O menino da manjedoura

O nascimento do menino da manjedoura tem significado profundo e aplicação prática na vida do ser humano. No entanto, a escolha é individual e totalmente voluntária. Isto é, temos que decidir que papel Ele terá em nossa vida.

A figura do menino em uma manjedoura consagrou-se como símbolo do cristianismo. Pois, assim como a cruz, a manjedoura e a cena do presépio são imagens vinculadas à fé cristã, que marcam o final e início da vida do Salvador, respectivamente. Mesmo para os que não se identificam com esta expressão de fé e que, portanto, elegem para si outros formatos de crenças, certamente, esta simbologia não é ignorada. Afinal, no mundo ocidental, o nascimento deste menino dividiu a contagem dos anos em antes e depois de Sua passagem pela terra. Ninguém que tenha influenciado a história desta forma pode ser, simplesmente, descartado. Sua trajetória despretensiosa e praticamente anônima inicia em um lugar pouco convencional. Já que, o nascimento de um suposto Rei e Messias, deveria ser cercado da pompa que a circunstância requer.

O alarde, no entanto, ecoou no coração de uns poucos pastores e de alguns reis vindos do oriente, que presenciaram a cena que passava totalmente despercebida do olhar desatento dos que ocupavam-se com sua própria vida. Em meio ao feno, palha, mau cheiro e aparente improviso, nascia o menino que a nação judaica não reconheceu como seu libertador, crucificando-o. Ele, no entanto, foi reconhecido do nascimento até a morte por aqueles poucos que não deixaram que a religião e as tradições sufocassem a verdade para qual Sua vida apontava. Dentre eles estão doze homens pescadores, iletrados que o seguiram por cerca de três anos e meio e de onde saiu, também, um traidor. As pessoas que tiveram olhos para ver e ouvidos para ouvir foram as que receberam por Seus lábios a resposta do que buscavam. Ou seja, foram abençoados com cura, restauração, libertação e encontraram sua real identidade.

Simeão e Ana

Simeão e Ana são dois personagens que identificaram no bebê de poucos dias o Salvador do mundo. Os dois anciãos podiam não ter uma visão física muito acurada, mas com os olhos atentos do coração, contemplaram o que os religiosos e soberanos de sua época não viram. Com os olhos espirituais, identificaram o cumprimento da promessa do Redentor. Isto é, aquele momento coroava suas jornadas que haviam sido edificadas sobre o alicerce sólido de que Deus Criador tinha um compromisso com a criatura. Pois, os que como eles entendem este princípio, dedicam tempo e priorizam este relacionamento, discernindo que o interesse do Criador pelo homem deve ser recíproco para ser real. Porque, qualquer que se perceba como peça do grande quebra-cabeça do universo, esforça-se para corresponder ao papel que foi destinado a desempenhar na companhia e com a parceria de Deus.

Contudo é primordial que, à semelhança do Mestre, tenhamos humildade para celebrar os pequenos e anônimos momentos, sabendo que existe um único par de olhos que nos contempla e diante do qual estamos nus, completamente desprovidos de qualquer subterfúgio, como estava o primeiro homem criado. Sim, somos todos como Adão no jardim do Éden diante do Último Adão. Portanto, não temos razão de buscar aprovação, aceitação ou motivos para tentar impressionar Aquele que nos conhece por inteiro e diante de quem estamos descobertos e para quem somos como pó, pois, dele fomos formados e para ele voltaremos. Por isso, quando esta realidade é desvendada, o nascimento do menino na manjedoura faz todo sentido e encaixa-se, coerentemente, na história que teve início antes da fundação do mundo.

O salvador menino

O primeiro Adão não nasceu menino como o Último Adão, porque ao primeiro foi concedido o privilégio de relacionar-se com Seu criador sem a barreira do pecado. Ele havia sido criado à imagem e semelhança de um Deus amoroso e misericordioso que tem prazer em relacionar-se com a criatura. No entanto, o resgate daquela comunhão diária exigia um sacrifício e Deus estava disposto a fazê-lo. Ele entregaria Seu Filho unigênito, para que fosse transformado em primogênito, incluindo nesta família, novamente, aqueles que desejassem ter relacionamento com Deus Pai. O menino nascia na manjedoura para repartir o Pai conosco, devolvendo-nos a identidade de filhos e imprimindo em nosso espírito a imagem do Deus que é essencialmente amor.

Não por acaso, na época de Seu nascimento, como nos dias de hoje, só seguem seus passos aqueles que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir aquilo que permanece oculto para os que estão cegos pelo orgulho, autossuficiência e independência. Certamente, estas palavras são substituídas por rótulos mais atraentes e que não denunciam a orfandade presente no íntimo de todo aquele que decide trilhar sua jornada terrena ignorando a passagem deste menino pela terra. Não se trata, portanto, de reconhecê-lo nos quadros e pinturas, nas canções ou até mesmo nos encontros organizados para, pretensamente, celebrar Sua vida. Mas, de se deixar afetar e moldar por Seus ensinos, escolhendo segui-lo para o lugar de morte, onde nasce a verdadeira vida.

Jesus é Deus homem

Jesus é esse menino que desde Seu nascimento revelou o coração do Pai. Ou seja, o Pai que inclina-se para a humanidade e oferece o resgate para a condição de orfandade que o pecado inaugurou. O Pai demonstra Seu amor no Filho, nascido sem pecado, expondo-O ao pecado por amor do pecador. O resgate custou Sua vida e dividiu a história em dois blocos, ou seja, aqueles que iniciaram antes de Seu nascimento dos que seguem existindo depois dEle. Mesmo sendo Ele o Criador de todas as coisas, limitou-se ao tempo e espaço para revelar o caráter de um Deus que ama a criatura de forma explícita e inequívoca através da cruz. Por isso, não aceita nenhum outro tipo de amor em contrapartida, que não aquele que se manifesta de forma igualmente cristalina e categórica de nossa parte. O Filho declara aos que desejam segui-lo, sem nenhum rodeio, que tomem sua própria cruz e caminhem para o lugar de morte de seus desejos humanos e limitados, substituindo-os pelo que é eterno.

O apelo não é algo aguado ou barato, já que custa tudo. O tudo, no entanto, é quase nada ou pode ser considerado refugo quando colocado em perspectiva. Já que, à luz da eternidade, nossa rápida passagem por esta terra adquire novo significado, inevitavelmente, afetando nossos valores e prioridades. Não fosse por isso o menino teria buscado a fama, o reconhecimento e o aplauso daquela geração, assim como fazem os que ainda hoje não entenderam o que seu nascimento representa. Por isso, não é filho de Deus aquele que apenas habita na terra, mas todo aquele que reconhece na morte do Filho unigênito o resgate promovido pelo Pai. Se outra oferta fosse suficiente ela teria sido feita e aceita, mas como custou tudo, não seria lógico que não implicasse na entrega radical e definitiva de nossa vida em Suas mãos. 

“O cristianismo, se é falso, não tem nenhuma importância, e, se é verdadeiro, tem infinita importância. O que ele não pode ser é de moderada importância.” C S Lewis

Feliz Natal!

Pare de começar e comece a terminar.

Iniciar algo novo é maravilhoso, mas nem sempre é tão necessário e oportuno como concluir algo inacabado.

Em alguma medida, a procrastinação é um desafio a ser superado na vida da maioria de nós. Especialmente em um tempo em que fomos direcionados a um confinamento para vencer uma crise sanitária. É espantoso constatar que, independente da cultura ou posição geográfica, os efeitos foram muito semelhantes. Ou seja, pessoas confinadas reagiram de forma parecida nos diversos pontos da terra. Conflitos familiares se agravaram, assim como desafios financeiros abalaram frágeis estruturas que precisavam só de um empurrãozinho para ruírem.

Sem dúvida, a pandemia desencadeou um efeito cascata e denunciou a fragilidade da estrutura humana. Independentemente do lugar do planeta em que habitamos, a crise extrai de nós reações similares. Inegavelmente, somos frágeis e nossa vida passa como um vapor. Um inimigo invisível ameaçou a segurança de todos e espalhou pânico e muita polarização em cima das soluções. Contudo, alguns heróis fizeram diferença, apresentando estratégias equilibradas e transparentes que diminuíram o impacto e as consequências catastróficas da crise global.

Muitos lidaram com o desafio de se reinventar e os mais antenados e criativos vislumbraram oportunidade onde outros enxergaram apenas ameaças. Não se trata, no entanto, de avaliar a circunstância como quem pretende tirar vantagem ilícita dela, e sim de observar o cenário sob uma nova perspectiva. Os que se comportaram de forma interesseira e inescrupulosa, só provaram que não reconhecem no outro uma extensão de si mesmo. Defraudar um semelhante, pensando apenas em algum tipo de enriquecimento ou promoção pessoal, nos esvazia da característica que nos une – a empatia.

