A Secretária Executiva e a Era Digit@l

Ser secretária executiva, assim como atuar em qualquer outra profissão, exige vocação. Não me refiro ao tipo de chamado nato ou qualquer aspecto místico que esteja por trás do termo. Pois, o que considero vocação pode bem ser adquirido, aprimorado, lapidado e aprendido. Como qualquer talento que se pretenda desenvolver, a dedicação a uma profissão específica deve ser aprimorada. Por isso, a distância que existe entre um desempenho medíocre de uma atuação brilhante é a mesma que existe entre a decisão de quem assume o protagonismo de sua vida de quem decide arrumar desculpas que justifiquem seu fracasso.

Portanto, é decisivo que assumamos nosso papel de agentes das mudanças que desejamos. Culpar quem quer que seja por nossa derrota não é inteligente e não nos leva muito longe. Estacionamos quando olhamos para o lado ou para trás. Só temos o hoje, pois o que passou não pode ser alterado e o amanhã não nos pertence. Concentrar energias no agora é viver um dia de cada vez. É exatamente esta postura que desencadeia o aprendizado. Não importa o tamanho da montanha que tenhamos que transpor, se tivermos garra para viver o hoje, chegaremos do outro lado.

“O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer.” Abraham Lincoln

O início

O início de minha trajetória profissional não foi diferente. Ou seja, eu sabia o que não queria fazer, mas ignorava o que realmente deveria ou poderia fazer. Aliás, conheço poucas pessoas que aos dezessete anos sabem exatamente o que querem da vida e conseguem projetar seu futuro com exatidão. Certamente existem alguns com esta capacidade, mas, definitivamente, não era o meu caso. Conseguia eliminar, facilmente, algumas profissões do meu radar e sabia que a parte administrativa, os papéis e a organização faziam algum sentido. O que para alguns representava uma prisão ou quem sabe um castigo, era um mundo ao qual eu pertencia sem esforço.

Depois de ter feito um curso técnico em secretariado, tive minha primeira oportunidade profissional. Mesmo sabendo que teria uma longa trajetória de aprendizado me aguardando, encarei com otimismo a chance de ter meu primeiro salário. Apesar de não precisar dele para meu sustento, sempre soube que era o meio legítimo de conquistar minha independência financeira. Aparentemente, a vida não havia mudado tanto assim. Pois, as verdadeiras mudanças são graduais e incorporam-se ao nosso DNA sem que percebamos. Aos poucos percebi o quanto aquele convívio com novas responsabilidades me afetava e moldava.

“A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.” Oliver Goldsmith

O meio

Apesar de ter tido o privilégio de iniciar como efetiva, sem precisar estagiar (nada contra os estagiários), instintivamente absorvi todo ensino que estava ao meu alcance. Não desprezei oportunidades de agregar informação e conhecimento ao que já sabia da profissão. Minha primeira experiência como secretária foi em uma escola. As rotinas não eram dinâmicas e nem sempre estava motivada por algum novo desafio. Mas, durante os cinco anos em que lá trabalhei, aprendi muito. Sem dúvida alguma, foi durante este tempo que o alicerce sólido sobre o qual construí minha carreira foi edificado.

Lá se vão mais de trinta anos de jornada. Passou muito rápido! Jamais imaginava que aquele início me levaria para o lugar onde estou. Ao longo desta trajetória conheci pessoas generosas, dedicadas, inteligentes, gentis, que com empatia e profissionalismo repartiram comigo não só conhecimento, mas especialmente suas vidas. Inegavelmente, muitas destas contribuições não foram voluntárias e intencionais. Contudo, ocorreram porque eu estava interessada no amadurecimento. Ou seja, temos poder de decidir aprender com erros e acertos, assim como com cada novo desafio que enfrentamos. Porque, na busca pelo aprimoramento, temos que fazer escolhas individuais, que não podem ser terceirizadas.

“O êxito da vida não se mede pelo caminho que você conquistou, mas sim pelas dificuldades que superou na jornada.” Abraham Lincoln

O fim

Minha geração é analógica e migrou para o digit@l ao longo de sua trajetória. Iniciei usando uma máquina de escrever manual. Atualmente, resolvo a maioria dos assuntos apenas com um celular. Para os mais jovens é corriqueiro contar com a velocidade que a tecnologia imprimiu em nossa rotina. Mas para quem, como eu, esperou pelo tempo de revelação de uma fotografia ou usou pela primeira vez um telefone para falar com outra cidade ou estado, sabe quão desafiador é acompanhar estas mudanças. Sempre gostei e enxerguei a tecnologia como aliada, contudo isso não diminui o desafio que é se reinventar.Ao iniciar minha trajetória profissional, pensava na aposentadoria

Minha geração pensou e pensa em algum momento em que o relógio deixa de reger nossa rotina. Momento esse, em que as escolhas podem ser feitas com mais liberdade. Por isso, eu vislumbrava uma linha de chegada e, cruzei-a simbolicamente, quando me aposentei. Estar aposentada, contudo, não altera em nada minha essência. Pelo contrário, a instiga a perseguir novos aprendizados e novos desafios. Em um novo formato, com outro tipo de bagagem, a secretária de hoje é diferente daquela que iniciou sua trajetória há trinta e cinco anos. Mas ela não deixa de existir com a aposentadoria, porque agora já se confunde com quem eu sou.

Missão, Visão e Valores

Ao migrar da experiência de trabalhar em uma escola para o ambiente corporativo, absorvi conceitos de missão, visão e valores. Ainda que a absorção destes conceitos tenha sido intuitiva, ela é determinante para que possamos corresponder às expectativas das organizações onde atuamos. Assim como as empresas são regidas por estes princípios, cada colaborador possui sua missão, sua visão e valores pessoais. A verdadeira sinergia acontece quando estamos atuando em locais onde existe correspondência entre o que a instituição deseja promover e/ou produzir com o projeto de vida que temos.

Na profissão de secretária temos envolvimento muito direto com o profissional que personifica, dentro das organizações, estes princípios. Por isso, não basta saber fazer, temos que nos doar em níveis que não são exigidos em outras profissões. O trabalho passa por quem somos, porque entra em contato com quem cada executivo é. Não raras vezes nos envolvemos com situações familiares do profissional e necessidades que ultrapassam as demandas do escritório. Existe riqueza neste convívio, para aqueles que se percebem na posição de facilitadores do desempenho deste executivo e de sua equipe.

Por isso, pessoas que tenham mais dificuldade de atuar nos bastidores, sofrerão mais com as dinâmicas desta profissão. Contudo, aquelas que se adaptam à essa realidade, entendendo que servir um café é tão importante quanto enviar um email ou apresentar um relatório, são as que humanizam seu desempenho, conquistando mais do que o salário mensal como prêmio. Porque no final do dia o que importa é ter a sensação de dever cumprido, de ter feito a coisa certa, na hora certa, do jeito certo.

“Jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.” Albert Einstein

Mulher

Ser mulher é uma dádiva, porque nascemos com uma capacidade de superação nata. Isto é, o lugar ao sol que almejamos precisa ser conquistado com mais garra e determinação. Apesar de não me considerar feminista, pois existem alguns apelos no movimento feminista que não me representam, não tenho objeção alguma com quem é. Contudo, acho legítima a defesa de nosso espaço na sociedade como indivíduos.

Acredito que a mulher tem um papel único a exercer na sociedade. Pois, esse espaço jamais poderá ser ocupado por homens. Porque eles têm outra função e outro papel. Por isso, é ilógico gastar energia tentando provar nossa capacidade comparando-nos com eles. Ou seja, a identidade bem definida é o que nos possibilita travar esta guerra a partir da posição correta. As mães, esposas, filhas, amigas, profissionais e mulheres de todas as raças, línguas, cores e nações têm uma essência que quando bem direcionada nos posiciona em vantagem surpreendente.

Especialmente aquelas que dividem seu tempo entre a rotina de uma profissão e da criação de filhos, sabem quão desafiador é equilibrar os pratos sem deixar que se estraçalhem. Afinal, todos os papéis são importantes. Portanto, temos que usufruir de nosso instinto nato de cuidado e de gerar, canalizando este potencial na direção correta. Temos dentro de nós competências não exploradas e capacidades que precisam florescer. Cada estação tem sua beleza e nunca é tarde para recomeçar.

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.” Madre Teresa de Calcutá

O curso

Durante esse período de pandemia, mesmo estando empregada, fiz uma retrospectiva do que vivi como profissional da área de secretariado ao longo dos últimos anos. Não se trata de nostalgia, mas daquilo que honestamente considero final de um ciclo. Nada ficou imune aos efeitos do distanciamento social imposto por esta crise sanitária mundial. Pois, abruptamente fomos encurralados e forçados a nos reinventar. Além dos tristes óbitos, alguns infelizmente perderam seus empregos e fazem malabarismos financeiros para sustentar seus familiares. Pensando nisso e no conhecimento que tenho da área de secretariado, criei o curso – A Secretária Executiva e a Era Digit@l.

Este curso não poderia ser em outro formato que não o digit@l. Por razões óbvias, o projeto me desafiou e é um convite para que cada colega que atua na área ou que deseja assessorar executivos se recicle. Aquilo que nos trouxe até aqui não é o que nos levará até lá. Ou seja, se continuarmos atuando no mesmo formato teremos os mesmos resultados. Temos um chamado a nos reinventar. Assim como uma máquina de escrever manual não faz mais parte dos equipamentos que usamos, a velha mentalidade precisa ser substituída pelo que o novo momento exige.

