do momento, ou de simplesmente ignorá-lo. Fomos arrastados para dentro de um túnel e não sabemos ao certo quando veremos a luz novamente. Mas, sem dúvida, não seremos mais os mesmos. Descobrimos como nos apoiar na tecnologia para diminuir distâncias. Passamos a valorizar e ter saudade de pequenas rotinas e encontros que foram subtraídos abruptamente do nosso cotidiano.

O olhar dos mais conscientes se voltou para o idoso, para o portador de comorbidades, para o frágil; que talvez não sobreviva ao terrível inimigo. Descobrimos que existe dentro de nós um senso comum que naturalmente nos leva a estender a mão. Sim, a solidariedade tímida e lentamente passou a fazer parte de nosso dia. Certamente o egoísmo e a ausência de empatia também se fez presente. Mas, se formos honestos, ela sempre esteve ali, misturado com um pouco de quem somos.

As pequenas coisas

Alguns gestos emocionaram e surpreenderam. Outros chocaram e nos deixaram estarrecidos. Mesmo na presença de um inimigo comum, muitas distrações e apelos atraíram o olhar de alguns, desviando-o do verdadeiro alvo. Porque, em um momento de crise, o bem e o mal do outro nos afeta. Este vírus deixou isto claro e devemos nos esforçar para não esquecer esta lição. Pois, ninguém vive sozinho. Somos parte de um todo, quer admitamos ou não.

Independentemente de qual seja a elaboração da narrativa; ela passa pela mente brilhante do cientista, profissional da saúde, psiquiatra e daquele que mal sabe assinar seu nome. Certamente o grau de instrução contribui na leitura ampla e completa das ramificações da crise. Mas, não é capaz de extrair gestos de solidariedade maiores ou menores do que aqueles oriundos dos menos favorecidos. Já que nossas ações e iniciativas nascem no coração e não na mente.

Temos oportunidade de servir e de calar. Descobrimos que alguns se importam mais do que outros. E que outros se importam menos do que alguns. A lógica é uma só, não podemos oferecer o que não somos. Damos sempre um pouco de nós em cada escolha que fazemos e seremos lembrados ou esquecidos por elas. Pois não existe gesto menor ou maior quando o que está em jogo é a vida do outro. O que veio para superfície foi nossa essência. Nossos medos e bravura; assim como nossos ideais e nosso preconceito.

“No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos.” Martin Luther King

Fomos todos nivelados

A crise nivelou-nos, enclausurando cada um dentro de um mundo particular; com o qual nem todos possuem familiaridade. Ou seja, descobrimos capacidades desconhecidas e fraquezas ignoradas. As várias correntes políticas apontam em direções distintas e nenhuma possui uma resposta convincente. Esta dificuldade não é do brasileiro apenas. É, também, do cidadão e do líder de qualquer governo. A economia foi sacudida e exigirá níveis de sacrifícios que ainda não podem ser mensurados. Mas, por mais que o cenário político e econômico seja desafiador e real, a resposta depende de cada um.

Precisamos mais do que uma vacina ou um medicamento que nos resgate. Nossa necessidade supera a da inexistência de leitos hospitalares e profissionais da saúde suficientemente treinados. Temos urgência de encontrar o sentido de nossa existência. Os dias mais longos, são seguidos por noites intermináveis. A vida deve ser mais do que alimentar-se, dormir, pagar contas e criar e educar filhos. O silêncio nos levou a fazer perguntas sobre o verdadeiro sentido da rotina passada. A volta ao normal, foi infectada por um novo olhar que questiona sadiamente o verdadeiro sentido da existência e dos vínculos.