Recomeçar exige um fechamento

Recomeçar nunca é fácil, porque exige perseverança e otimismo. Contudo, este momento encurralou-nos no que para alguns parecia ser um beco sem saída, quando perceberam que era possível abrir uma passagem, onde antes nada havia. Esta capacidade de aquietar a ansiedade, analisando o quadro com clareza e redesenhando a estratégia é o que podemos e sabemos fazer. Ou seja, o ser humano desconhece a capacidade de superação que possui, até que seja forçado a utilizá-la. Temos que terminar o que começamos. Isto é, não podemos desistir de viver. A vida é mais do que as perdas momentâneas e tem mais valor do que as adequações que a estação exige.

Além disso, nada começa do zero, pois acumulamos experiências em tudo que vivemos. Porque, quando perdemos bens, emprego e até mesmo um ente querido, acumulamos aprendizado e isso ninguém nos rouba. A necessidade de finalizar completamente uma etapa é pré-requisito para o que o futuro nos reserva. O luto é parte do processo em qualquer esfera e devemos respeitar a velocidade de cada de absorver o impacto das mudanças. Por isso, nem sempre o externo representa o fim. Pois, aparentemente podemos estar lutando honestamente para implementar inovações, mas elas precisam acontecer de dentro para fora. Isto é, precisamos finalizar para poder reiniciar.

“A alegria não está nas coisas, está em nós.” Johann Goethe

Tendo coragem de mudar

Começar algo novo pode ser sensato, mas mais sensato é concluir o que está inacabado. Nem sempre a solução está vinculada a um giro de cento e oitenta graus, talvez girar noventa graus é o recomendado. Temos que avaliar o que sobrou e o que pode e deve ser aproveitado. Ninguém sai ileso ou igual de uma crise, seja ela de que ordem for. Quanto mais abalados forem os alicerces, tanto maior será a adequação necessária. Quando aquilo em que nos apoiamos não é sólido, todo resto sofre dano. No entanto, é importante avaliar sobriamente o tamanho do giro necessário. Pois, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

Portanto, sem temer mudar, arriscando na medida correta, não devemos nos deixar influenciar por desespero ou desesperança. Na prática, correr riscos é o maior investimento que fazemos em nós mesmos. Ou seja, adquire-se muito conhecimento em cada adequação imposta ou escolhida e nenhuma transformação é desprovida de risco. Quem teme o risco fica estagnado e ignora parte da beleza da vida. Porque, por mais desafiador que seja nosso contexto financeiro, familiar, profissional ou pessoal, é nossa obrigação seguir em frente com os recursos que restaram.

Tomar decisões no momento em que a fervura está no ponto alto de ebulição não é recomendado. Precisamos esperar a temperatura baixar e avaliar com coerência o que temos que reconstruir e o que deve ser desprezado. A triagem correta de algumas emoções, assim como a ousadia de arriscar estão muito vinculadas. Pois, ao classificarmos corretamente nossos sentimentos e sua origem, desbravamos com mais facilidade e otimismo o desconhecido. Equilíbrio é o que devemos perseguir, porque o golpe foi dado exatamente naquilo em que nos apoiávamos. Reconstruir sobre um alicerce frágil nos fará repetir a experiência e pode ser devastador.

“A vida se encolhe ou se expande em proporção à sua coragem.” Anais Nin

Outros já fizeram

A história da humanidade é repleta de momentos em que nações inteiras tiveram que se reerguer das cinzas. Ninguém que promova conscientemente tamanha devastação está em seu juízo perfeito. É legítimo e lícito trabalhar e buscar implementar condições favoráveis para uma vida saudável e estável. Mas, em alguma medida, todos já descobrimos que a vida não é um conto de fadas com final feliz de histórias infantis. Pois, narrativas previsíveis e controladas são monótonas e desinteressantes e a vida real é bem mais do que isso.

Além disso, cenários estáticos e previsíveis só são criados para alimentar mentes imaturas que escolheram ou esqueceram de crescer. Outros antes de nós já se reinventaram e talvez tenham partido de pontos bem menos privilegiados do que o nosso. Portanto, temos que acreditar que existe um potencial ainda não explorado dentro de nós. O ser humano não nasceu para viver fora de uma comunidade. Somos seres relacionais e o outro nos inspira e pode ser o braço que se estende no momento difícil. Cada um escolhe ser ou não a resposta na vida de alguém.

Outro fato importante é jamais esquecer que existe um Criador governando toda e qualquer circunstância. Deus não desistiu da humanidade e Ele continua tendo a solução para cada um de nossos conflitos. No entanto, Ele aguarda que permitamos que Ele faça, ao voltarmos espontaneamente nossos olhos em Sua direção. Não foi Ele quem estabeleceu o caos em que estamos envolvidos e nunca foi Seu desejo que experimentássemos qualquer tipo de dor ou distanciamento dEle. No entanto, o primeiro homem criado escolheu a independência e a desobediência e, se formos honestos, não teremos dificuldade em admitir que repetimos esta escolha ao longo da vida muitas e muitas vezes.

“Deixe as suas esperanças e não as suas dores moldarem teu futuro.” Robert H. Schiller

Pare e pense

Parar não é sinal de estagnação é antes um momento que antecede uma ação. Parar diante de um sinal de trânsito é uma medida de proteção e prevenção. Muitos acidentes poderiam ter sido evitados se essa simples regra fosse obedecida. A vida exige paradas, tanto para os descansos requeridos pelo corpo, quanto para o início de um novo empreendimento. As pequenas decisões da vida, quando planejadas, são bem sucedidas. Aquelas que não são antecedidas por um período de avaliação nem sempre prosperam.

A parada obrigatória neste momento foi imposta e deveria representar uma oportunidade de reavaliação. Portanto, quanto maior for nossa capacidade de lidar com o momento de crise, tanto melhor sairemos dele. Por isso, nenhuma ansiedade ou pessimismo, assim como doses de medo e insegurança contribuem, devendo ser imediatamente descartadas. Não produzimos e nem extraímos o melhor de nós debaixo destes algozes. Temos que buscar o ponto de equilíbrio e a ajuda necessária para que nossa sanidade retorne a níveis normais.

Deus continua sendo Deus

Deus continua sendo Deus e quando tentamos fazer o que só Ele pode fazer, extrapolamos nossa esfera de ação. Existe uma parte que é nossa e essa parte Deus não faz. Ter fé não é assumir posição passiva e fatalista em relação ao que nos acontece. Cada um de nós recebeu capacidades que precisam ser exploradas e treinadas. Ninguém nasce sabendo, tudo o que hoje sabemos foi aprendido. Pois, falar, andar, escrever, ler e qualquer outra tarefa que desempenhamos foi aprendida. Tudo que temos condições de administrar e gerar continua sendo responsabilidade nossa. A de Deus começa onde a nossa responsabilidade e capacidade termina.

Tanto a pessoa que acredita que pode e deve fazer tudo sozinha está errada; quanto aquela que atribui culpa a Deus por tudo que de ruim lhe acontece. Os dois extremos denunciam falta de compreensão de qual é o papel de Deus em nossa vida. Ou, melhor dizendo, qual papel permitimos que Ele ocupe em nossa vida. Ele não é um Deus distante na vida daqueles que decidiram ter uma aliança pessoal com Ele. Não se trata de ir à igreja ou de ter uma religião. Trata-se de entender que temos uma origem espiritual e que nosso Criador deseja relacionar-se conosco. Para os que optam por ignorar esta realidade, preferindo excluir Deus da equação, ou criam para si outros deuses ou perdem-se em uma rotina sem sentido.

Tudo aqui um dia acabará, a crise atual demonstrou como rapidamente podemos ter nossas circunstâncias modificadas. Infelizmente muitas vidas foram ceifadas precocemente. Muitos haviam feito planos bem estruturados para um futuro que não chegaram viver. A realidade é que todos nós só temos o presente e temos que vivê-lo da forma mais sábia possível. A sabedoria para viver o hoje está em estabelecer o fundamento de nossas escolhas e estratégias sob um alicerce imutável e eterno. Só existe uma forma de fazer isso, que é reconhecendo que não nascemos para viver apenas esta vida e que quando tudo aqui acaba, há continuidade.

Envelhecer é revolucionário

Envelhecer é privilégio de quem vive muito, mas, infelizmente, não é sinônimo de viver bem. Vive bem quem colhe nesta fase as escolhas sábias que fez.

Envelhecer pode ser um tabu e um desafio para muitas pessoas, mas é a coisa mais natural da vida. Como diz a letra da música de Arnaldo Antunes: envelhecer é a coisa mais moderna que existe nesta vida. Pois, cada fase de nossa existência possui sua beleza e deve ser vivida com intensidade. É bem verdade que o discernimento e a maturidade que os anos acrescentam são adquiridos sem atalhos. Ou seja, não existe nenhuma maneira de driblar o inevitável impacto que os anos causam em nosso corpo. Contudo, o ser humano é espírito, tem uma alma e habita em um corpo. Por isso, ainda que não consigamos proteger o invólucro, temos que zelar pelo que permanece e é eterno. O verdadeiro cuidado, portanto, origina-se no interior e afeta o exterior.