“A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio.” Martin Luther King

A secretária e o novo normal

Mesmo que não atue em formato home office, a profissional da área de secretariado precisa estar pronta para enfrentar formatos híbridos ou presenciais com outra abordagem. Isto é, em pouco mais de um ano a mudança foi estabelecida quer gostemos ou não. Portanto é sábio expor-se voluntariamente ao novo. Qualquer nível de resistência intensificará a dificuldade de adaptação e retardará oportunidades que talvez estejam surgindo.

Temos que nos preparar para viver esta mudança de era. Assuma seu protagonismo e busque essa mudança! Ela não é  importante, apenas, para uma boa remuneração. Mas, porque somos capazes de nos reinventar e a superação acontece exatamente nos momentos de crise. Semeie hoje na mudança que você quer implementar em sua vida pessoal e profissional.

“Construí amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, bati na porta da vida e disse-lhe: Não tenho medo de vivê-la.” Augusto Cury

O menino da manjedoura

O nascimento do menino da manjedoura tem significado profundo e aplicação prática na vida do ser humano. No entanto, a escolha é individual e totalmente voluntária. Isto é, temos que decidir que papel Ele terá em nossa vida.

A figura do menino em uma manjedoura consagrou-se como símbolo do cristianismo. Pois, assim como a cruz, a manjedoura e a cena do presépio são imagens vinculadas à fé cristã, que marcam o final e início da vida do Salvador, respectivamente. Mesmo para os que não se identificam com esta expressão de fé e que, portanto, elegem para si outros formatos de crenças, certamente, esta simbologia não é ignorada. Afinal, no mundo ocidental, o nascimento deste menino dividiu a contagem dos anos em antes e depois de Sua passagem pela terra. Ninguém que tenha influenciado a história desta forma pode ser, simplesmente, descartado. Sua trajetória despretensiosa e praticamente anônima inicia em um lugar pouco convencional. Já que, o nascimento de um suposto Rei e Messias, deveria ser cercado da pompa que a circunstância requer.

O alarde, no entanto, ecoou no coração de uns poucos pastores e de alguns reis vindos do oriente, que presenciaram a cena que passava totalmente despercebida do olhar desatento dos que ocupavam-se com sua própria vida. Em meio ao feno, palha, mau cheiro e aparente improviso, nascia o menino que a nação judaica não reconheceu como seu libertador, crucificando-o. Ele, no entanto, foi reconhecido do nascimento até a morte por aqueles poucos que não deixaram que a religião e as tradições sufocassem a verdade para qual Sua vida apontava. Dentre eles estão doze homens pescadores, iletrados que o seguiram por cerca de três anos e meio e de onde saiu, também, um traidor. As pessoas que tiveram olhos para ver e ouvidos para ouvir foram as que receberam por Seus lábios a resposta do que buscavam. Ou seja, foram abençoados com cura, restauração, libertação e encontraram sua real identidade.

Simeão e Ana

Simeão e Ana são dois personagens que identificaram no bebê de poucos dias o Salvador do mundo. Os dois anciãos podiam não ter uma visão física muito acurada, mas com os olhos atentos do coração, contemplaram o que os religiosos e soberanos de sua época não viram. Com os olhos espirituais, identificaram o cumprimento da promessa do Redentor. Isto é, aquele momento coroava suas jornadas que haviam sido edificadas sobre o alicerce sólido de que Deus Criador tinha um compromisso com a criatura. Pois, os que como eles entendem este princípio, dedicam tempo e priorizam este relacionamento, discernindo que o interesse do Criador pelo homem deve ser recíproco para ser real. Porque, qualquer que se perceba como peça do grande quebra-cabeça do universo, esforça-se para corresponder ao papel que foi destinado a desempenhar na companhia e com a parceria de Deus.

Contudo é primordial que, à semelhança do Mestre, tenhamos humildade para celebrar os pequenos e anônimos momentos, sabendo que existe um único par de olhos que nos contempla e diante do qual estamos nus, completamente desprovidos de qualquer subterfúgio, como estava o primeiro homem criado. Sim, somos todos como Adão no jardim do Éden diante do Último Adão. Portanto, não temos razão de buscar aprovação, aceitação ou motivos para tentar impressionar Aquele que nos conhece por inteiro e diante de quem estamos descobertos e para quem somos como pó, pois, dele fomos formados e para ele voltaremos. Por isso, quando esta realidade é desvendada, o nascimento do menino na manjedoura faz todo sentido e encaixa-se, coerentemente, na história que teve início antes da fundação do mundo.

O salvador menino

O primeiro Adão não nasceu menino como o Último Adão, porque ao primeiro foi concedido o privilégio de relacionar-se com Seu criador sem a barreira do pecado. Ele havia sido criado à imagem e semelhança de um Deus amoroso e misericordioso que tem prazer em relacionar-se com a criatura. No entanto, o resgate daquela comunhão diária exigia um sacrifício e Deus estava disposto a fazê-lo. Ele entregaria Seu Filho unigênito, para que fosse transformado em primogênito, incluindo nesta família, novamente, aqueles que desejassem ter relacionamento com Deus Pai. O menino nascia na manjedoura para repartir o Pai conosco, devolvendo-nos a identidade de filhos e imprimindo em nosso espírito a imagem do Deus que é essencialmente amor.

Não por acaso, na época de Seu nascimento, como nos dias de hoje, só seguem seus passos aqueles que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir aquilo que permanece oculto para os que estão cegos pelo orgulho, autossuficiência e independência. Certamente, estas palavras são substituídas por rótulos mais atraentes e que não denunciam a orfandade presente no íntimo de todo aquele que decide trilhar sua jornada terrena ignorando a passagem deste menino pela terra. Não se trata, portanto, de reconhecê-lo nos quadros e pinturas, nas canções ou até mesmo nos encontros organizados para, pretensamente, celebrar Sua vida. Mas, de se deixar afetar e moldar por Seus ensinos, escolhendo segui-lo para o lugar de morte, onde nasce a verdadeira vida.

Jesus é Deus homem

Jesus é esse menino que desde Seu nascimento revelou o coração do Pai. Ou seja, o Pai que inclina-se para a humanidade e oferece o resgate para a condição de orfandade que o pecado inaugurou. O Pai demonstra Seu amor no Filho, nascido sem pecado, expondo-O ao pecado por amor do pecador. O resgate custou Sua vida e dividiu a história em dois blocos, ou seja, aqueles que iniciaram antes de Seu nascimento dos que seguem existindo depois dEle. Mesmo sendo Ele o Criador de todas as coisas, limitou-se ao tempo e espaço para revelar o caráter de um Deus que ama a criatura de forma explícita e inequívoca através da cruz. Por isso, não aceita nenhum outro tipo de amor em contrapartida, que não aquele que se manifesta de forma igualmente cristalina e categórica de nossa parte. O Filho declara aos que desejam segui-lo, sem nenhum rodeio, que tomem sua própria cruz e caminhem para o lugar de morte de seus desejos humanos e limitados, substituindo-os pelo que é eterno.

O apelo não é algo aguado ou barato, já que custa tudo. O tudo, no entanto, é quase nada ou pode ser considerado refugo quando colocado em perspectiva. Já que, à luz da eternidade, nossa rápida passagem por esta terra adquire novo significado, inevitavelmente, afetando nossos valores e prioridades. Não fosse por isso o menino teria buscado a fama, o reconhecimento e o aplauso daquela geração, assim como fazem os que ainda hoje não entenderam o que seu nascimento representa. Por isso, não é filho de Deus aquele que apenas habita na terra, mas todo aquele que reconhece na morte do Filho unigênito o resgate promovido pelo Pai. Se outra oferta fosse suficiente ela teria sido feita e aceita, mas como custou tudo, não seria lógico que não implicasse na entrega radical e definitiva de nossa vida em Suas mãos. 

“O cristianismo, se é falso, não tem nenhuma importância, e, se é verdadeiro, tem infinita importância. O que ele não pode ser é de moderada importância.” C S Lewis

Feliz Natal!

Pare de começar e comece a terminar.

Iniciar algo novo é maravilhoso, mas nem sempre é tão necessário e oportuno como concluir algo inacabado.

Em alguma medida, a procrastinação é um desafio a ser superado na vida da maioria de nós. Especialmente em um tempo em que fomos direcionados a um confinamento para vencer uma crise sanitária. É espantoso constatar que, independente da cultura ou posição geográfica, os efeitos foram muito semelhantes. Ou seja, pessoas confinadas reagiram de forma parecida nos diversos pontos da terra. Conflitos familiares se agravaram, assim como desafios financeiros abalaram frágeis estruturas que precisavam só de um empurrãozinho para ruírem.

Sem dúvida, a pandemia desencadeou um efeito cascata e denunciou a fragilidade da estrutura humana. Independentemente do lugar do planeta em que habitamos, a crise extrai de nós reações similares. Inegavelmente, somos frágeis e nossa vida passa como um vapor. Um inimigo invisível ameaçou a segurança de todos e espalhou pânico e muita polarização em cima das soluções. Contudo, alguns heróis fizeram diferença, apresentando estratégias equilibradas e transparentes que diminuíram o impacto e as consequências catastróficas da crise global.