Fomos sacudidos e não estamos totalmente recuperados ainda. Precisamos incorporar lentamente o aprendizado destes dias de confinamento. É impossível voltar a fazer escolhas com os mesmos parâmetros. É inconcebível permanecer em silêncio depois de descobrirmos que o outro importa e nos completa. A mudança precisa começar por cada um. Porque cada vida ceifada será sempre uma lembrança que é nossa obrigação viver intensamente. A vida é um dom de valor inestimável e não há nada externo que possa mudar isto. Nestas últimas semanas, lutamos conjuntamente por nossa vida e de nosso vizinho. Por isso, esta consciência deve permear nossas relações a partir de agora em medida diferente.

Em tempos difíceis

Tempos difíceis revelam nossa essência e no que alicerçamos nossa vida.

Em tempos difíceis nossa essência é testada e exposta. A pressão externa ou interna revela nossas entranhas. Nossos valores são testados, bem como nosso senso de comunidade e autopreservação é medido. Quando o que está em jogo é nossa integridade e nosso espaço é ameaçado, temos a tendência de usar as armas que temos. No entanto, nem todas elas são legítimas e adequadas. O evento do Covid-19, que desencadeou esta pandemia mundial, pegou a todos de surpresa. Alguns países e comunidades talvez estivessem melhor equipados ou mais acostumados a mobilizarem-se em tempos de crise. Mas o fato é um só, todos fomos convocados a sacrificar um pouco de quem somos e do que temos.

O confinamento não é fácil ou prazeroso. Ele foi abraçado por alguns com altruísmo e estavam convencidos que podiam expressar empatia com os que se encontravam nos grupos de risco. Contudo, alguns se sentiram violentados em sua liberdade e acharam que tinham direito de protestar. A democracia oferece oportunidade e torna legítima toda forma de expressão. Mas, em cada iniciativa ou manifestação, um pouco de quem somos de fato, veio para superfície. Não se trata apenas de dividir angústias e medos, ou de demonstrar solidariedade e revolta. O ser humano tem e sempre terá, em tempos de crise, a chance de se fechar em seu egoísmo ou de abraçar o outro e repartir o que tem.

Inegavelmente atitudes e escolhas altruístas emocionam e inspiram. Assim como, os atos de aproveitadores inescrupulosos agridem e chocam. A verdade é que o ser humano terá sempre diante de si a chance de escolha. Podemos nos reinventar e sair de nossa crise individual e comunitária melhores, ou piores. Sempre será uma escolha pessoal, pois, não nos é facultada a oportunidade de terceirizar a tarefa. A cada um foi concedido livre arbítrio e escolhemos diariamente se olhamos para o copo meio vazio ou meio cheio. Não se trata apenas de ser otimista ou pessimista. É uma questão que envolve a essência da vida. Ou seja, o motivo principal pelo qual existimos.

Temos um exemplo maior

No mundo cristão, que comemora neste final de semana a Páscoa, o exemplo de Jesus é a base sobre a qual edificamos nossas escolhas. Ele abraçou a cruz, não porque precisasse dela, mas pelo amor que tem pela humanidade. Ele sendo Deus, assumiu a forma humana, identificando-se com nossa fragilidade. Foi deste lugar de fraqueza e esvaziamento que Ele estendeu as mãos para todo aquele que sofre e que se percebe como alguém incapaz de prosseguir sozinho. Ou seja, os que reconhecidamente assumem ser criatura, que necessita da intervenção e ajuda de um Criador. Ao reconhecerem nEle seu exemplo, abraçam também o entendimento que precisam carregar sua cruz.

No entanto, ao contrário do que muitos pensam, a cruz não é uma situação externa ou uma dificuldade que enfrentamos. Nem tão pouco é o que uma pessoa representa em nossa vida. A cruz é um lugar de morte do nosso eu. Assim como aconteceu com Jesus, é ali que nossa vontade morre para que outros se beneficiem desta morte. A cruz mata nosso egoísmo, nossa independência, nossa ótica limitada. A cruz viola nossa integridade e expõe nossas entranhas. Ela vem acompanhada de dor e sofrimento, não por erros cometidos ou falhas que cobram a conta de uma dívida inquestionável.