O mundo globalizado e a era da tecnologia possibilitaram acesso à informação de forma simples e eficiente. Nunca antes como agora, ouviu-se falar tanto sobre a importância do exercício físico, da boa alimentação e da vida livre de excessos. Contudo, a população mundial continua sem dar a importância devida aos cuidados que permitem um envelhecimento saudável. Aliás, cuidar apenas do corpo, esquecendo-se de lidar com a alma e o espírito não é suficiente e nem eficaz. A velhice é a fase em que os abusos cometidos cobram a conta e, infelizmente, nem sempre é possível revertê-los. Fazer escolhas erradas faz parte de todo processo de aprendizado, já que, só não erra quem desistiu de aprender com a vida. Contudo, precisamos assimilar este aprendizado, evitando a perpetuação dos erros e de suas consequências.

“Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo.” Charles Saint-Beuve

A infância e a velhice

A infância é a fase da vida onde deveríamos usufruir de maior liberdade. Não a liberdade que o adolescente reivindica, nem aquela dos movimentos revolucionários. Mas, aquela atrelada ao fato que podemos sonhar, brincar e acreditar em um futuro brilhante. Na proteção de lares estruturados as crianças deveriam crescer e fundamentar sua personalidade e caráter no amor e na aceitação. Sabemos que na prática não é essa a experiência da maioria da população. Inevitavelmente esse mundo de conto de fadas só existe na ficção. A vida real apresenta um quadro bem mais complexo e desafiador do que este. E é exatamente nesta fase que as sementes da velhice começam a ser plantadas.

Não é a toa que as últimas memórias que somem de nossa mente são aquelas experienciadas na infância. Negligenciar os cuidados desta fase pode bem impactar negativamente a vida adulta e a velhice. Uma criança segura e que recebeu amor transforma-se no adulto equilibrado que envelhecerá com menos conflitos. Contudo, podemos recuperar as perdas da infância na fase adulta e também na velhice se encararmos os desafios como oportunidades de aprendizado e não tivermos receio de nos reinventar. O desaprender e o reaprender não deveriam ser privilégio da criança, o adulto sábio é aquele que encara este processo com naturalidade.

“Ao envelhecer, parei de escutar o que as pessoas dizem. Agora só presto atenção ao que elas fazem.” Andrew Carnegie

Sem medo de envelhecer

Quem teme o envelhecimento não aprendeu o suficiente com a vida. É provável que o temor esteja associado a alguma lacuna que não foi corretamente preenchida. Ou ainda, pode bem ser resultado de uma nostalgia exagerada. A velhice é a fase da vida em que os cabelos brancos coroam uma trajetória de erros e acertos, e que também revelam nossa capacidade de não se levar tão a sério. Aquilo que no passado assumiria proporções gigantescas é capturado por um olhar mais gentil e menos ansioso. E toda circunstância que exige adequação e conserto é resolvida com menos esforço físico e mais inteligência. A vida assume um rítmo menos frenético, não só pela limitação imposta pelo corpo, mas especialmente pela sabedoria absorvida.

A geração atual de idosos sobreviveu sem o auxílio do celular e do computador. Ela aprendeu a aguardar pacientemente pela chegada de uma carta, assim como pelo tempo necessário para revelar-se uma fotografia. Este é um dos motivos que a capacita a valorizar gestos simples, sofrendo menos com questões que sabe que o próprio tempo se encarrega de ajustar. A tecnologia encurtou distâncias mas também imprimiu um ritmo desumano ao cotidiano de algumas pessoas. Certamente os desafios de envelhecer da nova geração serão diferentes, mas não menos significativos. A verdade é uma só, todos os que vivem suficiente para envelhecer têm oportunidade de usufruir desta fase com mais ou menos sabedoria. Isto é, a velhice é a fase em que a soma das escolhas feitas é denunciada.

“Se o tempo envelhecer o seu corpo, mas não envelhecer a sua emoção, você será sempre feliz.” Augusto Cury

As mudanças e trocas

As mudanças que acontecem são mais evidentes no corpo do que em qualquer outra parte de nosso ser. Mas o invisível aos olhos é o que tem capacidade de sustentar as limitações apresentadas pelo corpo. As rugas são uma mudança e não precisam ser cobertas com maquiagem, elas são revestidas de serenidade e clareza. A visão física limitada é complementada com a ótica de um coração generoso e grato que enxerga coisas que os olhos não capturam. Os cabelos brancos não são mais cobertos com tinta, mas revelam a postura correta que estreita laços e desfaz conflitos, adquirida ao longo dos anos. A audição pode estar falhando mas oferece o ouvido atento de quem se importa.

As mudanças nada mais são do que trocas feitas e oferecidas. Trocou-se o que era passageiro e frágil pelo que tem valor eterno. Troca-se o que era urgente pelo que é importante. De maneira idêntica, troca-se com facilidade o sorriso e o abraço pela necessidade de estar certo. Usar o vigor da juventude para construir o alicerce da velhice é a coisa mais sábia que podemos fazer com nosso tempo. Por outro lado não é comum pensar nisso quando se tem uma vida inteira pela frente. Envelhecer não é nosso alvo, mas é nosso destino. No entanto, chegar neste destino com sabedoria deveria ser nosso alvo.

“Qualquer idiota consegue ser jovem. (…) É preciso muito talento pra envelhecer.” Millôr Fernandes

Escolha sua guerra.

A escolha correta da guerra que decidimos travar é decisiva. Nem sempre a guerra urgente é a mais importante. Por isso, a vitória está atrelada à nossa capacidade de discernir onde está nosso foco.

Nossa vida pode bem ser comparada à uma guerra que travamos, que nos posiciona diante de nossos ideais e sonhos. Ou seja, a conquista de novos territórios passa por conflitos e adaptações de origens variadas. Certamente, cada um dos obstáculos pode ser comparado a um inimigo que deve ser derrotado. Esta analogia se presta para análise da importância de escolher, com sabedoria, nossa guerra. Já que, não é incomum que guerras se acumulem, competindo entre si e contribuindo para que distrações esvaziem nossa eficácia. Pois, quanto mais focados estivermos no que importa, tanto maior será a chance real de sermos bem sucedidos.

Portanto, quando estes conflitos se acumulam, interagindo entre si, é a hora exata de escolhermos nossa guerra. Ou seja, elas se apresentam como um emaranhado de fios que se entrelaçam e que exigirão paciência e muita destreza para que o movimento não aumente o nível do conflito. Já que, se puxarmos o fio errado, podemos maximizar o problema ao invés de encontrar uma solução. As questões de ordem emocional, por exemplo, devem ser tratadas com cautela. Estes assuntos podem ter uma origem muito antiga e de difícil identificação. Talvez exijam a ação do tempo, que promoverá o adequado distanciamento do episódio traumático. Só assim podemos remover raízes e resignificar algumas experiências.

Esta é uma guerra difícil de ser adequadamente diagnosticada e ganha. Porque está intimamente ligada a quem somos e aos traumas que carregamos. No entanto, alguns conflitos são meros convites ao amadurecimento. Podem bem ser superados com investimento em pesquisa ou em reciclagem. Contudo, nem sempre o primeiro olhar nos capacita identificar o que nos atrapalha e paralisa. O conhecimento e a prática de uma nova atividade ou de um novo jeito de fazer, pode agregar muito. Não só contribui para que novos horizontes sejam explorados, como amplia nossa visão de mundo. As diversas culturas existentes são a maior prova de que pessoas vivem de formas diferentes. Podemos e devemos aprender com estas diferenças.

Quando abandonar uma guerra

Escolher com sabedoria a guerra que queremos travar significa abandonar aquela que está perdida. De maneira idêntica, consiste em separar adequadamente aquilo que é factível do que não depende de nós. Pois, tudo que depende de nós merece nossa atenção e esforço. Contudo, a ansiedade gerada por aquilo que ultrapassa nossa esfera de ação deve ser desprezada. Já que, pode ser um fator que estará sugando nossa energia e ocupando nossa mente. Esse desperdício de tempo e quem sabe até de dinheiro, pode bem ser catalisado e otimizado na direção do que importa.

Os grandes estrategistas conseguem fazer a leitura do cenário completo para saber em que peça desejam mexer e quais precisarão ser sacrificadas. Assim como no jogo de xadrez, sacrificamos os peões pelo cavalo ou pela rainha. É precisamente essa noção daquilo que podemos e devemos sacrificar que define nosso avanço. De maneira idêntica, temos que avaliar cautelosamente o custo benefício de nossas ações. Muitos estão estagnados em algum ponto da jornada, porque temem as perdas. Inegavelmente ninguém gosta de perder, seja lá o que for. Mas, algumas perdas abrem espaço para que algo novo ocupe seu lugar.

A maioria dos objetos e coisas que adquirimos, possuem uma vida útil. Esta vida útil pode ser maior ou menor, dependendo do objeto. Assim são, também, nossas circunstâncias. A vida é feita de muitos momentos passageiros. Alguns ficam eternizados em nossa lembrança porque registram fatos agradáveis e que nos marcaram e transformaram. Tais lembranças possuem poder de nos motivar e inspirar. Contudo, alguns destes registros foram incrustados em nossa mente pela dor ou pelo mal que nos causaram. São precisamente estas marcas que temos que sacrificar, aniquilando-as, quando desejamos prosseguir.