Muitos lidaram com o desafio de se reinventar e os mais antenados e criativos vislumbraram oportunidade onde outros enxergaram apenas ameaças. Não se trata, no entanto, de avaliar a circunstância como quem pretende tirar vantagem ilícita dela, e sim de observar o cenário sob uma nova perspectiva. Os que se comportaram de forma interesseira e inescrupulosa, só provaram que não reconhecem no outro uma extensão de si mesmo. Defraudar um semelhante, pensando apenas em algum tipo de enriquecimento ou promoção pessoal, nos esvazia da característica que nos une – a empatia.

Recomeçar exige um fechamento

Recomeçar nunca é fácil, porque exige perseverança e otimismo. Contudo, este momento encurralou-nos no que para alguns parecia ser um beco sem saída, quando perceberam que era possível abrir uma passagem, onde antes nada havia. Esta capacidade de aquietar a ansiedade, analisando o quadro com clareza e redesenhando a estratégia é o que podemos e sabemos fazer. Ou seja, o ser humano desconhece a capacidade de superação que possui, até que seja forçado a utilizá-la. Temos que terminar o que começamos. Isto é, não podemos desistir de viver. A vida é mais do que as perdas momentâneas e tem mais valor do que as adequações que a estação exige.

Além disso, nada começa do zero, pois acumulamos experiências em tudo que vivemos. Porque, quando perdemos bens, emprego e até mesmo um ente querido, acumulamos aprendizado e isso ninguém nos rouba. A necessidade de finalizar completamente uma etapa é pré-requisito para o que o futuro nos reserva. O luto é parte do processo em qualquer esfera e devemos respeitar a velocidade de cada de absorver o impacto das mudanças. Por isso, nem sempre o externo representa o fim. Pois, aparentemente podemos estar lutando honestamente para implementar inovações, mas elas precisam acontecer de dentro para fora. Isto é, precisamos finalizar para poder reiniciar.

“A alegria não está nas coisas, está em nós.” Johann Goethe

Tendo coragem de mudar

Começar algo novo pode ser sensato, mas mais sensato é concluir o que está inacabado. Nem sempre a solução está vinculada a um giro de cento e oitenta graus, talvez girar noventa graus é o recomendado. Temos que avaliar o que sobrou e o que pode e deve ser aproveitado. Ninguém sai ileso ou igual de uma crise, seja ela de que ordem for. Quanto mais abalados forem os alicerces, tanto maior será a adequação necessária. Quando aquilo em que nos apoiamos não é sólido, todo resto sofre dano. No entanto, é importante avaliar sobriamente o tamanho do giro necessário. Pois, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

Portanto, sem temer mudar, arriscando na medida correta, não devemos nos deixar influenciar por desespero ou desesperança. Na prática, correr riscos é o maior investimento que fazemos em nós mesmos. Ou seja, adquire-se muito conhecimento em cada adequação imposta ou escolhida e nenhuma transformação é desprovida de risco. Quem teme o risco fica estagnado e ignora parte da beleza da vida. Porque, por mais desafiador que seja nosso contexto financeiro, familiar, profissional ou pessoal, é nossa obrigação seguir em frente com os recursos que restaram.

Tomar decisões no momento em que a fervura está no ponto alto de ebulição não é recomendado. Precisamos esperar a temperatura baixar e avaliar com coerência o que temos que reconstruir e o que deve ser desprezado. A triagem correta de algumas emoções, assim como a ousadia de arriscar estão muito vinculadas. Pois, ao classificarmos corretamente nossos sentimentos e sua origem, desbravamos com mais facilidade e otimismo o desconhecido. Equilíbrio é o que devemos perseguir, porque o golpe foi dado exatamente naquilo em que nos apoiávamos. Reconstruir sobre um alicerce frágil nos fará repetir a experiência e pode ser devastador.

“A vida se encolhe ou se expande em proporção à sua coragem.” Anais Nin

Outros já fizeram

A história da humanidade é repleta de momentos em que nações inteiras tiveram que se reerguer das cinzas. Ninguém que promova conscientemente tamanha devastação está em seu juízo perfeito. É legítimo e lícito trabalhar e buscar implementar condições favoráveis para uma vida saudável e estável. Mas, em alguma medida, todos já descobrimos que a vida não é um conto de fadas com final feliz de histórias infantis. Pois, narrativas previsíveis e controladas são monótonas e desinteressantes e a vida real é bem mais do que isso.

Além disso, cenários estáticos e previsíveis só são criados para alimentar mentes imaturas que escolheram ou esqueceram de crescer. Outros antes de nós já se reinventaram e talvez tenham partido de pontos bem menos privilegiados do que o nosso. Portanto, temos que acreditar que existe um potencial ainda não explorado dentro de nós. O ser humano não nasceu para viver fora de uma comunidade. Somos seres relacionais e o outro nos inspira e pode ser o braço que se estende no momento difícil. Cada um escolhe ser ou não a resposta na vida de alguém.

Outro fato importante é jamais esquecer que existe um Criador governando toda e qualquer circunstância. Deus não desistiu da humanidade e Ele continua tendo a solução para cada um de nossos conflitos. No entanto, Ele aguarda que permitamos que Ele faça, ao voltarmos espontaneamente nossos olhos em Sua direção. Não foi Ele quem estabeleceu o caos em que estamos envolvidos e nunca foi Seu desejo que experimentássemos qualquer tipo de dor ou distanciamento dEle. No entanto, o primeiro homem criado escolheu a independência e a desobediência e, se formos honestos, não teremos dificuldade em admitir que repetimos esta escolha ao longo da vida muitas e muitas vezes.

“Deixe as suas esperanças e não as suas dores moldarem teu futuro.” Robert H. Schiller

Pare e pense

Parar não é sinal de estagnação é antes um momento que antecede uma ação. Parar diante de um sinal de trânsito é uma medida de proteção e prevenção. Muitos acidentes poderiam ter sido evitados se essa simples regra fosse obedecida. A vida exige paradas, tanto para os descansos requeridos pelo corpo, quanto para o início de um novo empreendimento. As pequenas decisões da vida, quando planejadas, são bem sucedidas. Aquelas que não são antecedidas por um período de avaliação nem sempre prosperam.

A parada obrigatória neste momento foi imposta e deveria representar uma oportunidade de reavaliação. Portanto, quanto maior for nossa capacidade de lidar com o momento de crise, tanto melhor sairemos dele. Por isso, nenhuma ansiedade ou pessimismo, assim como doses de medo e insegurança contribuem, devendo ser imediatamente descartadas. Não produzimos e nem extraímos o melhor de nós debaixo destes algozes. Temos que buscar o ponto de equilíbrio e a ajuda necessária para que nossa sanidade retorne a níveis normais.

Deus continua sendo Deus

Deus continua sendo Deus e quando tentamos fazer o que só Ele pode fazer, extrapolamos nossa esfera de ação. Existe uma parte que é nossa e essa parte Deus não faz. Ter fé não é assumir posição passiva e fatalista em relação ao que nos acontece. Cada um de nós recebeu capacidades que precisam ser exploradas e treinadas. Ninguém nasce sabendo, tudo o que hoje sabemos foi aprendido. Pois, falar, andar, escrever, ler e qualquer outra tarefa que desempenhamos foi aprendida. Tudo que temos condições de administrar e gerar continua sendo responsabilidade nossa. A de Deus começa onde a nossa responsabilidade e capacidade termina.

Tanto a pessoa que acredita que pode e deve fazer tudo sozinha está errada; quanto aquela que atribui culpa a Deus por tudo que de ruim lhe acontece. Os dois extremos denunciam falta de compreensão de qual é o papel de Deus em nossa vida. Ou, melhor dizendo, qual papel permitimos que Ele ocupe em nossa vida. Ele não é um Deus distante na vida daqueles que decidiram ter uma aliança pessoal com Ele. Não se trata de ir à igreja ou de ter uma religião. Trata-se de entender que temos uma origem espiritual e que nosso Criador deseja relacionar-se conosco. Para os que optam por ignorar esta realidade, preferindo excluir Deus da equação, ou criam para si outros deuses ou perdem-se em uma rotina sem sentido.

Tudo aqui um dia acabará, a crise atual demonstrou como rapidamente podemos ter nossas circunstâncias modificadas. Infelizmente muitas vidas foram ceifadas precocemente. Muitos haviam feito planos bem estruturados para um futuro que não chegaram viver. A realidade é que todos nós só temos o presente e temos que vivê-lo da forma mais sábia possível. A sabedoria para viver o hoje está em estabelecer o fundamento de nossas escolhas e estratégias sob um alicerce imutável e eterno. Só existe uma forma de fazer isso, que é reconhecendo que não nascemos para viver apenas esta vida e que quando tudo aqui acaba, há continuidade.

Envelhecer é revolucionário

Envelhecer é privilégio de quem vive muito, mas, infelizmente, não é sinônimo de viver bem. Vive bem quem colhe nesta fase as escolhas sábias que fez.