A dor da cruz é causada pela entrega consciente e voluntária de quem somos e do que temos; em favor do outro. Muitos profissionais da saúde têm assumido sua cruz nestes dias. Outros tantos, de forma variada e em áreas distintas têm feito sacrifícios silenciosos e anônimos para servir ao outro com o que possuem. Dividindo quem sabe um prato de comida ou até um teto. Uma máscara, uma ida ao mercado, um sorriso à distância, uma ligação para dar oi. Os pequenos gestos são valorizados e representam um oásis no deserto que alguns enfrentam. A aridez de algumas situações pode ser amenizada quando um de nós escolhe abraçar a cruz.

A páscoa diária

A páscoa é sim um evento anual celebrado na comunidade cristã ao redor do mundo. Com costumes variados e rituais específicos; é a lembrança da morte sacrificial do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Mas todo discípulo verdadeiro de Jesus é convidado por Ele, a tomar sua cruz e segui-Lo. Não se trata de uma opção, é antes um pré-requisito para todo aquele que reconhece nEle o Caminho, a Verdade e a Vida. Nossa fé nEle não pode ser teórica, ela precisa se transformar em ação. Os tempos de crise são especialmente oportunos para abraçarmos a cruz.

No caminho que Jesus trilhou até o Calvário, Ele não revidou as ofensas que lhe faziam. Tão pouco se justificou diante dos que O acusavam de crimes que não havia cometido. Igualmente, não ofendeu-se com os que O abandonaram, nem sequer condenou seus algozes. Do auge de Sua dor e vergonha, Ele ofereceu perdão aos que o maltratavam. Ele amou os que eram detestáveis; sem reservas e até o fim. Foi deste lugar que Ele ofereceu a mim e a você a oportunidade da vida eterna. Não de um paraíso barato cheio de facilidades e conforto, mas de um acesso a um lugar frequentado por pessoas como Ele.

O céu não é apenas um lugar onde Ele habita. É um lugar livre de egoísmo, de acusação e de vergonha. É um lugar para onde irão os que nesta vida optarem por pavimentar este caminho com renúncia e com a parceria e capacitação de um relacionamento construído com Ele. Seja em tempos de Covid-19 ou em tempos de prosperidade, Ele ocupa o centro de nossas escolhas e o fundamento de nossos valores. Precisamos dEle e de Seu sacrifício porque nenhum de nós é bom o suficiente, ou conseguiria vencer sem Sua ajuda. A verdadeira mensagem da cruz, comemorada na Páscoa, é um convite para que cada um de nós tome sua cruz e siga-O para um lugar de morte, onde a verdadeira vida brota.

Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará.” João 12:24-26

FELIZ PÁSCOA!!!

A vergonha é assim

A vergonha é um inimigo dissimulado e poderoso. Ela nos mutila e pode nos paralisar, impedindo que lutemos por nossos sonhos.

“É assim a vergonha da mulher cujas mãos ocultam o sorriso, pois os dentes são ruins, não o grandioso ódio a si mesma que leva alguns a lâminas ou comprimidos ou a um mergulho do alto de belas pontes por mais trágico que seja.

É assim a vergonha de ser ver, de ter vergonha de onde você mora e daquilo que o contracheque de seu pai permite que se coma e se vista.

É assim a vergonha dos gordos e dos carecas, o insuportável rubor da acne, a vergonha de não ter dinheiro para a refeição e de fingir que não se tem fome.

É assim a vergonha da doença oculta – doenças caras demais para se arcar, que oferecem apenas uma passagem gélida de ida.

É assim a vergonha de ter vergonha, o nojo diante do vinho barato que foi bebido, da lassitude que faz com que o lixo se acumule, a vergonha que lhe diz que existe outra forma de vida, mas que você é tola demais para encontrá-la.

Assim é a vergonha real, a maldita vergonha, a vergonha chorosa, a vergonha criminosa, a vergonha de saber que palavras como glória não fazem parte do seu vocabulário, embora entulhem as bíblias que você ainda está pagando.