A diferença de eficiência e eficácia

O simples fato de conseguir separar o que é de ordem emocional daquilo que exige uma solução pontual nos capacita a ser eficazes, não apenas eficientes. Ser eficiente é produzir o efeito esperado. Ao passo que ser eficaz é possuir uma virtude de tornar efetivo ou real. A eficiência é o ato de “fazer certo alguma coisa”, enquanto a eficácia consiste em “fazer a coisa certa”. Ou seja, a eficiência seria o comportamento de alguém que age com perfeição na realização de um determinado trabalho. Já a eficácia não se limita apenas ao cumprimento de uma tarefa, mas, apresenta a resolução total da situação.

Este conceito da administração, pode bem ser aplicado quando conseguimos nos situar em relação aos conflitos que enfrentamos. Temos que avaliar com honestidade e isenção o que pretendemos superar. Sabendo que podemos esbarrar em aspectos que não dependem de nós. Estes, exigirão não só interação como também boa articulação com os atores envolvidos. Já que, nossa habilidade política será testada. Não se trata, no entanto, da política que explora ou converte em benefício próprio algo que desejamos. Mas, do aspecto politizado das relações humanas que é o que nos permite lidar com diferenças de maneira civilizada e democrática, preferencialmente.

A arte da guerra

A arte da guerra, portanto, consiste em uma junção de vários fatores. Podemos destacar como chaves o equilíbrio emocional, o distanciamento que nos permite olhar a situação em perspectiva correta e a busca da eficácia. Nenhum destes aspectos é facilmente adquirido e talvez percamos muitas guerras até que sejamos suficientemente treinados na arte de guerrear. Uma guerra não assume conotação negativa quando os inimigos são o medo, a apatia, a procrastinação, a vergonha e outros tantos inimigos que precisamos derrotar. Nossa guerra não é contra alguém, ela se trava primordialmente dentro de nós. É uma luta interna que se materializa na capacidade de escolher e decidir de forma sábia.

Nenhum de nós levanta pela manhã querendo confronto de qualquer espécie. Ele acontece naturalmente à medida que começamos a nos posicionar diante daquilo que nos limita. Mesmo quando esbarramos em alguma pessoa que personifica um inimigo, nosso objetivo não deve ser o de aniquilar o oponente, e sim, de aprender como lidar com ele. A ira acumulada nos cega e impede que avancemos. Por isso, não é sábio abrigar ira e ressentimento. Estas emoções possuem poder muito destrutivo e afetam muito mais aquele que as hospeda do que quem é alvo delas. Enquanto vivemos, tropeçamos em inimigos que precisam ser derrotados.

“Só os mortos conhecem o fim da guerra.” Douglas MacArthur

As crônicas de Nárnia

C S Lewis, autor de Crônicas de Nárnia, escreveu vários livros e promoveu a reflexão de aspectos fundamentais de nossa existência. Vem dele a inspiração que transformou em uma fábula encantadora a trajetória de crianças com um espírito aventureiro. A narrativa não se presta apenas para entreter os amantes de histórias infantis, mas a todo aquele que tem curiosidade de descobrir a essência do que vive. O bem e o mal e o certo e o errado nos rodeiam. Não temos opção de ignorar sua existência ou nos eximir de fazer escolhas. A guerra é travada, diariamente, em nossa esfera de ação e dentro de nós. Temos que aprender a vencê-la. Disto depende nossa sobrevivência.

“Nem tudo está perdido como parece… sabe, coisas extraordinárias só acontecem a pessoas extraordinárias, vai ver é um sinal que você tem um destino extraordinário, algum destino maior do que você pode ter imaginado.”

“Acho que, se a gente pudesse correr sem nunca se cansar, nunca mais iria querer parar. Mas às vezes existem razões muito especiais para se parar.”

“Sabemos o que acontece quando uma pessoa tem esperança de obter uma coisa desesperadamente desejada; parece bom demais para ser verdade.” C S Lewis – As Crônicas de Nárnia

Fracasso é um evento, apenas.

A definição de fracasso e sucesso é ampla e não define quem somos. Já que, nosso valor não está atrelado ao que fazemos. Mas, a quem somos e em quem nos transformamos.

Fracasso é um evento, não uma pessoa. John Maxwell 

Considerar fracasso como um evento e não vinculá-lo ao valor da pessoa é o que separa o sábio do tolo. Ou seja, quando nos relacionamos com quem nos cerca em bases corretas, sabemos separar o feito de seu autor. Muitos são os fatores que influenciam nossas escolhas. Algumas delas são erradas. Mas, não menos importantes. Já que, todo processo de aprendizado pressupõe erro. Só não erra, quem não faz. E, tudo que se faz pela primeira vez não é perfeito. A prática de uma atividade é que agrega eficiência e destreza na sua execução. Pois, os especialistas em sua área de atuação, estabeleceram-se com doses de disciplina, dedicação e perseverança. Ninguém nasce sabendo e todos estamos vivendo pela primeira vez. Por isso, a frustração que acompanha alguns momentos, não deve determinar quem somos.

Somos mais do que nossas conquistas. Portanto, não devemos medir nosso valor baseado nelas exclusivamente. Já que, nem sempre elas traduzem corretamente quem está por trás delas. Ou seja, nem sempre o domínio externo de uma atividade traduz coerentemente seu autor. O tempo testa, não só a veracidade, como a solidez de nossos feitos. A montanha russa de emoções e conflitos dos momentos difíceis não nos define. Pelo contrário, esta é, precisamente, a estação que propicia amadurecimento. Pois, a pressão externa revela nosso interior. Quanto mais equilibrada é nossa motivação e estrutura emocional, tanto mais facilidade temos de nos desvencilhar e vencer os desafios da jornada.

O descontrole e a opção de achar culpados para nosso fracasso, denuncia e escancara nossa imaturidade. Já que, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e cada desafio é uma oportunidade de recomeçar, revisitando nossas premissas. Não se pode passar pela vida considerando que nossas posições não precisam ser lapidadas. E, a lapidação acontece exatamente no momento que nossa abordagem esbarra em alguma resistência. Ou seja, o contraponto que a vida nos propõe, através de situações diversas, é a chance que não deve ser desperdiçada. Os sábios são aqueles que aprendem com estes momentos e acrescentam bagagem ao seu olhar. Pois, nosso caráter é testado pelas circunstâncias nas quais estamos inseridos.

Não se pode jogar a toalha

Os que escolhem jogar a toalha, são os que não entenderam a dinâmica da vida. São, também, aqueles que valorizam demais o aplauso e a vaia. Pois, quando atrelamos nosso valor ao que fazemos, teremos tendência de desestabilizar diante dos fracassos. O olhar de quem não está conosco na arena e que, portanto, não discerne nosso momento, não deve ter peso. Ou seja, temos que escolher que voz ouvimos. É decisivo separar o ponto de vista de quem, comprovadamente, torce por nosso sucesso; daquele que apenas critica. Porque, as críticas de quem não está do nosso lado, são oriundas de uma posição equivocada. Já que, o amor e a empatia são demonstrados com gestos práticos.

Podemos medir o grau de comprometimento de uma pessoa conosco ou com uma causa; por sua disposição de se envolver. Quanto mais identificados estamos com algum objetivo, tanto mais disponibilidade temos de nos envolver com ele. Pois, gastar tempo e energia em projetos individuais ou corporativos denuncia o grau de importância que a atividade tem para nós. De maneira idêntica, denuncia o quanto quem nos critica está realmente se importando conosco. Já que, nem todos que estão ao nosso lado somam para que nosso objetivo seja alcançado. Eliminar estas vozes é tão importante quanto ouvir aqueles que realmente precisam ser ouvidos.

O que nos impede de jogar a toalha é possuir uma identidade sólida. Esta identidade nasce de momentos em que nossas motivações são colocadas em “xeque“. Certamente, são exatamente estes episódios que a vida usa para fortalecer nossas convicções ou ajustá-las. Não é vergonhoso reconhecer os erros. Pois, eles estão misturados com os acertos. É inadequado, no entanto, basear-se neles para desistir. Talvez tenhamos que nos reerguer de posições bem humilhantes. Contudo, mais humilhante seria permanecer nelas. O orgulho e a preocupação demasiada com a opinião do outro pode nos paralisar. Inegavelmente esse é um dos desafios que precisa ser superado.

“Ninguém pode fazer com que você se sinta inferior sem o seu consentimento.” Eleanor Roosevelt

Evitando a estagnação

As estações da vida, assemelham-se às estações do ano. Temos nosso inverno emocional, e nele permanecemos até que a primavera chegue. Situar-se corretamente nos tempos e estações ameniza a dor dos ajustes. Não é possível frutificar fora da estação. Assim como não se pode imputar um desempenho exagerado a si mesmo; quando o momento exige quietude. Esperar e aprender com cada nova estação é imprescindível e determinante. Por vezes fazemos a coisa certa, na estação errada ou do jeito errado. Outras vezes deveríamos agir e permanecemos estagnados. O compasso dessas escolhas pode comprometer os resultados. Uma vez que acertar o passo é tão importante quanto se mover. Os intervalos entre as estações precisam ser respeitados.