Envelhecer pode ser um tabu e um desafio para muitas pessoas, mas é a coisa mais natural da vida. Como diz a letra da música de Arnaldo Antunes: envelhecer é a coisa mais moderna que existe nesta vida. Pois, cada fase de nossa existência possui sua beleza e deve ser vivida com intensidade. É bem verdade que o discernimento e a maturidade que os anos acrescentam são adquiridos sem atalhos. Ou seja, não existe nenhuma maneira de driblar o inevitável impacto que os anos causam em nosso corpo. Contudo, o ser humano é espírito, tem uma alma e habita em um corpo. Por isso, ainda que não consigamos proteger o invólucro, temos que zelar pelo que permanece e é eterno. O verdadeiro cuidado, portanto, origina-se no interior e afeta o exterior.

O mundo globalizado e a era da tecnologia possibilitaram acesso à informação de forma simples e eficiente. Nunca antes como agora, ouviu-se falar tanto sobre a importância do exercício físico, da boa alimentação e da vida livre de excessos. Contudo, a população mundial continua sem dar a importância devida aos cuidados que permitem um envelhecimento saudável. Aliás, cuidar apenas do corpo, esquecendo-se de lidar com a alma e o espírito não é suficiente e nem eficaz. A velhice é a fase em que os abusos cometidos cobram a conta e, infelizmente, nem sempre é possível revertê-los. Fazer escolhas erradas faz parte de todo processo de aprendizado, já que, só não erra quem desistiu de aprender com a vida. Contudo, precisamos assimilar este aprendizado, evitando a perpetuação dos erros e de suas consequências.

“Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo.” Charles Saint-Beuve

A infância e a velhice

A infância é a fase da vida onde deveríamos usufruir de maior liberdade. Não a liberdade que o adolescente reivindica, nem aquela dos movimentos revolucionários. Mas, aquela atrelada ao fato que podemos sonhar, brincar e acreditar em um futuro brilhante. Na proteção de lares estruturados as crianças deveriam crescer e fundamentar sua personalidade e caráter no amor e na aceitação. Sabemos que na prática não é essa a experiência da maioria da população. Inevitavelmente esse mundo de conto de fadas só existe na ficção. A vida real apresenta um quadro bem mais complexo e desafiador do que este. E é exatamente nesta fase que as sementes da velhice começam a ser plantadas.

Não é a toa que as últimas memórias que somem de nossa mente são aquelas experienciadas na infância. Negligenciar os cuidados desta fase pode bem impactar negativamente a vida adulta e a velhice. Uma criança segura e que recebeu amor transforma-se no adulto equilibrado que envelhecerá com menos conflitos. Contudo, podemos recuperar as perdas da infância na fase adulta e também na velhice se encararmos os desafios como oportunidades de aprendizado e não tivermos receio de nos reinventar. O desaprender e o reaprender não deveriam ser privilégio da criança, o adulto sábio é aquele que encara este processo com naturalidade.

“Ao envelhecer, parei de escutar o que as pessoas dizem. Agora só presto atenção ao que elas fazem.” Andrew Carnegie

Sem medo de envelhecer

Quem teme o envelhecimento não aprendeu o suficiente com a vida. É provável que o temor esteja associado a alguma lacuna que não foi corretamente preenchida. Ou ainda, pode bem ser resultado de uma nostalgia exagerada. A velhice é a fase da vida em que os cabelos brancos coroam uma trajetória de erros e acertos, e que também revelam nossa capacidade de não se levar tão a sério. Aquilo que no passado assumiria proporções gigantescas é capturado por um olhar mais gentil e menos ansioso. E toda circunstância que exige adequação e conserto é resolvida com menos esforço físico e mais inteligência. A vida assume um rítmo menos frenético, não só pela limitação imposta pelo corpo, mas especialmente pela sabedoria absorvida.

A geração atual de idosos sobreviveu sem o auxílio do celular e do computador. Ela aprendeu a aguardar pacientemente pela chegada de uma carta, assim como pelo tempo necessário para revelar-se uma fotografia. Este é um dos motivos que a capacita a valorizar gestos simples, sofrendo menos com questões que sabe que o próprio tempo se encarrega de ajustar. A tecnologia encurtou distâncias mas também imprimiu um ritmo desumano ao cotidiano de algumas pessoas. Certamente os desafios de envelhecer da nova geração serão diferentes, mas não menos significativos. A verdade é uma só, todos os que vivem suficiente para envelhecer têm oportunidade de usufruir desta fase com mais ou menos sabedoria. Isto é, a velhice é a fase em que a soma das escolhas feitas é denunciada.

“Se o tempo envelhecer o seu corpo, mas não envelhecer a sua emoção, você será sempre feliz.” Augusto Cury

As mudanças e trocas

As mudanças que acontecem são mais evidentes no corpo do que em qualquer outra parte de nosso ser. Mas o invisível aos olhos é o que tem capacidade de sustentar as limitações apresentadas pelo corpo. As rugas são uma mudança e não precisam ser cobertas com maquiagem, elas são revestidas de serenidade e clareza. A visão física limitada é complementada com a ótica de um coração generoso e grato que enxerga coisas que os olhos não capturam. Os cabelos brancos não são mais cobertos com tinta, mas revelam a postura correta que estreita laços e desfaz conflitos, adquirida ao longo dos anos. A audição pode estar falhando mas oferece o ouvido atento de quem se importa.

As mudanças nada mais são do que trocas feitas e oferecidas. Trocou-se o que era passageiro e frágil pelo que tem valor eterno. Troca-se o que era urgente pelo que é importante. De maneira idêntica, troca-se com facilidade o sorriso e o abraço pela necessidade de estar certo. Usar o vigor da juventude para construir o alicerce da velhice é a coisa mais sábia que podemos fazer com nosso tempo. Por outro lado não é comum pensar nisso quando se tem uma vida inteira pela frente. Envelhecer não é nosso alvo, mas é nosso destino. No entanto, chegar neste destino com sabedoria deveria ser nosso alvo.

“Qualquer idiota consegue ser jovem. (…) É preciso muito talento pra envelhecer.” Millôr Fernandes

As contradições do discurso.

Um discurso não carrega contradição quando representa o que somos e o que sentimos. Contudo, toda e qualquer tentativa de mascarar nossos sentimentos contamina nosso discurso.

Um discurso é contraditório, não quando é desprovido de coerência apenas, mas quando não reflete sua prática. Ou seja, ainda que a fala seja bem estruturada e não possua elementos paradoxais, ela pode bem ser considerada incoerente. Pois, a estruturação de um discurso coerente depende de uma mescla de aspectos. Já que além da capacidade de comunicar uma mensagem com clareza, ele precisa ser experienciado. Porque o que mais agrega contradição a uma fala não são as ideias mal elaboradas, e sim a incompatibilidade delas com quem as expressa. O discurso mais coerente e coeso será o que reflete a vida de quem o proclama.

Aliás, a vida sempre falará mais alto do que qualquer discurso, seja ele contraditório ou não. Nossa língua é um órgão capaz de gabar-se de grandes feitos, assim como pode nos enterrar em um poço de desânimo. Podemos usá-la para convencer outros e quem sabe a nós mesmos de que somos capazes, quando nem sempre isso representa a realidade. Assim como, podemos ser convencidos por discursos inflamados a respeito do quão insignificantes somos, sem que carreguem verdade alguma. O que verbalizamos é uma parte de nossa comunicação, mas não é o todo. Nossa expressão corporal fala; assim como falam nossas ações e escolhas.

Aquilo que consideramos prioridade será aquilo com o que gastamos mais tempo e recursos. Portanto, quando dizemos que amamos algo ou alguém e esta declaração não é respaldada por ações, trata-se de um discurso contraditório. Nossa vida possui muitas contradições e pouco nos damos conta delas. Elas são claramente percebidas por quem convive conosco, mas raramente identificadas por olhares casuais e desatentos. Gostamos de dar nomes diferentes para cada um destes discursos, maquiando sua verdadeira essência. A verdade é que somos frágeis e muitos não suportam a realidade de lidar com essa pequenez. Infelizmente, optam pela superficialidade sempre que ser verdadeiro pressupõe acessar áreas doloridas.

“Suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz.” Ralph Waldo Emerson

O confronto necessário

Cada ser humano é composto por um universo de experiências que modelam seu interior. É de lá que partem as reações e escolhas que fazemos. Nosso olhar é influenciado diretamente por estas gavetas secretas que ninguém sem permissão acessa; por vezes nem nós mesmos. São lugares embolorados, fétidos, úmidos e em geral muito doloridos. Todos nós temos ou tivemos algum destes lugares dentro de nós. Eles nascem de alguma experiência traumática ou da soma de muitas delas. Seja qual for a proporção que este lugar ocupe, acaba minando e contaminando quem somos. Pois, assim como um pouco de sujeira contamina toda água de um copo e não apenas parte dela, de maneira idêntica estas situações afetam todo nosso ser.

Alguns pretendem ignorar a existência destas zonas de conflito e por vezes sufocam suas emoções por anos. Mas as proporções aumentam consideravelmente sempre que negligenciamos a urgência e importância que devemos dedicar a este tipo de assunto. A extensão dos danos pode ser minimizada se o diagnóstico for precoce, permitindo tratamento adequado. O mais importante é saber que ninguém pode fazer isso em nosso lugar. Ou seja, temos que ter valentia de escolher faxinar nosso interior, removendo todo lixo acumulado.