Assim é a vergonha de não saber ler e de fingir que sabe.

Assim é a vergonha que provoca medo de sair de casa, a vergonha dos cupons de desconto no supermercado, quando o vendedor demonstra impaciência enquanto busca o troco.

Assim é a vergonha da roupa de baixo suja, a vergonha de fingir que seu pai trabalha num escritório como Deus pretendia para todos os homens.

Assim é a vergonha de pedir aos amigos que a deixem diante de uma bela casa do bairro e de esperar nas sombras até que partam antes de caminhar até a desolação de seu casebre.

Assim é a vergonha por trás da mania de possuir coisas, a vergonha de não ter calefação no inverno, a vergonha de comer ração para gatos, a vergonha profana de sonhar com uma casa e um carro novos e a vergonha de saber como são mesquinhos tais sonhos.”

Vern Rutsala

Todos sentem vergonha

Embora a vergonha seja um sentimento universal, ela manifesta-se de formas variadas e raramente é catalogada como tal. Ou seja, gostamos de mascarar nossas reações e medos, classificando-os com nomes mais atrativos. Com isso, contribuímos para o anonimato da vergonha, empoderando-a. Ela se beneficia tanto do anonimato, quanto da crença que só nós lidamos com este desafio. Nada poderia estar mais longe da verdade do que esta afirmação.

Porque a vergonha é algo intrínseco em nossa natureza. Por isso, ela pode ser a mola propulsora que nos inquieta e nos faz buscar superação. Mas, pode também, transformar-se em uma emoção paralisante. Pois o constrangimento que ela promove, especialmente se está oculta, só pode ser eliminado quando confrontado. Já que, sua camuflagem preferida é a mentira de que pode ser eliminada com conquistas.

Pois, uma vitória, por mais legítima que seja, quando alicerçada na vergonha, produz orgulho, altivez. Porque, é inevitável que alguém que prospere em suas iniciativas, tentando livrar-se de algum estigma, pense de si mesmo além do que convém. Inegavelmente, toda distorção que o embaraço produz não pode ser corrigida com uma conquista. O vexame associado a qualquer acontecimento passado ou presente, não é acobertado facilmente. Podemos fazer tentativas honestas de maquiá-lo com episódios de superação, mas eles não são suficientes para corrigir estas distorções.

Envergonhando a vergonha

A arma eficiente contra qualquer vestígio deixado pela vergonha é a vulnerabilidade. Pois, quando expomos a maneira como nos vemos ou os rótulos que recebemos e que nos mutilam, desestruturamos o principal alicerce da vergonha. Isto é, não existe estratégia mais apropriada para desmascará-la do que a exposição do que ela insinua. Muitas pessoas cometem verdadeiras atrocidades tentando livrar-se da dor emocional causada pela vergonha. Elas se auto sabotam e assumem identidades que não correspondem a quem são de fato. Um dos piores danos causados por este tipo de postura, é que ela limita e anula nosso potencial.

Porque todo ser humano possui capacidade de desenvolver-se, crescer e conquistar objetivos. Sem uma perspectiva de vida, nosso dia-a-dia fica maçante e insuportável. Certamente a vergonha não é a única vilã, mas ela acoberta nossos temores e a preocupação excessiva que temos com nossa imagem e com a opinião do outro. Pois, o fato de não reconhecermos nosso potencial e capacidade de superação fortalece a apatia. De maneira idêntica potencializa a sensação de impotência diante de fatos corriqueiros.

Portanto, desmascarar a vergonha é decidir enfrentá-la, expondo as correntes que nos mantêm cativos por anos. Muitos não experimentam nenhum nível de liberdade, pois são reféns de traumas e memórias que foram construídas sobre um alicerce mentiroso. Por isso, quando decidimos assumir posição e o protagonismo de nossa vida, um dos inimigos que precisamos derrotar e denunciar são estes segredos que a vergonha nos fez guardar a sete chaves.