As janelas de oportunidade que surgem em nossa vida se fecham. Desperdiçá-las por medo ou insegurança, compromete nossos sonhos. Cada objetivo de vida que temos será conquistado à medida que aprendemos a viver um dia de cada vez; extraindo dele o que de melhor nos oferece. Olhar demasiadamente para o passado ou temer o futuro nos paralisa. Deixar-se moldar e definir pelas sombras e fantasmas do que passou é tão nocivo quanto temer demasiadamente o futuro. Estas posturas são dois lados de uma mesma moeda. 

“O meu maior medo foi sempre o de ter medo – física, mental ou moralmente – e deixar-me influenciar por ele e não por sinceras convicções.” Eleanor Roosevelt

Somos responsáveis por nossas escolhas

“A filosofia de uma pessoa não é melhor expressa em palavras; ela é expressa pelas escolhas que a pessoa faz. A longo prazo, moldamos nossas vidas e moldamos a nós mesmos. O processo nunca termina até que morramos. E, as escolhas que fizemos são, no final das contas, nossa própria responsabilidade.” Eleanor Roosevelt

Saber diferenciar uma estação de outra e que vozes nos influenciam é essencial. Assim como é determinante nos responsabilizarmos pelas escolhas feitas. Nosso protagonismo não pode ser negociado ou terceirizado. As chantagens emocionais e os jogos de manipulação, que esvaziam nossa identidade, não serão admitidos quando estas premissas forem estabelecidas. O pano de fundo de nossos conflitos será sempre uma mescla de emoções, escolhas e aprendizados. Quanto mais essa narrativa for clara, tanto maior será nossa capacidade de codificá-la corretamente. Ou seja, quanto mais limpo e controlado nosso mundo interior estiver, tanto maior será nossa capacidade de escolher certo.

A valentia e a maturidade nascem precisamente nos duelos que travamos conosco mesmo. Quem teme esta avaliação, ou pretende ignorá-la; perde. Pois, engana-se quem pensa que temos poder sobre o outro. O único poder que realmente temos é sobre nós mesmos. Não somos donos de ninguém. Não nascemos para este tipo de conquista. Nascemos com a necessidade de conquistar territórios internos que nos transformam em pessoas mais completas. O bisturi dessas cirurgias que, nos curam ou nos aleijam, está em nossas mãos; não na do outro. Nós decidimos o que a dificuldade extrairá de nós e onde depositaremos os detritos. Ou seja, o que nos sara é a remoção dos excessos e o que nos deforma é o movimento impreciso e descontrolado que nós mesmos promovemos.

A faca do outro não pode nos moldar, se não permitirmos. Ela poderá nos ferir, mas jamais pode nos definir. Ganha quem assume para si a responsabilidade do que fará com os pratos que a vida serve. Podemos nos alimentar deles, processando os ingredientes e eliminando o que não presta. Ou, escolher jogá-los no rosto de quem está à nossa volta, como se fossem os responsáveis por eles. O fracasso não nos derrota quando entendemos que ele é um dos ingredientes deste prato. Dele podemos extrair muita substância e energia para continuar lutando. Ele apenas sinaliza que continuamos na arena, ao lado daqueles que, como nós, não desistiram de lutar.

Quando os papéis se invertem.

Os pais viram filhos, depois de certa idade. Somos privilegiados quando podemos cuidar deles, retribuindo o cuidado recebido.

Na vida alguns papéis se invertem de tempos em tempos. O que ganhava perde, quem ensinava aprende e assim por diante. Estas inversões não são negativas em sua essência, se soubermos fazer a leitura correta do que representam. Neste ano experimentei uma inversão de papéis com meu pai. Ele que, durante anos, foi responsável por meu sustento, educação, segurança e cuidados, necessita que eu assuma, agora, este papel na vida dele. Como uma pessoa independente que sempre foi, recusou-se a admitir que precisava de ajuda. Resistiu enquanto pode a todos os desafios e limitações que o Alzheimer impôs à sua rotina. A higiene passou a não ser importante, assim como desistiu de saber em que dia da semana, mês ou ano estava.

Tudo foi desmoronando lentamente ao seu redor, até que tivemos que intervir. Mas, não estava convencido de que a hora havia chegado. Gritou, esperneou, argumentou e por fim perdeu o controle daquilo que tão tenazmente tentava manter – sua autonomia. Uma decisão difícil para ele e para nós. Foi e tem sido dolorido vê-lo esquecendo de coisas básicas que fazia com tanta desenvoltura. Hoje precisa de ajuda para alimentar-se, para ir ao banheiro e para tomar banho (quando concorda em tomar). Continua sem saber que dia da semana é, porém hoje não coloca sua vida em risco, tentando deslocar-se para os locais que costumava frequentar. Quando relata sua rotina, transita por tempos que se misturam. Ora está trabalhando, ora de férias, sem contudo, relacionar-se com a dura realidade de que está institucionalizado.

Uma pandemia

Além do inimigo que foi chegando lentamente e invadiu seu mundo e o nosso, uma pandemia impiedosa imprimiu restrições de convívio que o deixaram ainda mais confuso. Não bastasse a troca de uma rotina por outra, ele agora não poderia receber visitas. O nível de angústia aumentou ainda mais quando o vírus entrou em cena e sem dó nem piedade obrigou-o a ficar em isolamento. Estava literalmente encurralado em um mundo confuso e bem barulhento. O ruído não era oriundo dos carros e ônibus que sempre o incomodaram, vinha das perguntas sem resposta que ecoavam dentro dele. Porque, seu mundo interior estava confuso e turbulento. Um mundo desconhecido no qual estava preso e que não fazia sentido algum.

Lutar contra apenas um inimigo já era difícil, agora eram dois em um mesmo momento, o que tornava a guerra ainda mais injusta. Uma verdadeira covardia, já que, eram dois contra um. Contudo, ele reuniu todas as forças e lutou bravamente contra o último inimigo, quase que sem se abalar. Precisou sim de internação e da ajuda de alguns medicamentos. Mas, mais uma vez reivindicou inconscientemente liberdade. E, assim que o vírus deu uma trégua, voltou para a companhia dos profissionais que hoje cuidam dele. Pessoas que ele confunde com familiares e até ex-namoradas, eventualmente. São nossos olhos e ouvidos neste momento tão desafiador. Não teríamos conseguido chegar até aqui sem a ajuda e apoio deles.

Assumindo nosso papel

Nosso papel hoje é o de cuidar das contas, para que receba o tratamento que o deixa mais organizado e feliz. Os contatos telefônicos são rápidos e esquecidos por ele em questão de minutos. Não possui mente para guardar as informações que recebe. Contudo, o passado garante que ainda lembre de nossa voz e imagem. Sabemos que aos poucos sua capacidade de interagir conosco tende a diminuir. Infelizmente chegará o dia em que não saberá quem somos. Mas, até lá, a gente repete quantas vezes for preciso o que ele estiver perguntando e a informação que queremos que ele tenha. Nossas conversas são quase uma ficção. Transitamos por épocas de sua e nossa infância na mesma conversa, como se tivéssemos participado com ele de todos eventos.

Por isso, estes contatos eventuais beneficiam mais a nós do que a ele. Saber que está limpo, alimentado e sem dor já é um conforto. Estas eram as preocupações que tinha conosco quando éramos crianças. Inegavelmente, hoje são as nossas com ele. Ele é a nossa criança, um bebê que reclama da dor causada pela remoção de um esparadrapo, como se fosse a causada por uma cirurgia profunda. Uma criança que cuidou de outras cinco e se despede da vida como criança. Estar ao lado dele nesta hora é tentar diminuir a angústia e ansiedade que o deixam tão impotente. Sente-se preso em um corpo que tem disposição para longas caminhadas, cuja mente não registra nem a origem e nem o destino que pretende percorrer. A vida perdeu muitas cores e nuances e sofremos junto ao vê-lo despedindo-se dela desta forma.

O pai perfeito

Ele não foi um pai perfeito. Errou e foi meu herói e bandido, como diz a letra da música de Fábio Júnior. Não errou porque era pai, errou porque é ser humano. Afinal, todos nós erramos. Certamente, há quem decida contabilizar erros e não acertos, porque escolheu ver o copo meio vazio e não meio cheio. Não é o meu caso, escolho o copo meio cheio sempre. Fez por nós, os filhos que teve, mais do que recebeu. Já que não carrega em sua certidão de nascimento o nome do pai biológico. Nem herdou dele o sobrenome, que hoje também é meu. Não recebeu carinho e afirmação da figura paterna, tendo que repartir conosco o que não tinha estocado dentro de si. Adquiriu esta capacidade de nos oferecer proteção e amor ao olhar pela primeira vez nosso frágil rosto e nos pegar no colo. Foi responsável pela construção do teto, que transformou-se no piso, sobre o qual cada um de nós partiu para viver a vida.