É perigoso permitir que explosões ocorram a partir destes lugares. Pois as chances de espalharem lixo sobre pessoas e ambientes diversos é muito grande. Nosso subconsciente exerce um papel muito importante em nossas reações. Porque, é de lá que partem os medos, inseguranças, raiva, descontrole e todo comportamento que somos incentivados a abafar e reprimir. Contudo, quanto mais represados estiverem estes sentimentos, tanto menos liberdade temos de ser quem somos de fato. Não significa dizer que temos permissão ou que seria saudável extravasar sem critério tais emoções. O correto é reconhecer a existência delas e depois lidar com a origem de cada uma delas, impedindo-as de proliferarem.

“Quando o coração pode falar, não há necessidade de preparar o discurso.” Gotthold Lessing

O discurso coerente

O discurso coerente nasce quando o que nosso corpo e nossa boca falam se complementam. Quando a dor é reconhecida e revelada no gemido ou no grito e quando a tristeza se manifesta sem a carga da culpa. Não temos obrigação de estar sempre felizes, assim como não devemos fingir contentamento quando nosso interior está vazio. Um coração alegre aformoseia o rosto e nenhuma maquiagem é tão eficiente como a esperança que carregamos. Toda tentativa de disfarçar o cansaço ou a desilusão com roupas, atividades ou com uma fala otimista não será bem sucedida. O disfarce dura pouco, especialmente quando estamos rodeados de pessoas que nos conhecem de fato.

Deixar-se conhecer de fato é outro grande desafio. Já que confiar nossos sentimentos e permitir que vejam quem somos exige valentia. Não é sábio expor nosso interior sem critério, mas é igualmente maléfico fechar-se completamente. Os relacionamentos que temos deveriam ser um apoio nos momentos de conflito e não simplesmente um convívio fundamentado em trocas vazias e interesseiras. Nem todos conquistaram o direito de acessar nosso interior, contudo precisamos de um grupo seleto de pessoas com quem possamos contar. Só assim nosso discurso não será contraditório. Isto é, a contradição é eliminada de dentro para fora, com apoio de quem nos ama e conhece. Inevitavelmente a incoerência será suprimida quando não tivermos receio de lidar com o que nos desequilibra e oprime.

O pior cego é aquele que não quer ver. Não podemos forçar e nem seria legítimo exigir que as pessoas sejam honestas consigo mesmas. Contudo, o tempo se encarrega de revelar os contrastes de nosso discurso e do daqueles que nos rodeiam. Pior do que expressar um discurso contraditório é deixar-se enganar por ele. Ou seja, permitir que a dor e o desequilíbrio interno suprimam nossa espontaneidade e roubem nossa identidade. Não somos resultado de um experimento fracassado ou de um amontoado de experiências negativas. Temos capacidade de escolher o que abrigamos e nutrimos. Por isso, só proclama um discurso contraditório aquele que aceita esta versão de si mesmo, sem questioná-la, e não luta contra rótulos, que não o representam.

“Nem a contradição é sinal de falsidade nem a falta de contradição é sinal de verdade.” Blaise Pascal

A reinvenção permanente.

A arte da reinvenção está disponível na vida de quem não teme desaprender e reaprender. Sem ela ficamos estáticos e menos belos.

Reinvenção é uma palavra que assusta algumas pessoas, enquanto motiva outras. Nossa vida é recheada de momentos que propiciam a reinvenção. No entanto, nem sempre classificamos estas oportunidades de maneira correta. Ou seja, aquilo que para alguns representa uma chance de fazer diferente, para outros pode bem ser um grande obstáculo. O que diferencia nossa ótica são os conceitos limitantes que abrigamos. Infelizmente nossa sociedade impõe alguns padrões que não podemos aceitar como legítimos. De maneira idêntica, nossa criação alimentou algumas inseguranças e medos que precisam ser desmascarados.

Ao permitirmos que nos definam ou que nos rotulem, estamos concordando com limites não testados. Por isso, nenhuma outra pessoa deveria ter permissão de ocupar o lugar de protagonismo em nossa vida. Pois, mesmo que o pretexto seja o de aconselhar ou proteger, fomos criados com a necessidade de conquista e avanço e testar limites contribui para implementação deste processo. Portanto, cada vez que alguma crença limitante é incorporada ao nosso modus operandi, deixamos de explorar possibilidades. O medo da reinvenção se manifesta de várias formas e pode estereotipar-nos. Já que está baseado em premissas erradas e que podem ser modificadas.

A capacidade de reinvenção do ser humano não está atrelada ao seu tipo físico, grau de instrução, raça, gênero ou qualquer característica biológica. Todos nós nascemos com capacidades que precisam ser exploradas e desenvolvidas. Porque, mesmo aquilo que classificamos como dons, precisam ser aprimorados. Gostar menos ou mais de determinada área ou atividade, não é o mesmo que não ter habilidade de desenvolver uma tarefa. Engana-se quem pensa que os profissionais que se destacam em suas áreas de atuação possuem algum tipo de poder sobrenatural. Ao analisarmos sua trajetória concluímos que são pessoas comuns que dedicaram-se a aprimorar algum aspecto daquilo que queriam fazer.

“Poder se reinventar após experiências negativas é o segredo da felicidade.” O Ilusionista

Sonhar é permitido

O sonho pode ser a mola propulsora da trajetória que nos conduzirá para nosso destino. Mas, apenas sonhar não é o bastante. Temos que ter uma estratégia vinculada a cada objetivo que traçamos. O trabalho duro e disciplinado é o alicerce sobre o qual o sonho se estabelece. Quando uma alternativa falha, podemos testar outras possibilidades, analisando ângulos que ainda não foram explorados. Aquilo que consideramos o fim do túnel pode ser a passagem para uma nova etapa. De maneira idêntica, podemos nos reinventar fazendo a mesma coisa de um jeito diferente, inovando métodos e aprimorando resultados. A familiaridade pode ser um inimigo em muitos casos, portanto, devemos confrontá-la.

Uma nova necessidade deve nos desinstalar de nossa zona de conforto. Que é o lugar que mais nos prejudica e no qual gostamos de permanecer. Nosso cérebro gosta de padrões, e sempre resistirá a qualquer sugestão de responder diferente. Pois, a existência de um modelo prévio formatado incentivará a repetição. Teremos que empreender um gasto maior de energia quando desejamos mudar estes padrões, incorporando novos horizontes ao nosso cotidiano. O sonho, por definição, é algo abstrato que não possui correspondência no mundo físico e real. No entanto, em cada sonhador existe potencial de transformar seus sonhos em realidade. Contudo, isso só acontece na vida daqueles que entendem que precisam dedicar-se, perseguindo aquilo no que acreditam.

“A gente não precisa de certezas estáticas. A gente precisa é aprender a manha de saber se reinventar. De se tornar manhã novíssima depois de cada longa noite escura. A gente precisa é saber criar espaço, não importa o tamanho dos apertos.” Ana Jácomo

Modifique sua resposta

O cotidiano nos engessa e impõe ritmos que assassinam nossa espontaneidade. O compromisso com o relógio e com tudo que é urgente subtrai o que é importante. Dialogar com estes dois mundos, extraindo deles o melhor, é um diferencial que temos que almejar. Precisamos de inteligência emocional aliada a um senso de praticidade que nos permite otimizar o uso de nosso tempo. Inegavelmente o tempo é a principal commodity que somos desafiados a gerenciar. Portanto, não seria inteligente desperdiçá-lo, andando em círculos. Um contratempo em nosso dia pode ser uma oportunidade de mudar de rota, ou de desperdiçar energia reclamando. Um olhar treinado e faminto por mudança saberá identificar chances de introduzir o novo.

A dor é pedagógica, e não devemos temê-la como consequência do erro ou do acaso. Ninguém buscará machucar-se de propósito, nem seria lógico abandonar-se nos braços do desconhecido. Contudo, o excesso de previsibilidade nos mutila, assim como a familiaridade nos limita. Precisamos de doses de imprevisto e conflito em nossa jornada. Pois, a ostra feliz não produz pérola. Já que é o atrito causado pelo desconforto da substância indesejada que provoca a produção do revestimento produzido pela ostra, transformando o grão de areia na pérola. As pérolas não existiriam se os detritos não invadissem o molusco, e assim é conosco.

O medo funciona como um ímã, atraindo informações que o legitimam. Nossa mente buscará instintivamente protótipos que resistirão a qualquer sugestão de mudança, evitando o risco. Mas, ainda que seja um aspecto poderoso de nossa psiqué, o cérebro possui plasticidade e comprovadamente pode ser reprogramado. Desde simples hábitos alimentares até fobias irracionais podem ser modificadas. Qualquer forma de medo deve ser confrontada se quisermos explorar plenamente nossas capacidades. Medos nos limitam e escravizam e por mais que tenhamos razões de sobra para temer o desconhecido, ele deixa de ser desconhecido no momento que ousamos desbravá-lo.

“Cuidado com gente que não tem dúvida. Gente que não tem dúvida não é capaz de inovar, de reinventar, não é capaz de fazer de outro modo. Gente que não tem dúvida só é capaz de repetir.” Mario Sergio Cortella

Escolha sua guerra.

A escolha correta da guerra que decidimos travar é decisiva. Nem sempre a guerra urgente é a mais importante. Por isso, a vitória está atrelada à nossa capacidade de discernir onde está nosso foco.