Sem estudo, e com muita determinação e perseverança; alimentou e educou os filhos. Agora é nossa vez de cuidar dele. Não se trata de uma obrigação e sim de um privilégio. O sacrifício que fez para não deixar a peteca cair; agora é nosso. Neste dia dos pais, minha homenagem é para ele. O único pai que é meu e a quem amo. Aquele que fez por mim muito mais do que consigo fazer por ele. Estamos nos esforçando para garantir dias em que o ambiente externo o ajude a focar no que ainda consegue extrair da vida. Ele é um guerreiro, sempre foi. Não será agora que desistirá da luta e das batalhas que trava. Minha admiração, carinho e gratidão neste dia é para ele. Para todos os pais que estão presentes ou que não podem estar conosco, um FELIZ DIA DOS PAIS.

“A criança é o pai do homem.” William Wordsworth

O palco da vida.

Assumir o protagonismo de nossa história no palco da vida, é saber ser aplaudido e vaiado sem desviar o olhar do que é importante. Nascemos com um propósito e buscamos aprovação de um único par de olhos.

Imaginar-se em um palco, atuando como protagonista de uma peça, pode ser uma boa alegoria da vida real. Contudo, a grande diferença é que o ator de uma peça teatral, representa um papel, cujo roteiro não foi escrito por ele. Na vida, somos os roteiristas e temos liberdade de mudar os rumos dos acontecimentos. Outra importante diferença é que, embora tenhamos coadjuvantes atuando conosco, eles são também protagonistas de suas próprias peças. Os papéis se cruzam e estabelecem as nuances que, ao longo dos dias, vão dando forma à trama. Podemos misturar gêneros e estilos, já que o drama, comédia e a aventura coabitam harmoniosamente em uma mesma cena. Assim como o suspense com a ficção e até o romance.

“Uma cena que muitas vezes vem à minha mente, dormindo e acordado; é a de que estou de pé nos bastidores de um teatro, esperando por minha deixa para entrar no palco. Enquanto estou ali, vejo a peça prosseguindo, e de repente me ocorre que as falas que decorei não são daquela peça; mas, pertencem a uma bem diferente. O pânico toma conta de mim. Questiono-me freneticamente sobre o que devo fazer.

Então recebo minha deixa. Tropeçando, caindo sobre o cenário desconhecido, vou para o palco e procuro orientação do operador, cuja cabeça vejo saindo através do piso. Infelizmente, ele apenas sinaliza impotente e percebo, é claro, que o roteiro dele é diferente do meu. Começo a recitar minhas falas, mas elas são incompreensíveis para os outros atores e abomináveis para o público, que começam a sibilar e gritar: “Saia do palco!”, “Deixe a peça continuar!”, “Você está interrompendo!” Malcolm Muggeridge

Assumindo a direção

Malcolm Muggeridge foi um jornalista e brilhante escritor, que pensava sobre a vida e propôs inúmeras reflexões. Dentre elas a de imaginar-se em um palco, recitando falas de uma peça da qual não fazemos parte. O extrato do texto, citado acima, revela parte da agonia de perceber-se atuando em algo sem conexão alguma. Talvez seja esse nosso grande desafio, o de conectar-se adequadamente com os atores que fazem parte de nossa história. Igualmente desafiador, é subir no palco objetivando extrair aplausos de uma platéia que não está interessada minimamente no que temos a dizer. Infelizmente é como se sentem algumas pessoas que embarcaram em um roteiro que não lhes representa.

Ou seja, estão literalmente representando papéis em peças erradas, com roteiros escritos por pessoas que nunca admitirão seu protagonismo. Nossa peça é uma biografia, ela é única, pessoal e só termina quando nossa missão aqui acaba. Nas biografias não é permitido escolher o final, a não ser que sejam redigidas por alguém que a transforme em ficção; depois do último ato. No entanto, podemos direcionar as escolhas para que preferencialmente seja um final feliz. Os imprevistos exigirão adaptações, mudanças de roteiro, mas tudo imprimirá beleza, despertando curiosidade de quem atentamente nos assiste. A platéia pode ser amistosa, como poderá oferecer algum antagonismo. A vaia e o aplauso se misturam e podem nos confundir. O antídoto contra estes vilões chamados fama e fracasso é tratá-los com a mesma indiferença. Já que são dois lados de uma mesma moeda. Assim como é decisivo não se deixar influenciar por nenhum deles a ponto de perder a noção de nossa fragilidade e insignificância.

Interagindo com outros atores

Ao subirmos no palco da vida, outros atores esperam por nós. Eles chegaram antes, sua peça já está em andamento e fomos gentilmente inseridos nela. Há os que serão agregados ao roteiro e à trama no futuro. A arte de atuar, sem ultrapassar os limites de nosso protagonismo é o que separa os grandes autores e atores dos medíocres. Já que somos autores e atores de nossa história, temos que ser generosos tanto com o primeiro grupo, quanto com o segundo. Com os que nos antecedem temos que ter inteligência de aprender observando-os e imitando o que agregou conquista à sua carreira. Já com os que nos sucedem temos o dever moral e quem sabe até obrigação de estender-lhes a mão, oferecendo empatia diante dos tropeços.

É interessante perceber como uma mesma cena pode ser interpretada com doses de alegria ou tristeza. O nível de otimismo e pessimismo presente nas escolhas também fica evidente, mesmo aos olhos menos atentos. Porque nossa ótica do que nos acontece passa por filtros internos que foram programados muito antes de termos consciência de que fazíamos escolhas. Isto não significa dizer que não somos responsáveis por reprogramá-los ou substituí-los por outros que nos ajudem a obter uma visão mais exata do que está proposto. Esta tarefa, além de ser importante, não pode ser terceirizada. Já que esta análise honesta fornecerá alguns padrões que podem bem nos catapultar para o topo de nossos mais ousados sonhos.

Visão de longo alcance

O sonhador é aquele que sempre traça metas maiores do que ele. Sabe instintivamente que sem sonhos perecemos. Porém, a arte de transformar sonhos em realidade é dominada por aqueles com capacidade de pavimentar o caminho com projetos menores. Ou seja, dos que entendem seu papel e o desempenham com perseverança e porções abundantes de diligência. Contudo, o que realmente imprime significado a cada um destes objetivos é saber que quando as cortinas se fecharem definitivamente, a verdadeira história começa. Porque, esta vivida e protagonizada aqui no palco terreno, é um grande treinamento e o alicerce sobre o qual o motivo de nossa existência desvenda-se.

Não seria lógico nem coerente imaginar uma peça que terminasse no auge das descobertas. Pois, quanto mais próximos estamos do final, mais sabedoria acumulamos; exercendo, consequentemente, escolhas mais assertivas. O fracasso também assume proporções diferentes da que tinha no início da jornada. A vitalidade pode estar diminuída e o físico nos prega peças, contudo o que falta no corpo, sobra na alma. E essa é eterna, como são todas as sementes que plantamos e que continuarão germinando pela eternidade. A eternidade parece combinar com a vida finita que se apaga lentamente como uma vela, que para brilhar, é consumida.

“Todo acontecimento, grande ou pequeno, é uma parábola por meio da qual Deus conversa conosco. E a arte da vida é entender a mensagem.” Malcolm Muggeridge

O bis é a melhor parte

Se a gente soubesse de algumas coisas, talvez tivéssemos começado pelo bis. Sim por aquela parte que repetimos e que é aplaudida de pé no final de cada grande espetáculo. Mas o bis não existe sem o início e sem o meio, ele só tem sentido mesmo depois que a peça encerra. Porque, o aplauso que mais importa é o dAquele que idealizou toda trama. Não só a nossa, mas a do outro; a de todos. Aquele que criou o palco, este grande universo onde atuamos e deixamos nossa marca. Pequena, é verdade, mas ainda assim uma marca. Ele sabia o que estava fazendo desde o princípio. Sabia que precisávamos nascer livres, fazendo escolhas que poderiam nos levar para perto dEle ou nos afastar definitivamente dEle.

Contudo, não deixa de nos amar quando escolhemos nos distanciar. Porque a essência do amor exige que seja livre. Pois, podemos escolher ou não contar com Sua ajuda. Certamente é desejo Seu ser incluído em nossa história. Mas somos nós que determinamos qual será Seu protagonismo no que vivemos. Ele que soprou nas narinas do primeiro ser criado, recolherá o sopro em algum momento. Poderemos ser surpreendidos ao ser recebidos por Ele, recebendo o único aplauso e aprovação que realmente importam. O palco terreno da vida é pequeno e pode ser cruel. Inegavelmente, é nele que aprendemos as lições que nos posicionarão diante dAquele que nos formou no ventre e que criou-nos com um propósito. O bis acontece diante de um único par de olhos. É Sua aprovação e aplauso que buscamos, porque o resto é o resto.