Nossa vida pode bem ser comparada à uma guerra que travamos, que nos posiciona diante de nossos ideais e sonhos. Ou seja, a conquista de novos territórios passa por conflitos e adaptações de origens variadas. Certamente, cada um dos obstáculos pode ser comparado a um inimigo que deve ser derrotado. Esta analogia se presta para análise da importância de escolher, com sabedoria, nossa guerra. Já que, não é incomum que guerras se acumulem, competindo entre si e contribuindo para que distrações esvaziem nossa eficácia. Pois, quanto mais focados estivermos no que importa, tanto maior será a chance real de sermos bem sucedidos.

Portanto, quando estes conflitos se acumulam, interagindo entre si, é a hora exata de escolhermos nossa guerra. Ou seja, elas se apresentam como um emaranhado de fios que se entrelaçam e que exigirão paciência e muita destreza para que o movimento não aumente o nível do conflito. Já que, se puxarmos o fio errado, podemos maximizar o problema ao invés de encontrar uma solução. As questões de ordem emocional, por exemplo, devem ser tratadas com cautela. Estes assuntos podem ter uma origem muito antiga e de difícil identificação. Talvez exijam a ação do tempo, que promoverá o adequado distanciamento do episódio traumático. Só assim podemos remover raízes e resignificar algumas experiências.

Esta é uma guerra difícil de ser adequadamente diagnosticada e ganha. Porque está intimamente ligada a quem somos e aos traumas que carregamos. No entanto, alguns conflitos são meros convites ao amadurecimento. Podem bem ser superados com investimento em pesquisa ou em reciclagem. Contudo, nem sempre o primeiro olhar nos capacita identificar o que nos atrapalha e paralisa. O conhecimento e a prática de uma nova atividade ou de um novo jeito de fazer, pode agregar muito. Não só contribui para que novos horizontes sejam explorados, como amplia nossa visão de mundo. As diversas culturas existentes são a maior prova de que pessoas vivem de formas diferentes. Podemos e devemos aprender com estas diferenças.

Quando abandonar uma guerra

Escolher com sabedoria a guerra que queremos travar significa abandonar aquela que está perdida. De maneira idêntica, consiste em separar adequadamente aquilo que é factível do que não depende de nós. Pois, tudo que depende de nós merece nossa atenção e esforço. Contudo, a ansiedade gerada por aquilo que ultrapassa nossa esfera de ação deve ser desprezada. Já que, pode ser um fator que estará sugando nossa energia e ocupando nossa mente. Esse desperdício de tempo e quem sabe até de dinheiro, pode bem ser catalisado e otimizado na direção do que importa.

Os grandes estrategistas conseguem fazer a leitura do cenário completo para saber em que peça desejam mexer e quais precisarão ser sacrificadas. Assim como no jogo de xadrez, sacrificamos os peões pelo cavalo ou pela rainha. É precisamente essa noção daquilo que podemos e devemos sacrificar que define nosso avanço. De maneira idêntica, temos que avaliar cautelosamente o custo benefício de nossas ações. Muitos estão estagnados em algum ponto da jornada, porque temem as perdas. Inegavelmente ninguém gosta de perder, seja lá o que for. Mas, algumas perdas abrem espaço para que algo novo ocupe seu lugar.

A maioria dos objetos e coisas que adquirimos, possuem uma vida útil. Esta vida útil pode ser maior ou menor, dependendo do objeto. Assim são, também, nossas circunstâncias. A vida é feita de muitos momentos passageiros. Alguns ficam eternizados em nossa lembrança porque registram fatos agradáveis e que nos marcaram e transformaram. Tais lembranças possuem poder de nos motivar e inspirar. Contudo, alguns destes registros foram incrustados em nossa mente pela dor ou pelo mal que nos causaram. São precisamente estas marcas que temos que sacrificar, aniquilando-as, quando desejamos prosseguir.

A diferença de eficiência e eficácia

O simples fato de conseguir separar o que é de ordem emocional daquilo que exige uma solução pontual nos capacita a ser eficazes, não apenas eficientes. Ser eficiente é produzir o efeito esperado. Ao passo que ser eficaz é possuir uma virtude de tornar efetivo ou real. A eficiência é o ato de “fazer certo alguma coisa”, enquanto a eficácia consiste em “fazer a coisa certa”. Ou seja, a eficiência seria o comportamento de alguém que age com perfeição na realização de um determinado trabalho. Já a eficácia não se limita apenas ao cumprimento de uma tarefa, mas, apresenta a resolução total da situação.

Este conceito da administração, pode bem ser aplicado quando conseguimos nos situar em relação aos conflitos que enfrentamos. Temos que avaliar com honestidade e isenção o que pretendemos superar. Sabendo que podemos esbarrar em aspectos que não dependem de nós. Estes, exigirão não só interação como também boa articulação com os atores envolvidos. Já que, nossa habilidade política será testada. Não se trata, no entanto, da política que explora ou converte em benefício próprio algo que desejamos. Mas, do aspecto politizado das relações humanas que é o que nos permite lidar com diferenças de maneira civilizada e democrática, preferencialmente.

A arte da guerra

A arte da guerra, portanto, consiste em uma junção de vários fatores. Podemos destacar como chaves o equilíbrio emocional, o distanciamento que nos permite olhar a situação em perspectiva correta e a busca da eficácia. Nenhum destes aspectos é facilmente adquirido e talvez percamos muitas guerras até que sejamos suficientemente treinados na arte de guerrear. Uma guerra não assume conotação negativa quando os inimigos são o medo, a apatia, a procrastinação, a vergonha e outros tantos inimigos que precisamos derrotar. Nossa guerra não é contra alguém, ela se trava primordialmente dentro de nós. É uma luta interna que se materializa na capacidade de escolher e decidir de forma sábia.

Nenhum de nós levanta pela manhã querendo confronto de qualquer espécie. Ele acontece naturalmente à medida que começamos a nos posicionar diante daquilo que nos limita. Mesmo quando esbarramos em alguma pessoa que personifica um inimigo, nosso objetivo não deve ser o de aniquilar o oponente, e sim, de aprender como lidar com ele. A ira acumulada nos cega e impede que avancemos. Por isso, não é sábio abrigar ira e ressentimento. Estas emoções possuem poder muito destrutivo e afetam muito mais aquele que as hospeda do que quem é alvo delas. Enquanto vivemos, tropeçamos em inimigos que precisam ser derrotados.

“Só os mortos conhecem o fim da guerra.” Douglas MacArthur

As crônicas de Nárnia

C S Lewis, autor de Crônicas de Nárnia, escreveu vários livros e promoveu a reflexão de aspectos fundamentais de nossa existência. Vem dele a inspiração que transformou em uma fábula encantadora a trajetória de crianças com um espírito aventureiro. A narrativa não se presta apenas para entreter os amantes de histórias infantis, mas a todo aquele que tem curiosidade de descobrir a essência do que vive. O bem e o mal e o certo e o errado nos rodeiam. Não temos opção de ignorar sua existência ou nos eximir de fazer escolhas. A guerra é travada, diariamente, em nossa esfera de ação e dentro de nós. Temos que aprender a vencê-la. Disto depende nossa sobrevivência.

“Nem tudo está perdido como parece… sabe, coisas extraordinárias só acontecem a pessoas extraordinárias, vai ver é um sinal que você tem um destino extraordinário, algum destino maior do que você pode ter imaginado.”

“Acho que, se a gente pudesse correr sem nunca se cansar, nunca mais iria querer parar. Mas às vezes existem razões muito especiais para se parar.”

“Sabemos o que acontece quando uma pessoa tem esperança de obter uma coisa desesperadamente desejada; parece bom demais para ser verdade.” C S Lewis – As Crônicas de Nárnia

Fracasso é um evento, apenas.

A definição de fracasso e sucesso é ampla e não define quem somos. Já que, nosso valor não está atrelado ao que fazemos. Mas, a quem somos e em quem nos transformamos.

Fracasso é um evento, não uma pessoa. John Maxwell 

Considerar fracasso como um evento e não vinculá-lo ao valor da pessoa é o que separa o sábio do tolo. Ou seja, quando nos relacionamos com quem nos cerca em bases corretas, sabemos separar o feito de seu autor. Muitos são os fatores que influenciam nossas escolhas. Algumas delas são erradas. Mas, não menos importantes. Já que, todo processo de aprendizado pressupõe erro. Só não erra, quem não faz. E, tudo que se faz pela primeira vez não é perfeito. A prática de uma atividade é que agrega eficiência e destreza na sua execução. Pois, os especialistas em sua área de atuação, estabeleceram-se com doses de disciplina, dedicação e perseverança. Ninguém nasce sabendo e todos estamos vivendo pela primeira vez. Por isso, a frustração que acompanha alguns momentos, não deve determinar quem somos.

Somos mais do que nossas conquistas. Portanto, não devemos medir nosso valor baseado nelas exclusivamente. Já que, nem sempre elas traduzem corretamente quem está por trás delas. Ou seja, nem sempre o domínio externo de uma atividade traduz coerentemente seu autor. O tempo testa, não só a veracidade, como a solidez de nossos feitos. A montanha russa de emoções e conflitos dos momentos difíceis não nos define. Pelo contrário, esta é, precisamente, a estação que propicia amadurecimento. Pois, a pressão externa revela nosso interior. Quanto mais equilibrada é nossa motivação e estrutura emocional, tanto mais facilidade temos de nos desvencilhar e vencer os desafios da jornada.