“A primeira coisa que me lembro do mundo – e rezo para que seja a última – é que eu era um estranho nele. O único desastre final que pode acontecer conosco, eu percebi, é nos sentirmos em casa aqui na terra.” Malcolm Muggeridge

Menos armadura, mais aprendizado.

Usar armadura no momento certo nos protege. Mantê-la por muito tempo pode nos prejudicar e roubar nossa liberdade.

Usar uma armadura nem sempre é negativo. Inegavelmente em caso de uma guerra ou de algum ataque inesperado, possuir uma armadura e estar vestindo-a nos protege. No entanto, existem armaduras que pretensamente utilizamos e que nos isolam. Nem sempre elas são perceptíveis. Já que podem bem ter sido tecidas ao longo dos anos por circunstâncias diversas. Certamente o ser humano tem um instinto de preservação muito aprimorado. Pois, ao menor sinal de perigo temos a tendência de nos proteger e reagir.

No corpo humano temos um sistema imunológico que detecta e reage ao que considera ameaça. No entanto, assim como na vida, quando nosso sistema imunológico está enfermo, acaba confundindo o inimigo. Ou seja, destrói o que nem sempre precisa ser eliminado. Podendo assim, atacar a si próprio, gerando o que conhecemos como doenças autoimunes. Dentre elas temos a diabetes, lúpus, esclerose múltipla, para citar as mais comuns. O estrago causado por estes ataques é gigantesco, assim como pode ser o uso de uma armadura desnecessária.

As dores e traumas que vivemos tendem a contribuir para o surgimento de uma armadura. Inicialmente ela parece ser benéfica e até imprescindível. Mas, precisamos revisitar sua importância, porque nem sempre o problema permanece. Pois, por vezes, temos a sensação de que ela se faz necessária quando, efetivamente, o risco já desapareceu. Carregar uma armadura pesa e nos separa do que pode nos libertar. Ela bloqueia o acesso do que talvez nos cure, como também promove ataques desnecessários.

Removendo a armadura

Livrar-se da armadura desnecessária é um ato da vontade, já que ninguém pode fazer isso por nós. Nos armamos porque imaginamos que o perigo existe, ou que o ataque é iminente. O descarte de conceitos errados e de premissas mal fundamentadas exigirá humildade. Pode parecer que a coragem seja o ingrediente imprescindível. No entanto, o corajoso é humilde em sua essência. Pois, um ato de coragem exige exposição e, em geral, admite o erro como consequência do risco. Ou seja, se abrir para algo novo que nos faça refletir é um ato corajoso e humilde.

O aprendizado que a vida propõe envolve risco. Seja o risco de perder alguma batalha ou de estar equivocado. A vulnerabilidade é um componente que acompanha a valentia de quem não teme o progresso. Uma cultura fechada em seus conceitos jamais será uma cultura adequada. Uma vez que o progresso acontece diariamente, oferecendo-nos novas perspectivas para um mesmo tema. Isto não significa, no entanto, negociar valores. E sim, avaliá-los constantemente à luz de um contraponto. Esta análise honesta, servirá para fortalecer os conceitos sólidos e descartar os que são temporários.

Por exemplo, existem medos e inseguranças próprias da infância. São tolerados e admitidos com certa naturalidade nesta fase. Contudo, quando invadem a fase adulta e se perpetuam pelas gerações sem ser questionados, são nocivos. Denunciam uma apatia e um conformismo que mais nos escraviza do que protege. Algumas armaduras são manufaturadas com este tipo de material. Tendem, portanto, a agregar prisões no que nasceu para ser livre.

“Repartir a verdade com quem não busca genuinamente a verdade é fornecer múltiplas razões para interpretações erradas a respeito dela.” George Macdonald

Conhecendo a verdade

A verdade como conceito absoluto existe. Embora o tema seja controverso e com muitos aspectos que devem ser considerados. Se ela não existisse não teríamos um padrão ético e moral que regesse a civilização. Não seria lógico permitir que pessoas façam o que consideram certo e errado, sem um padrão moral regendo e punindo as contravenções. Onde não há ordem a anarquia se instala. Por anarquia entendemos todo e qualquer estado de coisas que não preserve minimamente os direitos básicos do cidadão. A vida em sociedade exige regulamentações e políticas que preservem estes direitos.

Obviamente os tipos de governo e cultura implementam o que consideram correto. Algumas vezes de forma mais arbitrária, outras vezes mais democrática. Mas, inegavelmente, os povos são regidos por um código de conduta. Quando nossa fonte de moral não é a mesma, poderemos divergir, sem ultrapassar os limites da decência e do respeito. Ou seja, os que admitem a existência de um Deus, agem ou pelo menos deveriam agir, de acordo com os conceitos por ele estabelecidos. Os que se classificam como ateus, embora não admitam, possuem seu próprio conjunto de regras e padrão moral que seguem. 

Por isso, tanto os que admitem um Ser como sendo fonte de moral, como os que recusam-se a vincular-se com esta ideia, todos possuem uma lista de princípios que os rege. O criador da bomba atômica, no final de sua vida admitiu que achava que a bomba inventada por ele, era a força mais poderosa da terra. Contudo, descobriu que o conhecimento da verdade tinha mais poder do que ela. Quando admitimos a existência de uma verdade absoluta, seremos tolos se não perseguirmos conhecê-la de maneira incessante. Isso, certamente, envolverá disposição de lidar com as mentiras e armaduras que carregamos.

“A verdade é muito poderosa, mas vive cercada de guardiões da mentira.” Winston Churchill 

O suave voa mais alto.

O que é suave carrega características de sabedoria e segurança. Quem se vale da agressividade ou silencia, abandona seu lugar de influência.

Tudo que é suave, voa mais alto. E o que é suave não cai; pousa. Seja uma palavra ou gesto de desaprovação; tudo, absolutamente tudo que expressamos com suavidade, tende a ser melhor aceito. Porque a suavidade é um tipo de tempero que equilibra e inibe o argumento ferino. É também aquele ingrediente que acrescenta ternura e empatia ao que verbalizamos. O carinho sempre une; enquanto a agressividade tende a separar. Os ruídos em nossa comunicação são fundamentados basicamente em alicerces débeis de nossa alma. Ou seja, denunciam fragilidades de nosso caráter e feridas que hospedamos.

A dor que abrigamos no íntimo, é aquela que expressamos quando alguns gatilhos são acionados. Nem sempre são as palavras que a denunciam. Por vezes é no silêncio que ela se aloja. Portanto, defender um ponto de vista com agressividade ou se calar completamente, são dois lados da mesma moeda. Já que, aquele que fundamenta sua coerência na agressão, pensa com isso intimidar quem o ouve. Já o que cala simplesmente, como se superior fosse, oferece indiferença a quem com ele não concorda. Diz-se que o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. Portanto, o desrespeito oferecido através do silêncio ou do discurso agressivo revelam orgulho e ausência de empatia.

Escolher a suavidade como árbitro das diferenças é sinal de inteligência emocional. É, também, demonstração de valorização do outro. Pois, cada um de nós é único e merece ter espaço para manifestar opiniões e fazer escolhas. Por isso, qualquer comportamento que iniba nosso livre arbítrio ou limite nossa expressão constitui uma violação de nossa identidade. Porque, quanto mais opressiva for a cultura de uma nação, instituição ou família, tanto maior será o dano causado sobre quem somos. Em contrapartida, quanto mais liberdade tivermos para expressar nossa essência, tanto maior será o amadurecimento de nossa relação com nosso próximo.

A escola da vida

A vida passa depressa e não podemos arriscar perder esta carona. O passado nem sempre pode ser ajustado, mas temos o presente para viver. Por isso, temos obrigação de fazer diferente, quando almejamos resultados distintos. Pois, se continuarmos lidando com os desafios e diferenças com a mesma postura, colheremos resultados idênticos aos que desejamos evitar. Mesmo quando temos uma trajetória linear e de sucesso no que se refere aos relacionamentos, temos espaço para crescer. Ou seja, nunca sabemos tudo ou esgotamos as possibilidades de estreitar a relação com os que nos rodeiam. Especialmente com aqueles que divergem, oferecendo contraponto à nossa ótica.

Portanto, oferecer ao outro a oportunidade de ser quem é; é antes de tudo, uma demonstração de respeito. Os culpados espalham culpas; já os que amam espalham amor. Só vamos achar amor de verdade, quando o ódio virar saudade. E a saudade tem fronteiras, daqui para frente já é saudade. Por isso, desperdiçar oportunidades de expressar afeto, nunca é sábio. Devemos antes escolher suavizar os momentos desafiadores com um olhar carinhoso e otimista. É disto que a vida é feita. Pois, cada um de nós possui desafios pessoais que podem ser amenizados no convívio com quem se dispõe a andar do nosso lado de forma coerente.