O descontrole e a opção de achar culpados para nosso fracasso, denuncia e escancara nossa imaturidade. Já que, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e cada desafio é uma oportunidade de recomeçar, revisitando nossas premissas. Não se pode passar pela vida considerando que nossas posições não precisam ser lapidadas. E, a lapidação acontece exatamente no momento que nossa abordagem esbarra em alguma resistência. Ou seja, o contraponto que a vida nos propõe, através de situações diversas, é a chance que não deve ser desperdiçada. Os sábios são aqueles que aprendem com estes momentos e acrescentam bagagem ao seu olhar. Pois, nosso caráter é testado pelas circunstâncias nas quais estamos inseridos.

Não se pode jogar a toalha

Os que escolhem jogar a toalha, são os que não entenderam a dinâmica da vida. São, também, aqueles que valorizam demais o aplauso e a vaia. Pois, quando atrelamos nosso valor ao que fazemos, teremos tendência de desestabilizar diante dos fracassos. O olhar de quem não está conosco na arena e que, portanto, não discerne nosso momento, não deve ter peso. Ou seja, temos que escolher que voz ouvimos. É decisivo separar o ponto de vista de quem, comprovadamente, torce por nosso sucesso; daquele que apenas critica. Porque, as críticas de quem não está do nosso lado, são oriundas de uma posição equivocada. Já que, o amor e a empatia são demonstrados com gestos práticos.

Podemos medir o grau de comprometimento de uma pessoa conosco ou com uma causa; por sua disposição de se envolver. Quanto mais identificados estamos com algum objetivo, tanto mais disponibilidade temos de nos envolver com ele. Pois, gastar tempo e energia em projetos individuais ou corporativos denuncia o grau de importância que a atividade tem para nós. De maneira idêntica, denuncia o quanto quem nos critica está realmente se importando conosco. Já que, nem todos que estão ao nosso lado somam para que nosso objetivo seja alcançado. Eliminar estas vozes é tão importante quanto ouvir aqueles que realmente precisam ser ouvidos.

O que nos impede de jogar a toalha é possuir uma identidade sólida. Esta identidade nasce de momentos em que nossas motivações são colocadas em “xeque“. Certamente, são exatamente estes episódios que a vida usa para fortalecer nossas convicções ou ajustá-las. Não é vergonhoso reconhecer os erros. Pois, eles estão misturados com os acertos. É inadequado, no entanto, basear-se neles para desistir. Talvez tenhamos que nos reerguer de posições bem humilhantes. Contudo, mais humilhante seria permanecer nelas. O orgulho e a preocupação demasiada com a opinião do outro pode nos paralisar. Inegavelmente esse é um dos desafios que precisa ser superado.

“Ninguém pode fazer com que você se sinta inferior sem o seu consentimento.” Eleanor Roosevelt

Evitando a estagnação

As estações da vida, assemelham-se às estações do ano. Temos nosso inverno emocional, e nele permanecemos até que a primavera chegue. Situar-se corretamente nos tempos e estações ameniza a dor dos ajustes. Não é possível frutificar fora da estação. Assim como não se pode imputar um desempenho exagerado a si mesmo; quando o momento exige quietude. Esperar e aprender com cada nova estação é imprescindível e determinante. Por vezes fazemos a coisa certa, na estação errada ou do jeito errado. Outras vezes deveríamos agir e permanecemos estagnados. O compasso dessas escolhas pode comprometer os resultados. Uma vez que acertar o passo é tão importante quanto se mover. Os intervalos entre as estações precisam ser respeitados.

As janelas de oportunidade que surgem em nossa vida se fecham. Desperdiçá-las por medo ou insegurança, compromete nossos sonhos. Cada objetivo de vida que temos será conquistado à medida que aprendemos a viver um dia de cada vez; extraindo dele o que de melhor nos oferece. Olhar demasiadamente para o passado ou temer o futuro nos paralisa. Deixar-se moldar e definir pelas sombras e fantasmas do que passou é tão nocivo quanto temer demasiadamente o futuro. Estas posturas são dois lados de uma mesma moeda. 

“O meu maior medo foi sempre o de ter medo – física, mental ou moralmente – e deixar-me influenciar por ele e não por sinceras convicções.” Eleanor Roosevelt

Somos responsáveis por nossas escolhas

“A filosofia de uma pessoa não é melhor expressa em palavras; ela é expressa pelas escolhas que a pessoa faz. A longo prazo, moldamos nossas vidas e moldamos a nós mesmos. O processo nunca termina até que morramos. E, as escolhas que fizemos são, no final das contas, nossa própria responsabilidade.” Eleanor Roosevelt

Saber diferenciar uma estação de outra e que vozes nos influenciam é essencial. Assim como é determinante nos responsabilizarmos pelas escolhas feitas. Nosso protagonismo não pode ser negociado ou terceirizado. As chantagens emocionais e os jogos de manipulação, que esvaziam nossa identidade, não serão admitidos quando estas premissas forem estabelecidas. O pano de fundo de nossos conflitos será sempre uma mescla de emoções, escolhas e aprendizados. Quanto mais essa narrativa for clara, tanto maior será nossa capacidade de codificá-la corretamente. Ou seja, quanto mais limpo e controlado nosso mundo interior estiver, tanto maior será nossa capacidade de escolher certo.

A valentia e a maturidade nascem precisamente nos duelos que travamos conosco mesmo. Quem teme esta avaliação, ou pretende ignorá-la; perde. Pois, engana-se quem pensa que temos poder sobre o outro. O único poder que realmente temos é sobre nós mesmos. Não somos donos de ninguém. Não nascemos para este tipo de conquista. Nascemos com a necessidade de conquistar territórios internos que nos transformam em pessoas mais completas. O bisturi dessas cirurgias que, nos curam ou nos aleijam, está em nossas mãos; não na do outro. Nós decidimos o que a dificuldade extrairá de nós e onde depositaremos os detritos. Ou seja, o que nos sara é a remoção dos excessos e o que nos deforma é o movimento impreciso e descontrolado que nós mesmos promovemos.

A faca do outro não pode nos moldar, se não permitirmos. Ela poderá nos ferir, mas jamais pode nos definir. Ganha quem assume para si a responsabilidade do que fará com os pratos que a vida serve. Podemos nos alimentar deles, processando os ingredientes e eliminando o que não presta. Ou, escolher jogá-los no rosto de quem está à nossa volta, como se fossem os responsáveis por eles. O fracasso não nos derrota quando entendemos que ele é um dos ingredientes deste prato. Dele podemos extrair muita substância e energia para continuar lutando. Ele apenas sinaliza que continuamos na arena, ao lado daqueles que, como nós, não desistiram de lutar.

Respeito e tolerância são diferentes.

Respeito e tolerância não significam a mesma coisa. Respeito é oferecido para pessoa por ser quem é. Tolerância é concedida quando se pretende manter convívio, onde o respeito não existe.

Respeito e tolerância podem manifestar-se de forma semelhante, mas não são a mesma coisa. Pois, quando respeitamos a posição de uma pessoa, ela não precisa necessariamente ser igual a nossa. O respeito está relacionado ao valor da pessoa e permite divergir, desde que o valor da individualidade seja mantido. Ou seja, o que está sendo discutido é a ideia ou ponto de vista e não o valor de quem pensa diferente. Contudo, no caso da tolerância, o que entra na análise é o valor da pessoa, junto com sua ideia. Portanto, a intolerância viola o direito do outro e o desqualifica por pensar diferente. A linha pode ser tênue em alguns casos, contudo, o resultado é muito diferente quando um e outro são oferecidos.

Nos dias atuais, com este ambiente polarizado, precisamos exercitar respeito e não apenas tolerância. Pois, ao desrespeitarmos as escolhas e diferentes opiniões estamos atingindo o ser humano que está por trás da ideia, manifestando-se legitimamente. Não temos obrigação de concordar ou de imitar posturas que consideramos inadequadas. Contudo, revidar com intolerância é a pior resposta que podemos dar. Sabe-se que quanto mais dividido e polarizado um grupo está, mais frágil se torna. De maneira idêntica, quanto mais unido e coeso estiver, tanto mais força possui. Os objetivos que temos são muito semelhantes quando conseguimos separá-los dos métodos que adotamos para conquistá-los.

Por isso, o que temos que oferecer para o que pensa diferente, são nossos ouvidos, não nossa indiferença ou agressividade. Soma confusão a um contexto confuso aquele que se utiliza da desumanização como argumento. Pois, a empatia é o melhor antídoto contra os julgamentos. Já que, quanto mais distantes estamos dela, tanto menos sucesso temos na análise equilibrada dos fatos. Porque, ao nos colocarmos no lugar do outro, podemos avaliar sob sua perspectiva as reações e escolhas que faz. Certamente, este é um exercício nem sempre fácil de se fazer. Contudo, a chave que decodifica e soluciona o enigma é fundamentada em respeito, não em mera tolerância.