O dedo que acusa, o grito, ou qualquer forma de manifestação violenta não agrega. Seja qual for a circunstância, nada justifica ou valida o descontrole emocional. Porque tanto com palavras, como com gestos e escolhas, ferimos facilmente os que nos rodeiam. Nossa negligência e omissão também representam uma pancada, nos que almejam parceria. No jogo da vida, não temos opção de escolher o anonimato, já que nossa marca é deixada quando agimos e quando nos esquivamos. O retraimento é uma escolha. E quem escolhe se omitir, está revelando suas prioridades e um pouco de seu caráter inseguro e egoísta.

Só temos o hoje

Não podemos adiar a vida. Porque, só temos o hoje. Por isso, deixemos o amanhã para amanhã. E o amanhã no controle de Deus. Vivamos o hoje com toda intensidade que pudermos, sem negligenciar as oportunidades de aprender com cada circunstância. De maneira idêntica, não é sábio ignorar quem está ao nosso redor, como se não fizesse parte de nosso desenho. Cada pessoa tem algo a nos ensinar e precisa de um pouco de quem somos. Nenhum de nós sentiria solidão ou abandono se escolhesse se relacionar de maneira correta. Ou seja, temos inúmeras oportunidades de repartir quem somos e absorver um pouco de nosso semelhante.

O hoje nos oferece a oportunidade do erro e do acerto. E, mesmo quando erramos, estamos avançando, porque existe aprendizado disponível. Ao aprendermos de forma dura com nossa falha, a maturidade toma forma e nosso coração é sensibilizado. Portanto a humildade de reconhecer o erro é o que nos capacita a perdoar e estender a mão com empatia a quem sofre. A superficialidade dos relacionamentos não acrescenta nada à nossa trajetória. Mas a interação e o atrito gerado através deles nos molda e aperfeiçoa. Por isso, os que desistem facilmente de lutar por seus sonhos, afastam-se dos que podem ser peça fundamental na construção deles.

A suavidade está presente nas pequenas criaturas criadas e na natureza de forma geral. A perfeição de uma pétala ou de um floco de neve revelam um Criador detalhista e que nos criou à Sua imagem e semelhança. Deus ama o belo e somos atraídos por aquilo que expressa beleza e suavidade. Portanto, podemos escolher ser canais de aceitação e de beleza. Porque cada um de nós tem potencial de amar e expressar o que tem poder de transformar o ambiente em que estamos. Somos agentes da mudança que desejamos e ela não será alcançada de forma imposta. Pois toda mudança começa de dentro para fora. Por isso, começa em nós para atingir aos que estão perto.

“O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos.” G. K. Chesterton

O silêncio fala

Existe um silêncio que extrai de nós as respostas que não são dadas com palavras. A quietude é reveladora.

O silêncio que fala é aquele que extrai de nós aquilo que nos define. Ou seja, aquele que não depende das palavras, pois transcende o que elas são capazes de expressar. Diz-se que a intimidade de duas pessoas pode ser testada pela capacidade que elas possuem de estar em silêncio na companhia da outra. Existem momentos que não temos o que dizer, ou simplesmente escolhemos não verbalizar algo. O verdadeiro silêncio inicia de dentro para fora. Já que o maior ruído que ouvimos não é aquele produzido pelo trânsito ou pelos gritos de alguém. O ruído interno é o mais difícil de ser silenciado.

Ao longo de sua existência, a humanidade já viveu crises e já lidou com epidemias e desafios. Mas, possivelmente nenhuma delas foi tão globalizada e divulgada como a pandemia atual. Não se trata só de um convite ao isolamento social, trata-se de lidar com o silêncio. Pois, não foram só as ruas e o comércio que ficaram silenciosos, nosso interior precisou silenciar. Contrastando drasticamente com nossas casas, que ficaram naturalmente mais habitadas e barulhentas; fomos encurralados pelo silêncio. 

Nos deparamos com o silenciar do consumo, da produção, da pressa e da rotina. Tudo parou de repente, e ficamos no vácuo. Pessoas de culturas tão distintas e únicas se uniram em um silêncio que invadiu o planeta. Nosso dia assumiu uma rotina diferente; pois, tivemos que nos reinventar. Para alguns foi natural e simples aquietar e se deixar moldar. Outros, contudo, se debateram e lidaram com conflitos internos e externos. Todos foram afetados, independente de classe social, crença ou cultura. O vírus infiltrou-se por nossos poros e não selecionou sua vítima por outro critério que não fosse estar viva.

Um inimigo comum

Mesmo os melhores filmes de ficção, não retrataram a realidade dura e inesperada que nos acometeu. O número de mortos aumentando a cada dia, enquanto lutamos contra um inimigo invisível, microscópico e real. Pois, quando o inimigo externo nos obriga a permanecer contidos, temos chance de avaliar com o que ocupamos nossos dias. Inegavelmente, cada um em alguma medida, passou a utilizar suas horas com novas atividades. Algumas muito prazerosas, outras nem tanto.

Mas, o fato inegável é que não nos foi dada opção de não fazer parte do momento, ou de simplesmente ignorá-lo. Fomos arrastados para dentro de um túnel e não sabemos ao certo quando veremos a luz novamente. Mas, sem dúvida, não seremos mais os mesmos. Descobrimos como nos apoiar na tecnologia para diminuir distâncias. Passamos a valorizar e ter saudade de pequenas rotinas e encontros que foram subtraídos abruptamente do nosso cotidiano.

O olhar dos mais conscientes se voltou para o idoso, para o portador de comorbidades, para o frágil; que talvez não sobreviva ao terrível inimigo. Descobrimos que existe dentro de nós um senso comum que naturalmente nos leva a estender a mão. Sim, a solidariedade tímida e lentamente passou a fazer parte de nosso dia. Certamente o egoísmo e a ausência de empatia também se fez presente. Mas, se formos honestos, ela sempre esteve ali, misturado com um pouco de quem somos.

As pequenas coisas

Alguns gestos emocionaram e surpreenderam. Outros chocaram e nos deixaram estarrecidos. Mesmo na presença de um inimigo comum, muitas distrações e apelos atraíram o olhar de alguns, desviando-o do verdadeiro alvo. Porque, em um momento de crise, o bem e o mal do outro nos afeta. Este vírus deixou isto claro e devemos nos esforçar para não esquecer esta lição. Pois, ninguém vive sozinho. Somos parte de um todo, quer admitamos ou não.

Independentemente de qual seja a elaboração da narrativa; ela passa pela mente brilhante do cientista, profissional da saúde, psiquiatra e daquele que mal sabe assinar seu nome. Certamente o grau de instrução contribui na leitura ampla e completa das ramificações da crise. Mas, não é capaz de extrair gestos de solidariedade maiores ou menores do que aqueles oriundos dos menos favorecidos. Já que nossas ações e iniciativas nascem no coração e não na mente.

Temos oportunidade de servir e de calar. Descobrimos que alguns se importam mais do que outros. E que outros se importam menos do que alguns. A lógica é uma só, não podemos oferecer o que não somos. Damos sempre um pouco de nós em cada escolha que fazemos e seremos lembrados ou esquecidos por elas. Pois não existe gesto menor ou maior quando o que está em jogo é a vida do outro. O que veio para superfície foi nossa essência. Nossos medos e bravura; assim como nossos ideais e nosso preconceito.

“No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos.” Martin Luther King

Fomos todos nivelados

A crise nivelou-nos, enclausurando cada um dentro de um mundo particular; com o qual nem todos possuem familiaridade. Ou seja, descobrimos capacidades desconhecidas e fraquezas ignoradas. As várias correntes políticas apontam em direções distintas e nenhuma possui uma resposta convincente. Esta dificuldade não é do brasileiro apenas. É, também, do cidadão e do líder de qualquer governo. A economia foi sacudida e exigirá níveis de sacrifícios que ainda não podem ser mensurados. Mas, por mais que o cenário político e econômico seja desafiador e real, a resposta depende de cada um.

Precisamos mais do que uma vacina ou um medicamento que nos resgate. Nossa necessidade supera a da inexistência de leitos hospitalares e profissionais da saúde suficientemente treinados. Temos urgência de encontrar o sentido de nossa existência. Os dias mais longos, são seguidos por noites intermináveis. A vida deve ser mais do que alimentar-se, dormir, pagar contas e criar e educar filhos. O silêncio nos levou a fazer perguntas sobre o verdadeiro sentido da rotina passada. A volta ao normal, foi infectada por um novo olhar que questiona sadiamente o verdadeiro sentido da existência e dos vínculos.

Fomos sacudidos e não estamos totalmente recuperados ainda. Precisamos incorporar lentamente o aprendizado destes dias de confinamento. É impossível voltar a fazer escolhas com os mesmos parâmetros. É inconcebível permanecer em silêncio depois de descobrirmos que o outro importa e nos completa. A mudança precisa começar por cada um. Porque cada vida ceifada será sempre uma lembrança que é nossa obrigação viver intensamente. A vida é um dom de valor inestimável e não há nada externo que possa mudar isto. Nestas últimas semanas, lutamos conjuntamente por nossa vida e de nosso vizinho. Por isso, esta consciência deve permear nossas relações a partir de agora em medida diferente.