Apenas tolerância não resolve

Podemos equivocadamente pensar que nossa tolerância em relação a um pensamento antagônico é o bastante. Mas, quem apenas tolera se sente superior ao outro em alguma medida. Porque, analisa os fatos com um olhar de superioridade de quem não tem nada a aprender com o outro. O que tolera é aquele que ouve por educação apenas; quando ouve. Por vezes, nem isso é capaz de fazer. A intolerância em qualquer esfera é o combustível das guerras e de toda destruição que o homem causa a si mesmo e ao seu semelhante. Pois, quer gostemos ou não, estamos inseridos em uma cadeia onde nossos atos repercutem. Portanto, não podemos agir impensadamente e imaginar que quem está à nossa volta não sofrerá algum tipo de dano.

A interação que acontece entre cada um de nós pode bem ser subliminar, mas ela não é invisível ou inexistente. Ainda que custemos a avaliar corretamente a extensão de nossas ações, elas existem. E, quanto mais influência temos, maiores são os danos que podemos causar com as escolhas que fazemos. Grandes homens, ao longo da história, contribuíram positivamente com suas descobertas e provocações. De maneira idêntica, alguns destruíram nações inteiras com seu orgulho e tirania. Ideias erradas implementadas e disseminadas contaminam gerações e podem alimentar o ódio e a intolerância.

“Não existe outra via para a solidariedade humana senão a procura e o respeito da dignidade individual.” Pierre Nouy

Respeitando o semelhante

O ciclo de vida de uma pessoa não inclui apenas avanços. Os retrocessos e os erros também estão presentes em nossa jornada. Mesmo que sejamos bem sucedidos e alcancemos nossos sonhos, nossa passagem aqui é curta. Conquistar posições, pisando em cima de quem quer que seja, não é uma estratégia inteligente. Pois, todos os bens materiais e contribuições que possamos dar para a humanidade não nos acompanham quando nossa vida aqui acaba. O que levamos conosco é o bem que fazemos, e o amor que semeamos. Os rastros de indiferença, ódio e desavença estarão sempre depondo contra nós e contaminarão nossa biografia e vitórias. Porque, um pouco de sujeira contamina toda água do copo, não apenas uma parte dela. De maneira idêntica, nossa postura equivocada compromete muito dos objetivos alcançados, não apenas parte deles.

O dom supremo é o amor e nele não existe inveja e ressentimento. Amar é respeitar as diferenças e reconhecer no outro uma pessoa de valor. Porque, independentemente das escolhas que faz, a individualidade do ser humano não pode ser usurpada. Defender esse território é tarefa de cada um e deveria ser compromisso de todos. Quando entendemos definitivamente que não é legítimo eliminar o outro para defender nosso ponto de vista, estamos seguindo na direção correta. Por isso, qualquer caminho que estimule comportamento diferente, deve ser descartado. Pois, nenhuma conquista pode ser validada quando se utiliza de meios que agridem e destituem o semelhante do protagonismo que tem de sua própria vida. Esta é precisamente a linha divisória que jamais pode ser ultrapassada.

“Quando se respeita alguém não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento.” Simone de Beauvoir

Quando os papéis se invertem.

Os pais viram filhos, depois de certa idade. Somos privilegiados quando podemos cuidar deles, retribuindo o cuidado recebido.

Na vida alguns papéis se invertem de tempos em tempos. O que ganhava perde, quem ensinava aprende e assim por diante. Estas inversões não são negativas em sua essência, se soubermos fazer a leitura correta do que representam. Neste ano experimentei uma inversão de papéis com meu pai. Ele que, durante anos, foi responsável por meu sustento, educação, segurança e cuidados, necessita que eu assuma, agora, este papel na vida dele. Como uma pessoa independente que sempre foi, recusou-se a admitir que precisava de ajuda. Resistiu enquanto pode a todos os desafios e limitações que o Alzheimer impôs à sua rotina. A higiene passou a não ser importante, assim como desistiu de saber em que dia da semana, mês ou ano estava.

Tudo foi desmoronando lentamente ao seu redor, até que tivemos que intervir. Mas, não estava convencido de que a hora havia chegado. Gritou, esperneou, argumentou e por fim perdeu o controle daquilo que tão tenazmente tentava manter – sua autonomia. Uma decisão difícil para ele e para nós. Foi e tem sido dolorido vê-lo esquecendo de coisas básicas que fazia com tanta desenvoltura. Hoje precisa de ajuda para alimentar-se, para ir ao banheiro e para tomar banho (quando concorda em tomar). Continua sem saber que dia da semana é, porém hoje não coloca sua vida em risco, tentando deslocar-se para os locais que costumava frequentar. Quando relata sua rotina, transita por tempos que se misturam. Ora está trabalhando, ora de férias, sem contudo, relacionar-se com a dura realidade de que está institucionalizado.

Uma pandemia

Além do inimigo que foi chegando lentamente e invadiu seu mundo e o nosso, uma pandemia impiedosa imprimiu restrições de convívio que o deixaram ainda mais confuso. Não bastasse a troca de uma rotina por outra, ele agora não poderia receber visitas. O nível de angústia aumentou ainda mais quando o vírus entrou em cena e sem dó nem piedade obrigou-o a ficar em isolamento. Estava literalmente encurralado em um mundo confuso e bem barulhento. O ruído não era oriundo dos carros e ônibus que sempre o incomodaram, vinha das perguntas sem resposta que ecoavam dentro dele. Porque, seu mundo interior estava confuso e turbulento. Um mundo desconhecido no qual estava preso e que não fazia sentido algum.

Lutar contra apenas um inimigo já era difícil, agora eram dois em um mesmo momento, o que tornava a guerra ainda mais injusta. Uma verdadeira covardia, já que, eram dois contra um. Contudo, ele reuniu todas as forças e lutou bravamente contra o último inimigo, quase que sem se abalar. Precisou sim de internação e da ajuda de alguns medicamentos. Mas, mais uma vez reivindicou inconscientemente liberdade. E, assim que o vírus deu uma trégua, voltou para a companhia dos profissionais que hoje cuidam dele. Pessoas que ele confunde com familiares e até ex-namoradas, eventualmente. São nossos olhos e ouvidos neste momento tão desafiador. Não teríamos conseguido chegar até aqui sem a ajuda e apoio deles.

Assumindo nosso papel

Nosso papel hoje é o de cuidar das contas, para que receba o tratamento que o deixa mais organizado e feliz. Os contatos telefônicos são rápidos e esquecidos por ele em questão de minutos. Não possui mente para guardar as informações que recebe. Contudo, o passado garante que ainda lembre de nossa voz e imagem. Sabemos que aos poucos sua capacidade de interagir conosco tende a diminuir. Infelizmente chegará o dia em que não saberá quem somos. Mas, até lá, a gente repete quantas vezes for preciso o que ele estiver perguntando e a informação que queremos que ele tenha. Nossas conversas são quase uma ficção. Transitamos por épocas de sua e nossa infância na mesma conversa, como se tivéssemos participado com ele de todos eventos.

Por isso, estes contatos eventuais beneficiam mais a nós do que a ele. Saber que está limpo, alimentado e sem dor já é um conforto. Estas eram as preocupações que tinha conosco quando éramos crianças. Inegavelmente, hoje são as nossas com ele. Ele é a nossa criança, um bebê que reclama da dor causada pela remoção de um esparadrapo, como se fosse a causada por uma cirurgia profunda. Uma criança que cuidou de outras cinco e se despede da vida como criança. Estar ao lado dele nesta hora é tentar diminuir a angústia e ansiedade que o deixam tão impotente. Sente-se preso em um corpo que tem disposição para longas caminhadas, cuja mente não registra nem a origem e nem o destino que pretende percorrer. A vida perdeu muitas cores e nuances e sofremos junto ao vê-lo despedindo-se dela desta forma.

O pai perfeito

Ele não foi um pai perfeito. Errou e foi meu herói e bandido, como diz a letra da música de Fábio Júnior. Não errou porque era pai, errou porque é ser humano. Afinal, todos nós erramos. Certamente, há quem decida contabilizar erros e não acertos, porque escolheu ver o copo meio vazio e não meio cheio. Não é o meu caso, escolho o copo meio cheio sempre. Fez por nós, os filhos que teve, mais do que recebeu. Já que não carrega em sua certidão de nascimento o nome do pai biológico. Nem herdou dele o sobrenome, que hoje também é meu. Não recebeu carinho e afirmação da figura paterna, tendo que repartir conosco o que não tinha estocado dentro de si. Adquiriu esta capacidade de nos oferecer proteção e amor ao olhar pela primeira vez nosso frágil rosto e nos pegar no colo. Foi responsável pela construção do teto, que transformou-se no piso, sobre o qual cada um de nós partiu para viver a vida.

Sem estudo, e com muita determinação e perseverança; alimentou e educou os filhos. Agora é nossa vez de cuidar dele. Não se trata de uma obrigação e sim de um privilégio. O sacrifício que fez para não deixar a peteca cair; agora é nosso. Neste dia dos pais, minha homenagem é para ele. O único pai que é meu e a quem amo. Aquele que fez por mim muito mais do que consigo fazer por ele. Estamos nos esforçando para garantir dias em que o ambiente externo o ajude a focar no que ainda consegue extrair da vida. Ele é um guerreiro, sempre foi. Não será agora que desistirá da luta e das batalhas que trava. Minha admiração, carinho e gratidão neste dia é para ele. Para todos os pais que estão presentes ou que não podem estar conosco, um FELIZ DIA DOS PAIS.

“A criança é o pai do homem.” William Wordsworth